Política · Setor produtivo

Agronegócio brasileiro alinha discurso contra tarifas de Trump antes de audiência nos EUA

Representantes brasileiros e americanos debatem os impactos econômicos da sobretaxação na Seção 301; foco é demonstrar potencial de alta na inflação para os consumidores dos EUA

Presidente Donald Trump (Foto: Reuters/Nathan Howard)
Presidente Donald Trump (Foto: Reuters/Nathan Howard)

Às vésperas da audiência oficial com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para debater as tarifas comerciais propostas pelo governo de Donald Trump sob o amparo da Seção 301, o setor produtivo brasileiro e especialistas afinam suas estratégias de argumentação. A comitiva do Brasil busca demonstrar em Washington que a sobretaxação de matérias-primas e insumos agropecuários nacionais resultará em pressões inflacionárias diretas sobre o mercado consumidor norte-americano.

O encontro contará com a participação de mais de 70 representantes da delegação brasileira, entre líderes de cadeias produtivas, economistas, especialistas em diplomacia corporativa e agentes políticos.

No segmento da agropecuária, a audiência abrirá espaço para manifestações orais de 11 representantes do agronegócio do Brasil e 12 do setor produtivo dos Estados Unidos.

Disputa de narrativas e biocombustíveis

Espera-se uma queda de braço técnica entre as entidades setoriais das duas nações. Um dos principais pontos de fricção envolve o mercado de biocombustíveis. A Associação dos Produtores de Etanol dos Estados Unidos (RFA – Renewable Fuels Association) defende ativamente a imposição de tarifas recíprocas contra o Brasil, alegando a existência de assimetrias competitivas e práticas comerciais desleais.

Para dar sustentação política ao seu pleito, a RFA divulgou uma pesquisa de opinião pública indicando forte apoio do eleitorado norte-americano às políticas de autonomia energética e mistura obrigatória de combustíveis renováveis (RFS).

 74% dos eleitores registrados apoiam o programa federal de incentivo aos biocombustíveis.

 87% dos entrevistados consideram prioritário o alcance da independência energética nacional.

 80% afirmam que o etanol doméstico é estratégico para assegurar a oferta e reduzir os preços nas bombas de combustível.

Enquanto a RFA argumenta que o fortalecimento da indústria interna é a chave para a segurança energética dos EUA, analistas de mercado contrapõem que o abastecimento regular do país depende, estruturalmente, da complementação via importações de parceiros externos de alta eficiência, como o Brasil.

Impactos nas cadeias de café e carnes

O temor do empresariado brasileiro é de que as barreiras protecionistas penalizem a competitividade e causem desabastecimento em blends industriais consolidados. Aguinaldo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), apontou que os compradores norte-americanos já enfrentam dificuldades em suas composições pela restrição do grão brasileiro. Historicamente o maior parceiro comercial do café solúvel do Brasil, os EUA perderam a liderança para a Alemanha em decorrência da manutenção de tarifas em 10% sobre o produto.

No setor de proteína animal, a dinâmica de mercado impõe um cenário de interdependência complexo. Mesmo sob eventuais barreiras alfandegárias diretas, grandes companhias de frigoríficos de origem brasileira que possuem plantas industriais instaladas em outros países da América Latina deverão continuar abastecendo o mercado norte-americano. A demanda externa permanece aquecida devido ao fato de o rebanho bovino dos Estados Unidos atravessar o seu menor nível produtivo em 70 anos.

Estrutura da audiência no USTR

A rodada de debates na próxima segunda-feira (6) será composta por 14 painéis temáticos transversais, cobrindo além do agronegócio, outros setores da indústria e comércio. Cada representante setorial terá um tempo limite de até 5 minutos para apresentar um sumário executivo focado nas consequências fiscais e econômicas imediatas de uma possível retaliação tarifária. O comitê do USTR poderá formular perguntas técnicas com direito a réplicas rápidas das partes interessadas.

Representantes Brasileiros do Agronegócio Confirmados:

 Andressa Silva — Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz)

 Vinicius Vanzella — Associação dos Fabricantes de Gelatina da América do Sul (Sagma)

 Marcelo Schunn Junqueira — Sociedade Rural Brasileira (SRB)

 Fernanda Carneiro — Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

 Marcos Matos — Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé)

 José Luiz Pimenta Junior — Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS)

 João Marcelo Messas — Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel)

 Andrea Almeida — União Nacional do Etanol de Milho (Unem)

 Welber Barral — União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e Indústria Brasileira de Árvores (Ibá)

 Gian Carlo Almeida Marodin — Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)