O país mergulhou na pauta mais importante e mais urgente dos últimos anos. Finalmente tocamos na ferida da desigualdade social e econômica, no cerne de toda a questão sobre que prioridade elencamos e sobre que Brasil queremos, para nossa e para as gerações futuras. A pergunta fundamental, que dá título a esse texto, eu me fiz enquanto assistia às reações da imprensa sudestina, de empresários milionários e de parlamentares de direita.
Os editoriais de O Globo, Folha de São Paulo e Estadão foram unânimes em profetizar um fracasso do governo federal em pautar a taxação dos super-ricos. E acho que estão honestos, ou seja, defendendo seus interesses. Precisamos de posições claras para que a sociedade consiga distinguir melhor cada discurso, e cada posição de discurso. A posição dos jornalões é a de defesa dos ricos, não é a nossa. O embate entre “nós e eles” não é prejudicial, até porque ele sempre existiu. Insisto: por que taxar os milionários é errado?
Nos holofotes, o presidente da câmara dos deputados, Hugo Motta, que age por motivações dúbias e nada republicanas. Nas redes sociais, percebo um movimento interessante, de atores não alinhados ideologicamente, mas que perceberam o que significa corrigir as distorções tributarias do país. Na prática a equação é simples: não se trata de pagar mais, mas sim de pagar o proporcional ao que se ganha. Os 90 milhões de isenção de impostos para a Amaggi (empresa do agronegócio), por exemplo, são um escárnio para um país que ainda enfrenta uma taxa alta de insegurança alimentar.
Em algum momento da nossa história, normalizamos o fato que famílias brasileiras moram em apartamentos de 300 metros quadrados, enquanto outras moram em palafitas. Esses são casos extremos, mas em termos da classe média, que vive de salário e de juros rotativos do cartão de crédito, essas realidades são equivocadamente nubladas. Não deveriam ser. Se você economizar 10 mil por mês, durante 20 anos, não vai conseguir pagar um apartamento de 3 milhões, de frente para a praia.
Qualquer didática precisa caminhar nesse sentido: 1) de que o trabalhador da escala 6x está mais próximo do morador de rua do que do Elon Musk, 2) de que taxar os super-ricos é uma urgência social, 3) de que o Congresso Nacional, capitaneado por Hugo Motta e sua coalizão de direita são coniventes com as desigualdades do país, 4) de que a imprensa sudestina é um braço auxiliar do empresariado nacional, advogando em favor da manutenção dos privilégios.
O debate virtual está acontecendo e ele não parece favorável para os milionários e bilionários do país. Pela primeira vez em muito tempo, o governo venceu uma pauta nas redes sociais, mas ainda é o começo. Na última semana dei like em todos os vídeos que trataram do absurdo que é você ter um rico de estimação, cultivando uma ilusão de que se se esforçar muito, um dia você também será um. Mas isso não é suficiente.
O debate precisa ganhar as ruas, precisa sair da internet e ganhar corpo no mundo real, identificando os atores corretos que operam contra a taxação dos privilegiados, responsabilizando os que julgam razoável manter o desequilíbrio social nas alturas. É uma trincheira que se expande para a mesa do bar, para os corredores das escolas, nos bancos das igrejas, no futebol no fim de semana, ou no meu caso, nas quadras de tênis.
Não enxergo outra forma de a proposta ganhar força se não for com pressão social, explicitando as contradições que existem e os que incentivam a pobreza da população brasileira. Para financiar o SUS, para garantir recursos para a educação básica, precisamos apertar o cerco contra os que ganham muito dinheiro. Eu estou disposto a enfrentar esse desgaste. E você?