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Clubes de leitura ganham força em São Luís e transformam livros em espaços de convivência

Em meio ao avanço das redes sociais e das interações virtuais, grupos literários atraem leitores em busca de troca de experiências, amizades e contato presencial

(Foto: Arquivo Pessoal)
(Foto: Arquivo Pessoal)

Os clubes de leitura têm conquistado cada vez mais espaço em São Luís e se consolidado como ambientes que vão além da simples discussão de livros. Em uma época marcada pelo uso intenso das redes sociais e pela predominância das interações digitais, esses grupos têm se tornado pontos de encontro para pessoas interessadas em compartilhar experiências, construir amizades e fortalecer o hábito da leitura. A combinação entre literatura e convivência tem atraído públicos diversos e contribuído para o surgimento de novas comunidades de leitores na capital maranhense.

Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, mostram que a leitura continua sendo uma prática importante para milhões de brasileiros, mas enfrenta desafios relacionados ao tempo disponível e à concorrência com outras formas de entretenimento. Nesse contexto, os clubes de leitura surgem como uma estratégia capaz de estimular a continuidade da leitura por meio do compromisso coletivo e da troca de opiniões sobre as obras.

Uma das iniciativas que exemplificam esse movimento é o Clube de Leitura Bate-Papo do Capítulo, criado há pouco mais de um ano pela assistente social Ana Paula Rocha, de 56 anos. A ideia nasceu da necessidade de encontrar um espaço presencial para compartilhar a paixão pelos livros.

“Embora eu já participasse de dois clubes de leitura nacionais, sentia falta de um espaço presencial para me reunir com pessoas que também amam ler. Dessa vontade de compartilhar experiências, reflexões e o prazer da leitura com outros leitores nasceu a ideia de criar o Clube de Leitura Bate-Papo do Capítulo”, conta.

O grupo tem como foco a literatura cristã, escolha que surgiu a partir da convivência em um grupo de oração. A dinâmica do clube combina encontros presenciais e virtuais. A cada mês, um livro é escolhido para leitura, acompanhado de um cronograma previamente definido. As reuniões online acontecem pelo Google Meet, enquanto os encontros presenciais são realizados em cafeterias da cidade.

Para Ana Paula, o crescimento dos clubes de leitura está diretamente ligado à necessidade de conexão humana em um cenário cada vez mais digital.

“Eu acredito que é por oferecerem não apenas um espaço para discutir livros, mas também oportunidades de convivência, troca de experiências e construção de vínculos. Além de incentivar o hábito da leitura, esses grupos promovem o sentimento de pertencimento e enriquecem a compreensão das obras por meio do compartilhamento de diferentes perspectivas”, afirma.

Segundo ela, as trocas que acontecem durante os encontros vão muito além das páginas dos livros. Os participantes compartilham experiências pessoais relacionadas aos temas abordados nas obras, discutem diferentes interpretações e constroem novos significados coletivamente. O resultado é um ambiente que favorece tanto o crescimento intelectual quanto o fortalecimento das relações sociais.

“Essas interações contribuem para o fortalecimento dos vínculos sociais, para a troca de indicações de livros e outros conteúdos de interesse comum, além de estimular o desenvolvimento pessoal, cultural e, em alguns contextos, espiritual dos participantes”, explica.

Ao longo do tempo, a convivência frequente entre os integrantes tem contribuído para o surgimento de amizades e para o fortalecimento do senso de comunidade. Ana Paula destaca que o clube também ajuda os participantes a desenvolverem disciplina, compromisso com a leitura e engajamento nas atividades coletivas. “Com certeza participar de um clube ajuda sim a criar novas amizades e a fortalecer vínculos, pois reúne pessoas em torno de um interesse comum, criando oportunidades regulares de interação e diálogo”, ressalta.

Apesar das facilidades proporcionadas pela internet, ela acredita que os encontros presenciais continuam desempenhando um papel essencial.

“Os encontros presenciais possuem características que favorecem uma interação mais próxima e significativa entre os membros. A convivência no mesmo espaço possibilita uma comunicação mais espontânea, o fortalecimento dos vínculos interpessoais e a criação de um sentimento mais intenso de pertencimento ao grupo”, avalia.

A experiência do farmacêutico Rafael Arouche Ferreira, de 27 anos, confirma essa percepção. Participante do Clube Submeta há dois anos, ele afirma que sua motivação inicial foi a própria leitura, mas que os encontros acabaram oferecendo muito mais do que isso. “A minha motivação com certeza foi a leitura em si, a experiência de ler livros que nos tiram da zona de conforto, a troca que ocorre nos encontros no momento das discussões sobre a trama”, relata.

Com cerca de 42 participantes, o Clube Submeta promove encontros mensais em diferentes pontos da cidade. Para Rafael, essa característica ajuda não apenas a ampliar o repertório literário dos participantes, mas também a fortalecer os laços entre eles.

Ele acredita que a principal diferença entre a leitura individual e a leitura compartilhada está justamente na possibilidade de dividir emoções e interpretações. “Quando se lê um livro sozinho, você acaba guardando pra si a experiência. Na leitura compartilhada, o bom é que você não sofre sozinho, e compartilha seus pontos positivos e negativos de cada obra a ser lida”, diz.

Nos encontros, cada participante apresenta sua avaliação da obra e compartilha impressões pessoais, muitas vezes relacionadas às próprias vivências.

“Cada participante dá a sua nota sobre a obra lida e posteriormente, em uma conversa, trocamos nossas experiências, até mesmo vivências, quando nos identificamos com personagens. Isso de certa forma é emocionante, porque nos faz entender a bagagem de vida de cada um”, afirma.

As amizades construídas a partir da literatura são um dos aspectos mais valorizados pelos integrantes. Além dos encontros presenciais, o grupo mantém uma rotina ativa em aplicativos de mensagens, onde os participantes acompanham o progresso da leitura, trocam recomendações e conversam diariamente.
“Acaba que conversamos todos os dias, e os laços de amizade só aumentam, e toda vez que nos encontramos pessoalmente é sempre divertido”, comenta.

Rafael também destaca que os clubes de leitura ajudam a ampliar horizontes literários. Embora tenha preferência por livros de fantasia, ele passou a conhecer novos gêneros e autores graças às escolhas coletivas. “Quando eu entrei não tinha tanto contato com livros de drama e autores nacionais, e gostei muito”, conta.

Para ele, a relevância desses espaços se torna ainda maior em um cenário dominado pelas redes sociais.

“Atualmente existe mais contato com o virtual do que com o físico. A experiência que vivemos presencialmente é muito mais facilitadora para se conhecer diferentes pessoas, de diferentes bolhas, trocar experiências, vivenciar momentos bons, além de fazer amizades que podemos guardar no peito”, afirma.

Em São Luís, o crescimento dessas iniciativas sugere que os livros continuam sendo uma poderosa ferramenta de conexão humana. Mais do que incentivar a leitura, os clubes oferecem algo que muitos procuram em tempos de hiperconectividade, como a oportunidade de desacelerar, conversar, ouvir diferentes perspectivas e construir relações reais a partir das histórias compartilhadas entre as páginas de um livro.