CULTURA

O desafio de falar sobre o amor na obra

Escritor William Amorim aborda este sentimento no livro Uma aprendizagem ou livro dos prazeres, que será lançado na Livraria e Espaço Cultural Amei

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Tal qual nos é transmitido no mundo ocidental, eu diria que o amor é uma promessa que não se cumpre porque é impossível transformar dois em um. Aliás, nada mais discordante do que o amor. Basta se estar nele para que essa ilusão de completude se evapore rapidamente. Como bem disse chistosamente o genial Nelson Rodrigues, não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”

. Assim definiu o amor, o psicanalista e escritor William Amorim, que aborda este sentimento no livro Uma aprendizagem ou livro dos prazeres, que será lançado amanhã, quinta-feira (4), às 19h, na Livraria e Espaço Cultural Amei (São Luís Shopping), no Jaracati.

Para escrever sobre um tema tão controverso como o amor, William Amorim partiu da confluência entre literatura e psicanálise, interrogando as maiores referências da psicanálise: Freud e Lacan, além de confrontar críticos literários e invocando o pensamento grego, culminando com uma análise sobre a obra da escritora Clarice Lispector.

Willian Amorim afirma não conhecer um tema mais demasiado humano do que o amor. “O amor é privilégio do ser de fala apenas. Os animais não amam porque não fazem metáfora, não podem passar da função de amante a amado, nessa substituição necessária que produz a significação do amor. Não bastasse isso, o amor é o tema, por excelência, da literatura desde sempre. Inspirou poetas, filósofos e, claro, psicanalistas. Afinal, no principio da psicanalise está o amor. Você consegue imaginar a psicanálise sem os impasses do amor? Então, como escritor, como homem e como psicanalista, esse é um tema que muito me concerne”, explicou William Amorim.

O escritor revelou a O Imparcial que sempre se interessou pelo amor desde a adolescência, ao ler o romance Romeu e Julieta, de Shakespeare. A obra lhe provocou diversos questionamentos sobre o amor. “Fiquei muito intrigado com uma frase de Mercúrio a Romeu: “Se o amor é cego, não pode acertar o alvo”. Poderia dizer que levei dois anos para pesquisar e escrever o livro, contudo, é mais justo admitir que, conscientemente, minha investigação iniciou-se com Shakespeare e ganhou contorno e sentido com minha análise pessoal. O livro é apenas o efeito disso, desse percurso”, ressaltou Willian Amorim.

Willian Amorim acrescentou ainda que o maior desafio de falar sobre o amor foi abordá-lo sem tirar a áurea que ele carrega em sua essência. Ou seja, a impossibilidade de dizê-lo, de tentar capturá-lo em palavras sem excluí-lo, de retira-lo do seu lugar de enigma. “Lacan resume bem esse mal-estar que é falar de amor: “O que digo do amor é certamente que não se pode falar dele”. Aliás não é isso que nos ensina o belíssimo O Banquete, de Platão, senão da inabordabilidade do amor?”, pergunta o escritor. Ao interrogar sob a ótica da psicanálise Freud e Lacan sobre o assunto, Willian Amorim disse que a resposta que encontrou foi de que “…o amor é a crença de que se pode, através de quem se ama, alcançar uma verdade sobre si mesmo, que é dar o que não se tem. Sobretudo que o amor é uma confissão de minha falta. Afinal, dizer eu te amo para alguém é dizer/confessar que eu não me basto, que sou faltoso”, analisou.

Em sua visão, Willian Amorim acredita que o amor é a busca de um significante perdido, e também um sentimento de incompletude. Afirmando que essa sua capacidade de compreensão sobre o sentimento tem a ver com essa relação do amor com a falta, com essa subversão que a psicanálise faz desse ideal de amor como completude. “Não podemos esquecer que Eros, o amor, é filho de Poros (a riqueza, o recurso) e de Penia (a pobreza absoluta, a falta de recursos)”.

E que ter Clarice Lispector como referência para sua obra foi como fazer um resgate de si mesmo. “Eu mergulho no universo clariceano. Mas sempre volto à superfície para não sucumbir. Foi muito bom trabalhar com um livro que ela dizia não gostar muito, e que é um de seus mais belos e que nos fala da incrível travessia da personagem Lóri pelas trilhas de Eros. Por que ela dizia não gostar do livro? Quantos mistérios tem Clarice? O maior deles não seria essa sua capacidade de ser, como o amor, um eterno novo impossível de reter numa ou outra definição?”, questionou. Willian Amorim revelou ainda que a lição que aprendeu ao escrever sobre o amor foi que “o saber sempre fracassa ao dirigir-se ao amor”.

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