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IMPERATRIZ

“Ele ofendeu toda uma raça. Tratar negro como lixo, pra ele, é normal”, diz delegado sobre homem preso por racismo no Maranhão

Fato ocorreu em barraca de comida na cidade de Imperatriz. Crime de racismo é inafiançável e homem permanece preso.

Homem é preso após cena de racismo em Imperatriz

Em meio a barracas de lanche cheias de clientes, em uma área da cidade conhecida como “4 bocas”, era mais uma noite comum em Imperatriz. Enquanto aguardava o pedido, Vital Rodrigues de Carvalho (51) acompanhava o noticiário na TV, que exibia reportagem sobre os protestos contra o racismo nos Estados Unidos, iniciados há 11 dias, quando George Floyd, homem afro-americano, foi morto por asfixia, após ficar imobilizado por mais de 8 minutos, pelo pescoço, de bruços em uma estrada, em uma abordagem da polícia de Minneapolis, no noroeste dos Estados Unidos.

George Floyd tinha 46 anos e era pai de uma garota de 6

Horrorizado mais uma vez pela notícia do racismo que provocou a morte do homem americano, Vital quase não conseguia acreditar em uma cena ainda mais próxima dele, exatamente na mesa ao lado, onde dois homens conversavam e opinavam sobre a mesma reportagem. “Uma confusão dessa por causa de um preto desse (…), preto e merda é a mesma coisa”, disse um dos rapazes, por pelo menos três vezes, segundo Vital, que diz ter ouvido e visto os gestos preconceituosos do homem, identificado como Eraldo Oliveira Mourão. Nessa hora, Vital de Carvalho conta que se levantou e foi em direção à mesa de Eraldo, quando revelou a identidade e a profissão.

“Eu disse: ‘O senhor tem noção do que o senhor acabou de falar? Tem noção da gravidade da sua opinião preconceituosa? Eu sou Vital Rodrigues de Carvalho, delegado de polícia civil em Imperatriz, e o senhor está preso pelo crime de racismo!'”, relatou o agente de polícia. Eraldo Mourão, nesse instante, tentou se defender, alegando que era apenas um comentário pessoal. “Ele contestou, disse que eu não poderia prendê-lo porque ele era empresário”, detalhou Vital. O delegado consentiu que o suspeito fizesse contato com advogados, mas, em vez disso, Eraldo telefonou para um amigo, que é delegado da polícia federal em Brasília e que, segundo o delegado Vital, até tentou intermediar para evitar a prisão. “Mas eu expliquei tudo pro amigo dele, que também é meu conhecido e não quero aqui mencionar nomes, e não havia como negar o que tinha ocorrido”, informou Vital Rodrigues.

Homem é preso em Imperatriz após comentários racistas sobre protestos que ocorrem nos Estados Unidos

Dada a voz de prisão, o delegado tentou contato com a delegacia, mas não conseguiu acionar ninguém. Por coincidência, segundo o denunciante, nesse momento uma viatura da polícia civil passou pela rua; ao pedir parada para solicitar a condução do suspeito, Vital percebeu que era o próprio delegado regional quem estava dentro do veículo, a quem narrou o fato. Eraldo Mourão foi levado para a delegacia, então, onde prestou depoimento ao delegado de plantão, Carlos César Andrade.

“O meu colega delegado entendeu que o crime não foi de injúria racial, mas de racismo, que é um crime inafiançável e tem pena de 1 a 3 anos de reclusão. A injúria racial requer que a ofensa seja dirigida a uma pessoa em função da sua cor, mas quando vc olha o artigo 20 [da Lei de Racismo], você vê que ele estava em um lugar público e fez a incitação, ele ofendeu toda uma raça”, comentou Vital Rodrigues, que também foi para a delegacia, onde prestou depoimento sobre a cena presenciada.

Lágrimas de dor e angústia

Vital Rodrigues de Carvalho se reconhece um homem negro e assegura que não agiu motivado pela cor da própria pele, considerada “morena clara” no vocabulário popular, mas em nome dos valores que carrega. “Minha mãe, falecida há 16 anos, era bisneta de escravos africanos. Meu pai era fruto da miscigenação. Somos 11 irmãos hoje, de todas as cores, a melanina é mais forte em uns que em outros, mas está em todos nós”, compartilhou o delegado, que está na polícia há 21 anos e ainda não tinha passado por nada parecido. “Depois que a viatura levou o suspeito, eu comecei a chorar, foi muito forte aquilo. Depois, na hora de prestar depoimento, novamente precisei me acalmar”, revelou.

Para Vital, as lágrimas ali derramadas revelam a dor pela falta de empatia e humanidade, característica do racismo, e também uma espécie de angústia. “Tratar negro como lixo, pra ele, é comum, é normal. Essa é uma declaração muito perversa, muito malvada, desprovida de todo e qualquer sentimento de humanidade. Achar que aquele homem ali morto há 10 dias não era nada, era excremento, é algo terrível”, defende.

Delegado Vital ao lado do filho e dos irmãos

Transformação social

Não é apenas no Brasil e nos Estados Unidos, país com foco dos protestos atuais, que a população afrodescendente sofre com o racismo. “Em diversas nações, especialmente as que contaram com mão-de-obra escrava africana nas colonizações seculares, a luta ainda é grande para se diminuir as diferenças sociais e econômicas motivadas pela cor da pele. O racismo está enraizado em muitas sociedades. Mudar isso é um dever das famílias e de todas as instituições, como escolas, igrejas e o próprio poder público, além dos movimentos que já atuam nesse cenário”, apontou o cientista social e pesquisador Gabriel Nava.

Delegado Vital realizou a prisão de Eraldo Oliveira após cena de racismo em Imperatriz

“O nosso racismo é ainda mais violento, nosso racismo é velado, e o silêncio mata. Enquanto o cidadão e o agente do estado achar que não importa, não sei aonde chegaremos”, declarou Vital de Carvalho, que nas últimas horas disse ter orado muito. “Não que eu seja religioso, mas sou cristão. Orei por mim, orei por ele [o suspeito], pois não consegui parar de pensar nas palavras que ouvi”, comentou.
O delegado, que esteve recentemente afastado por Covid-19, diz já estar curado e enfatizou que voltar ao trabalho o está ajudando a superar a situação: “Estou com a consciência tranquila”, finaliza.

Defesa: “é, rapaz, nós pretos não valemos nada mesmo” 

Eraldo Oliveira Mourão permanece preso em Imperatriz, à disposição da Justiça. Em sua defesa, o escritório de advocacia emitiu nota à imprensa, a que O Imparcial teve acesso. No documento, o advogado Adão Ferreira alega que o cliente fez outro comentário, que teria sido mal interpretado pelo delegado que testemunhou a cena; acusa Vital Rodrigues de descumprir normas sanitárias de prevenção à propagação da Covid-19; e defende que, caso os fatos tivessem ocorrido como narrou o delegado Vital, o crime seria de injúria racial, e não de racismo.

Veja a nota na íntegra!

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