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Protetores relatam desafios na proteção animal em São Luís

Ana Cristina Sousa Lima - Capitã do Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão - Foto: Reprodução
Ana Cristina Sousa Lima - Capitã do Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão - Foto: Reprodução

O abandono e os maus-tratos contra animais são realidades duras que saltam aos olhos nas ruas de São Luís. Diante da ausência de políticas públicas plenamente eficazes, surge a figura dos protetores independentes: cidadãos comuns que transformam suas rotinas e doam suas vidas para salvar cães e gatos desamparados.

Para compreender esse universo de doação, mas também de invisibilidade, ouvimos três personagens dessa luta na capital maranhense: a capitã do Corpo de Bombeiros Ana Cristina Sousa Lemos, a empresária Maria do Perpétuo, conhecida como Petinha, e o empresário Nyelson Weber.

O despertar da causa

A entrada na proteção animal raramente é planejada, ela costuma acontecer por um chamado do destino. Para a bombeira militar Ana Cristina, tudo começou há duas décadas, dentro de seu próprio condomínio:

“A minha motivação começou há 20 anos. Minha filha viu gatinhos comunitários e quis adotar. Adotamos uma gatinha e não sabíamos nada sobre o animal. Ela veio ‘batizada’: estava prenha. Teve quatro filhotes e ficamos com todos. Ali começou a nossa saga”.

Para Nyelson Weber, a virada de chave teve nome: Jake. O cãozinho, adotado bem filhote, tornou-se seu apoio em um momento de profunda vulnerabilidade:

Eu estava passando por um momento de depressão, no começo do diagnóstico. O Jake foi um apoio emocional muito grande, que aconteceu naturalmente. Ele partiu há um ano e meio, vítima de câncer. Posso dizer que ele é um dos responsáveis por eu estar vivo hoje”.

A partir dessa gratidão, Nyelson abriu as portas do sítio de sua família para oferecer lares temporários, imergindo completamente na causa.

Já para Petinha, a motivação veio de um incômodo crescente com o comportamento humano: “De 15 anos para cá eu resolvi fazer alguma coisa a mais, pois cada dia que passa a maldade humana só piora em relação aos inocentes, principalmente os animais de rua“, afirma.

Maria do Perpétuo, a Petinha – Foto: Reprodução

Uma dura rotina

Quem olha de fora muitas vezes não compreende o impacto da proteção na vida pessoal dos voluntários. O trabalho é diário e cobra um preço alto da saúde física e mental. Nyelson relata que cumpre o que chama de “trabalho voluntário diário de quatro horas”, divididas entre as manhãs e as noites para alimentação e limpeza.

Essa dedicação limita liberdades básicas, como o direito de viajar ou de ter momentos de lazer espontâneos. “Hoje sou uma pessoa que não posso viajar, abro mão disso porque tenho que dar assistência a eles”, desabafa Ana Cristina, cuja rotina se divide entre três frentes de trabalho e uma pós-graduação. Além do tempo, o desgaste emocional e financeiro é uma constante que gera adoecimento.

Nyelson revela uma face pouco dita da proteção: “A dificuldade financeira tira o nosso sono. Eu gastei muito dinheiro no meu cartão de crédito, tenho dívida que não consegui pagar. Isso mexe com o emocional. Eu adquiri ansiedade, estou tratando desde o ano passado. E esse trabalho voluntário é dividido com minha esposa, que também sofre. Mexe com o relacionamento.”

Ana Cristina corrobora essa realidade, revelando o tamanho do sacrifício orçamentário: “Hoje, eu comprometo mais de 50% do meu salário com os gastos dos animais”, relata.

Intolerância e falta de apoio

Os três entrevistados são unânimes ao apontar que o maior desafio da proteção não são os animais, mas as pessoas e a estrutura pública. Para Ana Cristina, a incompreensão humana dói mais que as dificuldades diárias:

O maior obstáculo é a intolerância humana pelos animais. Já fui processada, já processei, tivemos casos de envenenamento e maus-tratos e levamos tudo para a justiça. Há também a ausência de políticas públicas no que diz respeito a apoio financeiro e local para abrigo”, conta.

Embora o Hospital Público Veterinário e a UEMA ofereçam atendimentos, a alta demanda e os custos de exames complexos criam gargalos. Na urgência, os protetores dependem da sensibilidade de clínicas parceiras particulares que praticam a chamada cota social (descontos para protetores).

Castração: A única solução contra o “enxugar gelo”

Se há um consenso absoluto entre os protetores é que a realização de resgates sem um controle severo de natalidade equivale a enxugar gelo. “A castração evita procriação, abandono e sofrimento. Em média, dois meses após parir, a fêmea já pode entrar no cio novamente”, alerta Petinha. Ana Cristina traz números que ilustram de forma matemática a importância desse controle populacional:

“Uma fêmea não castrada vai parir quatro vezes no ano, uma média de seis filhotes por barrigada: são 24 animais por ano. Se eu tenho 10 fêmeas não castradas, são 240 animais por ano dentro de um condomínio. Ninguém ia ter paz para viver. Graças a um trabalho de 20 anos, todas as fêmeas do meu condomínio estão castradas. Passamos de uma população de mais de 200 animais para cerca de 50 hoje“.

Nyelson Weber acrescenta que o papel da proteção não é apenas o recolhimento físico, mas a transformação cultural através da educação: “O meu sonho a longo prazo é deixar de fazer esse trabalho tão árduo e atuar na causa de outras formas, como fazer palestras em escolas e atuar na mudança de cultura. A sociedade precisa mudar seus comportamentos com relação aos maus-tratos”.

Nyelson Weber da ONG Pets do Weber – Foto: Reprodução

Muitas vezes, a chegada de um animal ocorre de formas completamente inusitadas. Nyelson compartilha histórias curiosas sobre como seus resgates acontecem: “Acho que 80% dos resgates aconteceram de maneira inusitada. Eu estava passando e vi. Já resgatei um cachorro dentro de um shopping porque o pneu do meu carro furou e o cão apareceu enquanto eu trocava o pneu. Já resgatei gato porque errei o caminho e entrei na rua errada“.

Outro aspecto que exige seriedade é o processo de triagem para adoção. Engana-se quem pensa que basta querer para levar um animal. Os protetores aplicam questionários rigorosos. Para gatos, por exemplo, Nyelson exige que as casas ou apartamentos sejam totalmente telados para evitar rotas de fuga.

Além disso, há o monitoramento pós-adoção. Infelizmente, os animais idosos sofrem com o preconceito e raramente são escolhidos. “Os cães que estão conosco a maioria são muito idosos. A gente acaba aceitando que eles vão viver conosco até seus últimos dias“, relata.

Para incentivar a adoção de felinos, Ana Cristina desenvolveu uma estratégia acolhedora: além de entregar o animal com a castração garantida, ela doa um kit completo contendo caixa de transporte, caixa de areia, ração, pazinha e vasilhames. “Às vezes a pessoa quer adotar por impulso e não está preparada. Quando recebe o kit, a felicidade é impressionante“, conta.

A recompensa no travesseiro

A percepção da sociedade sobre essas figuras ainda é distorcida. Muitos acham que os protetores são “loucos” ou que recebem recursos para isso. No entanto, mesmo diante de todas as adversidades e boletos acumulados, a sensação de salvar uma vida é insubstituível.