#ELENÃO

Partidos políticos em manifestações: direito ou oportunismo?

A presença de partidos no ato #EleNão, que aconteceu em São Luís e em todo o Brasil no último sábado (29), trouxe à tona a discussão acerca dos perigos do apartidarismo em manifestações

Ato "Ele Não" aconteceu em São Luís no último sábado (29) e contou com a presença de partidos políticos. (Foto: Tarcisio Passos)

Em todo o Brasil, no sábado (29), aconteceu o ato #EleNão. Em São Luís, o ato que foi categorizado como suprapartidário – que reúne vários partidos, mas não se subordina a nenhum deles – e organizado por mulheres que tinham em comum somente a repulsa à candidatura de Jair Bolsonaro, acabou contando com a presença de bandeiras do PT, PSOL, PCdoB, PSTU e PCB.

Após o protesto, esses grupos foram acusados de oportunistas e essas críticas foram retrucadas por outros que afirmavam ser importante a presença de partidos em manifestações. Isso trouxe à tona a discussão acerca da legitimidade de protestos com partidos políticos.

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Partidos políticos existem no Brasil desde o séc. XIX e fazem parte da democracia por retratarem segmentos da sociedade na política. Para a professora de Ciência Política da UnB Flávia Biroli, os partidos são característicos de sistemas onde há pluralidade. Segundo ela, a representação partidária em movimentos como foi o #EleNão é importante – pois sustenta, politicamente, a mesma pauta do ato: o empoderamento feminino.

“É muito importante demonstrar publicamente que a defesa da democracia está sendo ativada em diferentes partes do país e que as mulheres exigem ser reconhecidas como sujeitos políticos. Essas posições precisam ser expressas também partidariamente”, explica.

Ainda sobre o ato, o professor de história da UFMA Lyndon Santos relata que a iniciativa foi de mulheres com o posicionamento em comum e reuniu todo o campo democrático com a mesma motivação. “Foi uma manifestação democrática que incluiu os partidos por eles também fazerem parte do sistema político”, afirma.

De onde vem tanta rejeição aos partidos políticos?

“O motivo de tanta rejeição aos partidos está num conjunto de fatores, como a corrupção, as contradições éticas, os oportunismos e a ausência de coerência nas figuras dos políticos.”, explica Lyndon. “No entanto, este sentimento produz um efeito devastador que é a rejeição de uma forma histórica e social legítima no jogo democrático”, diz.

#EleNão, em São Luís, com faixas do PT. (Foto: Tarcisio Passos)

De acordo com Flávia Biroli, a recusa dos partidos tem base em falácias como a de que existe uma posição imparcial em favor do bem público. “No Brasil, ela tem um eixo fundamental no discurso da luta contra a corrupção”, afirma.

A professora explica que, dessa lacuna deixada pela falta de partidos, criou-se a rejeição à própria política (a antipolítica); e, por causa disso, abriu-se caminho para candidaturas extremas e antidemocráticas.

Ainda sobre apartidarismo e antipartidarismo, o professor Lyndon ratifica seu perigo em manifestações de todo e qualquer caráter: “a rejeição dos partidos traz o risco de legitimação fascista de um governo único que nega o dissenso e a pluralidade de ideias e projetos de país, ou seja, a democracia”, completa.

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