Desmatamento recordista, rios minguando, resíduos acumulados sem destinação adequada e esgotos despejados diretamente nos mananciais. O Maranhão chega a este Dia Mundial do Meio Ambiente não para celebrar, mas para prestar contas.
Há 54 anos, no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, a ONU instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente. A proposta era estimular uma reflexão global sobre a relação entre sociedade e natureza. Em 2026, porém, a data encontra o Maranhão cercado por evidências incômodas que dificilmente cabem em discursos oficiais.
O mais recente Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, divulgado pelo MapBiomas em maio de 2025, apresentou um número que deveria ocupar as manchetes em todo o estado: 218.298 hectares de vegetação nativa foram suprimidos no Maranhão em 2024, consolidando-o, pelo segundo ano consecutivo, como o estado que mais desmata no país. O dado torna-se ainda mais preocupante porque, mesmo registrando uma redução de 34,3% em relação a 2023, o Maranhão permaneceu no topo do ranking nacional. A queda não representa, necessariamente, uma mudança estrutural na trajetória de degradação ambiental. Ela ocorre após anos de expansão acelerada da supressão vegetal.
Por trás dos hectares desmatados existem pessoas. Comunidades quilombolas, povos indígenas e populações tradicionais estão na linha de frente dessa pressão territorial. Somente na Terra Indígena Porquinhos dos Canela-Apãnjekra foram registrados 6.208 hectares desmatados em 2024, a maior área desmatada entre as terras indígenas brasileiras naquele ano. O avanço sobre o Cerrado maranhense não representa apenas uma perda ecológica. Trata-se de um conflito territorial permanente, registrado pelos satélites, mas frequentemente negligenciado pelas políticas públicas.
A crise hídrica também deixou de ser uma ameaça futura. Em 2025, a redução dos níveis do rio Itapecuru trouxe impactos ao abastecimento de água em São Luís e reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade hídrica da capital maranhense, fortemente dependente do Sistema Italuís. O episódio não foi novidade para quem acompanha os estudos do Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado, que já apontavam tendência de redução da vazão dos principais recursos hídricos maranhenses. A seca do Itapecuru foi a materialização de um risco documentado e sistematicamente postergado.
Os indicadores de saneamento completam esse quadro preocupante. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que apenas cerca de 14% da população maranhense é atendida por rede de coleta de esgoto, enquanto parcela semelhante do esgoto gerado recebe tratamento antes de retornar ao ambiente. Ao mesmo tempo, as perdas de água nos sistemas de distribuição permanecem entre as mais elevadas do país, ultrapassando metade do volume tratado.
No campo dos resíduos sólidos, o prazo estabelecido pelo Novo Marco do Saneamento para a erradicação dos lixões expirou em agosto de 2024 sem que a meta fosse plenamente alcançada. Em grande parte dos municípios maranhenses, a disposição inadequada dos resíduos em lixões ainda predomina. Os impactos aparecem na contaminação do solo, das águas superficiais e subterrâneas, na emissão de gases de efeito estufa e na degradação das condições de vida das populações mais vulneráveis.
Enquanto os indicadores ambientais se deterioram, um novo fator de pressão desponta no horizonte. Projeções climáticas internacionais e nacionais apontam elevada probabilidade de formação de um evento El Niño entre 2026 e 2027, capaz de intensificar secas, ondas de calor e eventos extremos. Para um estado que já convive com desmatamento recordista, vulnerabilidade hídrica e déficits históricos de saneamento, o alerta é claro: os próximos anos poderão impor desafios ainda maiores. Pela sua posição de transição entre a Amazônia e o semiárido, o Maranhão está entre os territórios mais sensíveis a essas transformações. A questão já não é mais se elas ocorrerão, mas qual será sua intensidade e quem pagará os maiores custos.
A fragilidade institucional agrava esse cenário. Muitos municípios ainda enfrentam dificuldades para atualizar planos diretores, estruturar sistemas de gestão ambiental e fortalecer a fiscalização territorial. Esse vácuo não afeta todos da mesma forma. Ele recai, sobretudo, sobre populações ribeirinhas que dependem de rios contaminados, moradores de periferias próximos a áreas degradadas, comunidades tradicionais pressionadas pela expansão econômica e povos indígenas que veem seus territórios transformados em estatísticas de desmatamento.
O Dia Mundial do Meio Ambiente deixou de ser apenas uma data comemorativa. Tornou-se um espelho. E aquilo que ele reflete no Maranhão exige mais do que campanhas de sensibilização. Exige decisões baseadas em evidências, fortalecimento das políticas públicas, capacidade institucional e senso de urgência. Porque os indicadores ambientais do estado já não apontam para riscos futuros. Eles descrevem uma realidade presente.
ATENÇÃO: Em ano eleitoral, os dados ambientais também devem entrar na urna. Cabe aos eleitores perguntar quais são as propostas dos candidatos(as) para enfrentar o desmatamento, ampliar o saneamento, proteger os recursos hídricos e preparar o Maranhão para as mudanças climáticas. O futuro ambiental do estado também está em disputa.