As mãos de Maria dos Remédios Costa Silva, moradora de Paço do Lumiar, já sabiam quebrar ovos antes mesmo de aprender todas as tabuadas da escola. Filha de pais agricultores, ela contou que na sua casa todos precisavam trabalhar, independentemente da idade. Aos doze anos, já trabalhava em um café, onde ficou até os 18 anos, até decidir seguir por conta própria para sobreviver.
Perto dali, na Raposa, outra menina, outra Maria, de apenas sete anos de idade, aprendia a conduzir fios delicados sobre a almofada de renda. Sem imaginar, Maria Dorisete do Carmo Menezes desenhava o futuro.
Quase quatro décadas depois, uma transformou receitas em um dos cafés mais conhecidos de Paço do Lumiar. A outra tornou-se referência na arte que ajudou a construir a identidade cultural de sua cidade.
Elas carregam o mesmo nome: Maria. E entre bolos e rendas, suas histórias revelam como o empreendedorismo pode nascer muito antes do primeiro CNPJ.
Entre formas, massas e tabuleiros, Maria dos Remédios relembra o caminho que a levou até ali. Ela conta que, aos 12 anos, foi chamada por um casal de amigos para trabalhar em um café. Lá, aprimorou o que já tinha aprendido com os pais. Mas aí o café fechou, e Maria precisava se sustentar. Foi aí que veio a ideia de montar um café na varanda de casa, com dois jogos de mesa, ela, o filho e uma amiga. Mas não deu muito certo. Depois ela foi para a avenida principal de Paço, também não teve o resultado esperado. Resolveu mudar-se para um espaço maior e sentiu um frio na barriga ao perceber que os clientes demoravam a aparecer. Foram anos de angústia.
“Sabe o que é não ver nenhum cliente, nem um carro chegando? Não foram de dias de espera não, foram anos, mas eu nunca desisti. Tinha dia que tinha cliente, tinha dia que não. No ‘boca a boca’, o café foi ficando conhecido, fui participando de feiras, até que estamos aqui neste espaço, há dois anos, funcionando aos domingos com café da manhã e todos os tipos de bolos, doces, vários alimentos. Tudo feito artesanalmente. Todos os ingredientes são plantados e colhidos aqui”, disse.
Foi ainda na adolescência que Maria percebeu que tinha talento para a culinária. E ao conversar conosco exibia sorriso e brilho no olhar enquanto acomodava em uma bacia os bolinhos de arroz. “Eu amo o que faço, faço com muito prazer. E se tudo que você fizer, você fizer com amor, com gosto, você terá sucesso”, ensina.
Hoje a produção diária é de pelo menos 50 bolos. São 12 funcionários, participação frequente em feiras e eventos solidários e uma vontade permanente de crescer ainda mais. “Fazemos capacitação com o Sebrae, participamos de palestras para que o negócio cresça ainda mais, né? Estamos trabalhando para melhorar ainda mais”, disse.
Nascida em Barreirinhas, a menina que aos 12 anos saiu para trabalhar hoje se vê, aos 46, como uma empreendedora realizada. Agora, os clientes disputam mesas e degustam seus produtos em um lugar que não vende apenas café e bolos, mas oferece afeto. Na memória ela guarda o cheiro do primeiro bolo assado em um fogão simples.
“O que eu aprendi foi onde eu me encontrei. Realmente era o que eu sabia fazer que era trabalhar com culinária, especialmente bolos artesanais. O negócio é a gente não desistir e trabalhar no que gosta, atender bem o cliente. Assim, tudo tende a crescer. Mas não foi fácil”, disse.
A menina da renda
Se em Paço do Lumiar encontramos referência na gastronomia, na cidade de Raposa, ambas na Grande Ilha, encontramos a habilidade no artesanato. Maria Dorisete do Carmo Menezes, 65 anos, rendeira desde os sete anos, nos recebeu trabalhando. Ela falava e tecia, falava e tecia. Uma terapia, segundo ela, que a acompanha durante boa parte do dia. O saber veio da mãe cearense. E foi ela quempediu para aprender. Da mesma forma, passou o conhecimento para uma das três filhas, Darly Menezes.
“Eu sempre gostei de ter minhas coisas. Aí eu fui fazendo rendinha fininha e vendia para uma moça chamada Marizete. Ela comprava da gente e ia vender em São Luís. Nessa idade já tinha meu dinheirinho. Só paro quando morrer mesmo”, disse.
Entre dezenas de fios entrelaçados, Maria Dorisetetrabalha sem interromper a conversa. O trabalho requer habilidade e paciência, coisas que Maria Dorisete diz que tem de sobra. Já as duas filhas não quiseram saber do ofício. Segundo Maria, porque não é um trabalho que vende rápido. “Às vezes demora meses para vender uma peça, mas eu não desisto. Vou fazendo e uma hora vende. Antes era mais difícil porque tínhamos atravessador, hoje não. Com a Associação, vendemos direto para o consumidor”.
