Meio Ambiente · pecuária sustentável

Criação de Búfalos apresenta desafios na Baixada Maranhense

A bubalinocultura exige atenção no que diz respeito ao equilíbrio entre produção econômica e conservação ambiental

Foto: divulgação - Agência Brasil/Marcelo Camargo
Foto: divulgação - Agência Brasil/Marcelo Camargo

A Baixada Maranhense enfrenta o desafio de equilibrar sua principal força econômica pecuária (bubalinocultura) com a conservação de um ecossistema de relevância internacional. Quem percorre a Área de Proteção Ambiental (APA) da região, nota planícies que alternam entre períodos de seca e inundações sazonais. Nesse território, grandes rebanhos de búfalos caminham constantemente, acendendo assim um debate crucial entre produtores, cientistas e ambientalistas que buscam entender como manter a produtividade dessa cadeia sem que o pisoteio e o uso de recursos hídricos degradem áreas úmidas e afetem a reprodução de peixes nativos.

O impacto no solo

A dinâmica ecológica da Baixada Maranhense age de acordo com o regime de cheias e estiagens, o que torna seu solo altamente vulnerável. O pisoteio contínuo dos búfalos, especialmente em áreas encharcadas, altera as propriedades físicas da terra. A zootecnista Sánara Adrielle França Melo, doutora em Ciência Animal, explica que o impacto é real, mas diretamente ligado à densidade do rebanho:

O pisoteio de búfalos e bovinos, principalmente em solo úmido ou em processo de saturação, aumenta sim a densidade do solo, reduz a macroporosidade e diminui a infiltração de água. Quando pensamos nisso acontecendo a longo prazo, pode haver formação de camadas compactadas, dificuldade no crescimento das raízes, redução da regeneração da vegetação nativa e aumento do escoamento superficial”.

Sánara Adrielle França Melo – Zootecnista, Doutora em Ciência Animal; Docente.

A compactação do solo reduz os indicadores físicos essenciais para a saúde da pastagem, como a aeração e a infiltração de água. A Profª Dra. Ediléa Dutra Pereira, doutora em Geociências e Meio Ambiente, destaca que, embora tal processo possa acelerar erosão, as características topográficas locais exercem um papel atenuante.

Temos poucas variações topográficas na Baixada Maranhense, o que contribui para minimizar o processo de erosão, associado à sazonalidade de áreas inundáveis que sempre estão recebendo novos solos das áreas mais elevadas. Essa dinâmica torna as áreas de campo mais resilientes aos processos, ocorrendo uma recuperação natural do ambiente“, pontua a geóloga.

Contudo, especialistas alertam que o búfalo não deve ser apontado como o único responsável pela compactação do solo nestas regiões. Ludmila Nayara Ribeiro Gonzaga Torres, zootecnista, mestra em Ciência Animal e docente, pondera que a degradação ambiental é fruto de uma somatória de fatores:

“É importante destacar que o búfalo não deve ser considerado, isoladamente, o responsável pelas alterações ambientais observadas na Baixada Maranhense. Diversos estudos demonstram que esses impactos resultam da interação entre diferentes fatores, como superpastejo, queimadas, desmatamento, construção de barragens, ocupação desordenada e ausência de planejamento do uso do solo. Em sistemas conduzidos de forma adequada, com ajuste da carga animal e distribuição equilibrada do rebanho nas áreas de pastejo, os impactos podem ser significativamente reduzidos”.

Ludmila Nayara Ribeiro – Zootecnista, Mestra em Ciência Animal; Docente.

Comportamento da fauna aquática

Outro ponto sensível é a forte ligação dos búfalos com a água. Por possuírem pele escura e poucas glândulas sudoríparas, eles necessitam de banhos de lama e água para regular sua temperatura corporal.

