ENTENDA

O que leva uma mãe jogar o filho da Ponte?

No último fim de semana, mais um caso gerou revolta popular, quando Karla Regina Mendes atirou o próprio filho da Ponte José Sarney. A criança foi levada ao Hospital Municipal Djalma Marques (Socorrão I), onde recebeu atendimentos médicos

Pessoas acompanham o resgate. (Foto: Reprodução)

As investigações sobre a tentativa de homicídio praticada por Karla Regina Mendes Pereira, que teria lançado o próprio filho de sete meses na maré, na manhã de domingo, 18, serão desenvolvidas pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), para onde foi encaminhado o auto de prisão em flagrante lavrado em seu desfavor, no Plantão da Polícia Civil, na Rua do Norte.

Consta que Carla Regina será submetida a uma avaliação psiquiátrica pela Polícia Técnica ou por especialistas do Hospital Nina Rodrigues, cujos laudos comprovarão, ou não, o seu estado, ou seja, se ela realmente é portadora de alguma doença mental, conforme informou o delegado Joviano Furtado, titular da Primeira Delegacia Distrital.

O bebê de Karla Regina foi resgatado da lama, na Beira-Mar, pelos soldados Danilo Pestana e Herbert de Jesus, que estavam de folga e, quando retornavam de uma partida de futebol, tendo presenciado quando a mulher lançou a criança do alto da Ponte José Sarney, trataram de socorrê-la, evitando sua morte certa. A mulher foi detida e apresentada no Plantão da Polícia Judiciária, sendo autuada em flagrante, visto que os plantonistas não tinham qualquer informação sobre o seu estado clínico. Ela continua sob custódia à disposição da Justiça. Caberá à Justiça a solução pelo destino do bebê, visto que a mãe é incapaz.

Explicações

O funcionamento da mente humana é difícil de entender. Muitas vezes, crimes bárbaros e com aspectos de crueldade chocam a sociedade de maneira tão impactante que até os que defendem a vida desejam a morte do agressor que praticou o ato. Casos como de Mariano Júnior, suspeito de planejar a morte do próprio pai, o ex-prefeito de Barra do Corda, Manoel Mariano, ou de Naim Ribeiro, que jogou álcool e ateou fogo na própria companheira, levantam questionamentos sobre como as pessoas podem agir tão friamente em relação à vida dos outros.

No último fim de semana, mais um caso gerou revolta popular, quando Karla Regina Mendes, de 23 anos, atirou o próprio filho, um bebê de sete meses, da Ponte José Sarney, na Beira-Mar. A criança, que foi resgatada por dois policiais militares que passavam pelo local no momento, foi levada ao Hospital Municipal Djalma Marques (Socorrão I), onde recebeu atendimentos médicos e passa bem, continuando em observação, segundo a equipe médica que realizou o acolhimento na unidade.

Ao ser levada para a Delegacia de Homicídios, Karla Regina disse que sofria de problemas mentais e alegou ter feito o ato em virtude do estado depressivo que teria surgido após o parto, popularmente conhecido como depressão pós-parto. Além disso, ela teria falado sobre estupro que sofreu meses antes da gravidez, o que teria desencadeado vários distúrbios e influenciado em sua ação. Informações colhidas no plantão para onde Regina Mendes foi levada após ser presa apontam divergência de tempo entre o período em que ela afirma que o crime aconteceu com a idade da criança.

Apesar de muita especulação sobre os motivos que a levaram a praticar tal ato, O Imparcial procurou um especialista para entender melhor como casos de depressão podem influenciar pessoas a cometerem crimes que, aos olhos da sociedade, são de extrema crueldade.

Os efeitos da depressão

O neuropsiquiatra Ruy Palhano diz que casos de depressão pós-parto podem motivar desde a rejeição até quadros de homicídios e suicídios. “A depressão, quando ocorre na condição de pós-parto, pode tanto resultar em uma aversão sistemática e continuada da mãe para com o filho ou filha até chegar ao limite máximo do homicídio, quando ela atinge um limite de extrema gravidade. Isso é retratado na literatura média e é uma coisa razoavelmente comum em pacientes pós-parto. Uma mãe que possa estar passando por dificuldades sociais, econômicas e estar grávida pode chegar a um estado em que fica psicótica, podendo matar o filho e inclusive se matar”.

