QUEBRANDO O SILÊNCIO

Em dois dias de funcionamento, Casa da mulher registra 40 BOs

No Maranhão, os números da violência contra as mulheres aumentaram mais de 100% na última década

A Casa da Mulher Brasileira fica localizada na Av. Professor Carlos Cunha, no Jaracaty.

A Casa da Mulher Brasileira fica localizada na Av. Professor Carlos Cunha, no Jaracaty.

A violência praticada contra mulheres apenas pela questão de gênero é um mal que não pode ser silenciado e a cada dia vem sendo mais exposto na sociedade pela coragem das vítimas que não aceitaram mais as agressões físicas e morais de seus parceiros.

No Maranhão, os números da violência contra as mulheres aumentaram mais de 100% na última década. De acordo com o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea), o Maranhão é um dos estados com maior incidência desses crimes.

Apenas no primeiro semestre de 2017, foram registrados 2.537 ocorrências de violência na Delegacia Especial da Mulher (DEM), número que poderia ser bem maior se, durante fins de semana e feriados, as vítimas sentissem confiança de quebrar o silêncio em um espaço destinado integralmente a elas.
Dados apontam que, anteriormente, uma a cada três ocorrências registradas em plantões da capital era referente à violência contra a mulher. Mudança que já é observada com o funcionamento constante da DEM na Casa da Mulher Brasileira desde a última terça-feira (14). Em apenas dois dias de funcionamento, 40 boletins de ocorrência foram registrados.

Plantão especializado

Ter coragem de expor um caso de violência ainda é uma ação que muitas mulheres não conseguem, seja por medo ou vergonha da repercussão social. Por outro lado, um número cada vez maior de vítimas tem deixado as sombras para expor suas situações de violência e colocando um fim a opressão por meio da Justiça. É o caso da advogada Ludmila Rosa Ribeiro da Silva, que relatou em redes sociais e na imprensa as agressões que recebeu do ex-companheiro Lúcio André Genésio, que agora é foragido da Justiça. Para que mais mulheres tenham esta coragem de denunciar, a Delegacia Especial da Mulher iniciou o funcionamento 24 horas na Unidade da Casa da Mulher Brasileira, localizada no Jaracati. Segundo a delegada Wanda Moura, titular do órgão, no primeiro dia de funcionamento em regime de plantão, dia 14, foram registrados 23 boletins de ocorrência. “Na terça-feira, tivemos duas prisões em flagrante, além de 15 Medidas Protetivas de Urgência (MPU) e foram registrados 23 boletins de ocorrência e durante o feriado tivemos o registro de 17 BOs, cinco prisões em flagrante e 12 MPU”. A delegada destacou que o atendimento especializado e o chamado acolhimento humanizado funcionam como um incentivo para mais mulheres quebrarem o silêncio.

“Muitas mulheres que sofriam violência no fim de semana esperavam chegar a segunda-feira para denunciar, mas, com o plantão funcionando nos fins de semanas e feriados, ela sabe que pode contar com um atendimento especializado a qualquer momento. Com um atendimento mais acolhedor e humanizado, a mulher que chegar à delegacia vai ser encorajada a fazer a denúncia”.

Basta de violência

A maioria dos crimes de feminicídio é causada pela não aceitação de homens do término do relacionamento, segundo aponta um levantamento do Tribunal de Justiça do Maranhão. Ontem pela manhã, Domingas Leidiely, de 37 anos, foi encontrada morta dentro de casa, na Travessa Padre Madureira, Bom Jesus. Segundo as investigações o principal suspeito de ter assassinado a mulher a facadas é o ex-companheiro, com quem ela teria terminado o relacionamento há cerca de três meses. Para a delegada Kazumi Tanaka, o pensamento incentivado pela sociedade machista fortalece o sentimento de impunidade dos homens que praticam este tipo de crime. “Homens que aprenderam ou vivem dentro de casa com esse tipo de crime acham que estão no direito de fazer e agir da maneira como agem.” Temos que mudar essa cultura e desconstruir a maneira que esses relacionamentos afetivos se estabelecem, imperando a vontade do homem sobre a da mulher”.

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