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Ansiedade: quando o sofrimento vira estatística

Casos de ansiedade entre adolescentes disparam no Brasil e reforçam a necessidade de acolhimento, escuta e atenção à saúde mental dos jovens

Ansiedade: quando o sofrimento vira estatística

Ocrescimento das internações por ansiedade entre adolescentes no Brasil tem chamado a atenção de especialistas em saúde mental. O mais recente estudo do IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) analisou os dados da saúde suplementar e apontou que a taxa de hospitalização por ansiedade nessa faixa etária saltou de 1 para cada 100 mil jovens em 2015 para 9,6 por 100 mil em 2024 — um aumento de 860%, ou quase 9 vezes.

Os números refletem um cenário de sofrimento emocional crescente entre os jovens e evidenciam os desafios enfrentados por uma geração submetida a múltiplas pressões.

Dificuldades no acolhimento

Para a terapeuta e pesquisadora Adriana Braz de Oliveira, o avanço dos quadros de ansiedade entre jovens é um reflexo de uma sociedade que ainda encontra dificuldades para reconhecer e acolher o sofrimento emocional dos adolescentes.

“Quando um adolescente chega ao ponto de precisar ser internado por ansiedade, é porque muita coisa já vinha acontecendo antes, mas em silêncio”, afirma.

Segundo ela, sentimentos de angústia, medo e insegurança frequentemente são minimizados por familiares e até pela própria comunidade, sendo interpretados como exagero ou comportamento típico da idade.

A especialista observa que os jovens convivem diariamente com fatores que intensificam o sofrimento psíquico, como a pressão por desempenho, a constante exposição às redes sociais e as incertezas em relação ao futuro. “Tudo isso acontece em uma fase em que o adolescente ainda está tentando entender quem ele é”, destaca.

Falta de espaços de escuta

Outro aspecto apontado por Adriana é a escassez de ambientes onde os adolescentes possam expressar seus sentimentos sem julgamento. Segundo ela, muitas famílias não conseguem oferecer o acolhimento necessário, enquanto as escolas, em diversos casos, priorizam resultados e desempenho acadêmico.

“A ajuda profissional costuma chegar apenas quando a situação já está grave. Vivemos em uma sociedade que tem pressa para resolver tudo e que ainda não sabe lidar bem com o sofrimento”, explica.

Para a pesquisadora, o aumento dos casos revela uma necessidade urgente de fortalecer os vínculos afetivos e criar espaços genuínos de diálogo.

“No fundo, esse cenário fala de uma sociedade que ainda não aprendeu a escutar, acolher e sustentar emocionalmente os seus jovens.”

O peso das histórias familiares

Em seus estudos sobre a ampliação da visão sistêmica aplicada aos transtornos psicológicos, Adriana defende que a compreensão da saúde mental também passa pela história familiar.

Ela explica que muitos adolescentes crescem em contextos marcados por experiências difíceis vividas por gerações anteriores, como perdas, traumas, conflitos e segredos familiares que nunca foram elaborados.

“Ninguém começa a vida do zero. O adolescente cresce dentro de uma história que já estava em andamento. Muitas vezes, ele percebe conflitos ou dores que existem no ambiente familiar, mesmo sem compreender exatamente o que está acontecendo”, afirma.

Segundo a especialista, isso não significa atribuir culpa aos pais ou avós, mas reconhecer que determinadas dinâmicas familiares podem influenciar o modo como o jovem percebe e enfrenta suas emoções.

“O objetivo não é apontar responsáveis, mas ajudar o adolescente a compreender o que pertence à sua história e o que faz parte de um contexto maior.”

A percepção de que experiências da infância podem repercutir na vida adulta também encontra eco em histórias pessoais. A profissional de educação Rafaela Cristina Campos, de 32 anos, acredita que episódios de violência vividos na infância contribuíram para os transtornos de ansiedade que enfrenta atualmente.

“Nossa família passou por um momento muito difícil de violência familiar. Eu era criança, devia ter uns 6 anos. Sofri bastante na época, mas jamais poderia achar que ia ficar ansiosa ou depressiva por causa daquilo. Hoje, com 32 anos, vejo que ali foi um gatilho para que eu tivesse os problemas que tenho hoje, e que preciso tratar. Fico nervosa só de me lembrar do que houve”, disse.

Quando a ansiedade pede ajuda

Nem sempre os sinais de ansiedade aparecem de forma evidente. Muitas vezes, o sofrimento emocional se manifesta por meio de mudanças comportamentais que podem ser confundidas com características da adolescência. Entre os principais sinais de alerta estão alterações no sono e no apetite, isolamento social, irritabilidade constante, queda no rendimento escolar, resistência em frequentar a escola e queixas físicas recorrentes, como dores de cabeça, problemas estomacais e sensação de falta de ar.

A especialista ressalta que comportamentos mais graves, como automutilação, uso de substâncias para aliviar o sofrimento e falas marcadas por desesperança, exigem atenção imediata.

“O mais importante é mudar a forma de reagir. Em vez de dizer que é besteira ou drama, é preciso demonstrar interesse genuíno pelo que o adolescente está vivendo”, orienta.

Pressão por resultados

Embora a pandemia, as redes sociais e a cobrança por desempenho sejam frequentemente apontadas como causas do aumento dos transtornos emocionais, Adriana acredita que esses fatores atuam principalmente como gatilhos.

Segundo ela, cada adolescente reage de maneira diferente às mesmas circunstâncias porque carrega uma bagagem emocional construída ao longo da infância e das relações familiares. “As redes sociais muitas vezes não criam a insegurança; elas ampliam algo que o jovem já sente”, explica.

Da mesma forma, a pandemia teria evidenciado fragilidades que já existiam em muitas famílias, tornando mais visíveis conflitos e dificuldades emocionais antes pouco percebidos.