O reconhecimento conquistado
Situada a 30 km de São Luís, Raposa guarda talento e habilidades passados de geração em geração. A pequena vila de pescadores também é conhecida pelo trabalho de mulheres de mãos ágeis, calejadas e experientes na confecção de peças de renda de bilro.
É comum vê-las a qualquer hora do dia no Corredor das Rendeiras, como ficou conhecida a Rua da Lavanderia, local onde estão instaladas várias lojinhas de produtos artesanais. O ofício manual, ainda que algumas mulheres digam que as meninas não queiram seguir como profissão, ainda é muito forte no lugar.
A técnica foi importada do Ceará. De lá vieram os pescadores e, com eles, as esposas rendeiras. Hoje, a tradição é passada de mãe para filha. Nas famílias em que as filhas não demonstram interesse pelo ofício, a continuidade do trabalho pode ficar comprometida.
É o caso de Marilene Marques, da segunda geração de rendeiras que também aprendeu a renda aos 7 anos para ajudar no complemento da renda. Ela tem um casal de filhos, e a filha não quis aprender.
“Mas eu gosto de ensinar as pessoas que têm interesse em aprender essa arte. Foi algo que eu aprendi com minha mãe, é um legado e que eu levo para onde eu for. Tanto que temos um projeto chamado Redes e Rendas que inclui a renda de bilro na disciplina escolar desde 2023”, disse.
A Associação das Rendeiras e Artesãos da Praia da Raposa, que possui pelo menos 50 associadas, faz um trabalho de divulgação, manutenção e fortalecimento da arte, ofício responsável pela produção de emprego e renda de muitas famílias do município.
Marilene Marques diz que o trabalho está no sangue e no dia a dia. E ela conta que o trabalho da Associação permanece no sentido de formar pequenas rendeiras para que elas possam dar continuidade à arte. Para isso são realizadas oficinas e capacitações permanentes.
Desde 2005 o Sebrae faz formações e capacitações junto à Associação. Segundo Marilene, vice-presidente da Associação, essas atividades fazem toda a diferença na vida do empreendedor para que ele esteja capacitado e apto a disputar seu produto no mercado. “Porque o mercado de trabalho está sempre em movimento, se renovando, e a gente precisa estar antenada para não perder clientela”.
Tão importante trabalho mereceu o reconhecimento do Dia da Rendeira, celebrado em 17 de dezembro, além do título da renda de bilro como patrimônio cultural do Maranhão.
A renda que veio do Ceará
As rendas de bilros são feitas pelas mulheres da comunidade desde a década de 1950. Este tipo de artesanato foi trazido por famílias de pescadores do Ceará que migraram para o Maranhão nessa época.
No processo de produção da renda de bilro são utilizados instrumentos como almofada dura, palha, espinhos de mandacaru (originados do Ceará que servem para guiar os pontos), bilros, de origem do fruto da palmeira do tucum e madeira fina, e papelão perfurado que serve de guia para a execução de um determinado modelo ou variação de pontos.
As linhas ficam presas nos bilros e, quanto mais complexa é a peça, maior a quantidade de bilros.
Maria, Maria
Não são apenas duas histórias paralelas. São mulheres que: começaram cedo; aprenderam observando outras mulheres; transformaram conhecimento tradicional em renda; criaram seus próprios negócios; ajudam a movimentar a economia de seus municípios.
Em Paço do Lumiar, Maria continua cercada pelo cheiro dos bolos que ajudaram a construir seu negócio.
Na Raposa, Maria Dorisete segue entre fios, bilros e desenhos que atravessam gerações.
Separadas por quilômetros, elas compartilham a mesma herança: a certeza de que o trabalho aprendido ainda na infância não garantiu apenas sustento. Transformou-se em legado.
Transmissão de saberes
As histórias de Maria dos Remédios e Maria Doriseterefletem um fenômeno maior. No Maranhão, quase 100 mil pessoas vivem de atividades ligadas à economia criativa, setor que transforma cultura, tradição e conhecimento herdado em trabalho, renda e identidade.
O setor registrou um crescimento de 22,7% na última década, segundo o Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC). Iniciativas do Governo do Maranhão em parceria com órgãos como o Sebrae atuam por meio de editais focados em impulsionar o artesanato, a moda sustentável, a economia solidária e as startups criativas.
No artesanato e na gastronomia a economia criativa se manifesta por meio de saberes transmitidos entre gerações, como receitas de família, técnicas de produção e ofícios tradicionais, que ajudam a preservar a identidade cultural das comunidades e a manter vivas histórias que atravessam o tempo.