O especialista diz que pessoas com outro transtorno, o da psicopatia, poderiam até simular quadros depressivos para se desvencilhar de crimes, porém, uma avaliação profissional pode apontar diferenças. “Às vezes um psicopata ou um sociopata faz isso, simula, mente e faz tudo para enganar os outros e se safar de um crime, mas na perícia o psiquiatra forense esclarece se existe ou não depressão, porque hoje temos uma série de contextos para determinar esses relatos”.

Segundo Palhano, os casos de depressão podem ocorrer em trinta dias após o parto ou serem desencadeados em até sete a nove meses depois do nascimento. Segundo o especialista, sentimentos de rejeição, afastamento e de ojeriza fazem parte da depressão pós-parto, porém, apenas em casos onde o quadro de depressão é profundo as pessoas chegam a extremos como o assassinato, alternativa considerada aceitável para o doente. “Quando chega a uma condição como essa, de matar um filho, é o extremo desse processo. Nem todo mundo que tem depressão pós-parto mata os filhos, isso acontece com um número razoavelmente mínimo. O que se verifica habitualmente na depressão é a antipatia da mãe para com o filho, além de características de uma crise depressiva comum”.

Sinais de alerta

O desenvolvimento da depressão pode ter fatores motivadores diferentes em cada pessoa, porém, os sinais de alerta podem ser observados logo após o nascimento e não devem ser percebidos como naturais ou passageiros, segundo explica Ruy Palhano. “A pessoa pode um conjunto enorme de sintomas como desamor, apatia, retraimento. A depressão pode acontecer em pessoas com tendência, mais suscetíveis, mas qualquer pessoa pode sofrer da doença. A questão sociocultural como o desengajamento social, condições precárias de vida, entre outros problemas sociais, também favorecem o quadro depressivo. Outra condição que favorece são os conflitos interiores, como privação financeira, no casamento, conflito nas relações sociais, na família, que são condições que propiciam a depressão. Favorece a depressão também a existência de outras doenças físicas que podem resultar em processos depressivos, o hipotireoidismo, doenças do pâncreas, fígado, anemia são doenças que podem predispor depressão. A última condição é a doença depressiva, que toma conta do sujeito inteiramente”.

Ruy Palhano comenta que os casos de depressão pós-parto podem ser decorrentes de todo a perturbação emocional que se relaciona ao parto e que afeta diretamente a mulher que está suportando este momento. “As depressões pós-parto se desencadeiam muitas das vezes não pelo parto em si, mas o desencadeamento através do parto. Uma mãe pode entrar em um desespero depressivo por diversos fatores psicopatológicos, como por exemplo, não tem o que comer, o que vestir, não ter emprego e daí se torna capaz de realizar uma ação que não é normal, matar alguém nessas condições psicopatológicas é uma doença gravíssima”.

A importância do apoio

Saber como agir em casos de depressão pós-parto pode ser um dos principais fatores que irão diferenciar uma pessoa que conseguirá superar a doença de uma que estará propensa a realizar atrocidades sem apresentar remorsos. “Quando uma pessoa apresenta abatimento, desinteresse, choro frequente, afastamento do bebê, é preciso que se faça um tratamento o quanto antes, pois esses sintomas podem se desenvolver. A primeira coisa que a família deve fazer é entrar em contato com o obstetra ou ginecologista, porque sendo logo diagnosticada a depressão pós-parto, o tratamento pode ser feito imediatamente e em pouco tempo a pessoa estará boa. Não apenas do ponto de vista médico, mas psicossocial, em que as psicoterapias ajudam muito os pacientes”.

O neuropsiquiatra lembra que, com apoio familiar e tratamento adequado, mesmo as mães que não conseguem se aproximar dos filhos podem voltar a ter um relacionamento saudável, atuando como mães dedicadas e amorosas. “Após superar a depressão, a mãe volta a assumir todo o relacionamento positivo, saudável e de compartilhamento com o filho. Volta a ser a mãe que beija, abraça e se preocupa com o filho, coisa que um deprimido não faz, pois quer apenas afastar a criança”.

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