Quando búfalos acessam lagos públicos de forma desordenada, a qualidade da água e os “berçários” de peixes nativos podem sofrer alterações. A graduanda em Medicina Veterinária, Regina Araújo Marques (22), detalha esse ciclo biológico:

A movimentação deles deixa a água mais barrenta e dificulta a entrada de luz, o que pode prejudicar o crescimento das plantas aquáticas. Além disso, as fezes e a urina podem alterar a qualidade da água. O desgaste do solo pode levar mais terra para dentro dos rios e lagoas, deixando a água mais turva. Isso pode prejudicar áreas importantes onde muitos peixes se alimentam, se reproduzem e protegem seus filhotes”, afirma.

Regina Araújo – graduanda em medicina veterinária

Segundo a Dra. Ediléa Dutra, as rochas sedimentares e os solos argilosos da região facilitam os alagamentos por serem impermeáveis, tornando as margens vulneráveis. “O pisoteio dos búfalos nas nascentes e o desmoronamento de barrancos é o que acelera o assoreamento dos lagos e rios“, destaca a professora da UFMA, reforçando que o trânsito constante das manadas pode destruir as margens dos corpos d’água.

Soluções práticas e inteligentes

Para conciliar produção e conservação, não é necessário erradicar a atividade, mas implementar manejo sustentável e inteligente. Na prática, descobriu-se que o búfalo não é totalmente dependente de lagos naturais para produzir com excelência. “O búfalo não depende obrigatoriamente de áreas alagadas para ser saudável e produtivo. É possível criá-lo em terra firme, desde que haja água limpa disponível, sombra natural ou artificial, pastagem de qualidade, um bom sal mineral e manejo térmico adequado“, esclarece Sánara Adrielle, citando exemplos de sucesso até mesmo no semiárido nordestino.

Para mitigar os impactos sem recorrer a intervenções mecânicas profundas (como a aração, que desregularia a hidrologia local), as especialistas sugerem técnicas acessíveis para pequenos e médios produtores:

  • Pastejo rotacionado sazonal: Adaptação da divisão de piquetes conforme o período de cheia e seca, poupando os campos mais frágeis nos meses chuvosos. Conforme indica a Dra. Ediléa, o manejo rotacionado distribui a pressão sobre o solo, permitindo a recuperação dos Gleissolos e mantendo sua permeabilidade estrutural.
  • Corredores e pontos controlados de acesso: Proteção de nascentes e margens de rios por meio de cercamentos regulamentados em propriedades privadas, direcionando os animais para bebedouros alternativos e evitando o trânsito livre em áreas frágeis.
  • Tecnologias de baixo custo: Uso de sombrites, plantio de árvores para sombra natural, cochos móveis e bebedouros abastecidos por energia solar ou captação de água de chuva.

Sustentabilidade econômica e ambiental

Para além das cercas e pastagens, o futuro da bubalinocultura na Baixada Maranhense ganha força no mercado através da valorização da sua origem. A integração científica da criação com a produção artesanal de derivados desenha um horizonte promissor. Ludmila Nayara reforça que a sustentabilidade deve ser encarada como rentabilidade:

O manejo sustentável deve ser apresentado como uma ferramenta de melhoria da propriedade. Quando conseguimos demonstrar que uma técnica pode facilitar o trabalho, reduzir perdas e melhorar a produtividade, a adoção das mudanças acontece de forma mais natural”, destaca.

O fim da polarização

O principal consenso entre a academia e o campo é a superação da barreira que divide a produção econômica e a preservação ecológica. Regina Araújo sintetiza o sentimento otimista que deve pautar as próximas décadas na região:

“Acho que essa discussão não deve ser sobre ser contra ou a favor da criação de búfalos. O foco precisa ser em como produzir de forma responsável. O desafio não é escolher entre produzir ou preservar, mas encontrar um equilíbrio entre as duas coisas. Se conseguirmos unir conhecimento e diálogo, é possível fortalecer a produção, proteger a biodiversidade e garantir que as próximas gerações também possam viver e trabalhar nessa região.”, conclui.