Um outro olhar

O que pensavam os indígenas sobre a fundação de São Luís

Em uma minuciosa pesquisa, o escritor Joseh Carlos Araújo revela os costumes, dotes guerreiros e como se deu a convivência dos franceses com os tupinambás

Os tupinambás eram considerados bons guerreiros e na época da fundação de São Luís existiam 18 mil na cidade

Os tupinambás eram considerados bons guerreiros e na época da fundação de São Luís existiam 18 mil na cidade

Quando os franceses chegaram a São Luís em seus navios pela Baía de São Marcos, em 1612, depararam-se com belos espetáculos naturais como a revoada dos guarás ao pôr do sol. Foi esta a primeira imagem vista dos conquistadores que aqui tentaram implantar o “Brasil francês” em duas formas sucessivas de conquista colonial no Brasil: A França Antártica de Villegaignon e Jean de Léry em 1550, seguida da França Equinocial de La Ravardiàre, de Razilly e dos Capuchinhos, no início do século XVII, em 1612. Os franceses também encontraram os primeiros habitantes do estado: os tupinambás.

A informação acima faz parte do livro 1612 – Crônicas de São Luís: a fundação da cidade sob o olhar tupinambá, do pesquisador, antropólogo, psicólogo e historiador Joseh Carlos Araújo, que realizou um estudo sobre a relação dos franceses e dos índios tupinambás que habitavam o Maranhão na época da fundação de São Luís. O escritor, que também é autor do livro 1615 – Crônicas de São Luís: A expulsão francesa do Maranhão sob o olhar indígena, também mostra um olhar dos indígenas da saída forçada dos franceses da ilha de Upaon-açu, denominada pelos gauleses de Maragnon.

O escritor Joseh Carlos Araújo, que também é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, afirma que a permanência francesa aqui foi registrada inicialmente em manuscritos e através de cartas enviadas pelos padres Claude d´Abbeville e Arséne de Paris aos superiores, parentes e amigos que falavam sobre os avanços da colônia e o bom entendimento com os nativos. Segundo Joseh Carlos Araújo, outro cronista que foi fundamental para os primeiros registros sobre a história da fundação de São Luís, foi o também religioso Yves de Evereux que praticamente permaneceu até o final da missão francesa em terras maranhenses. Sendo que este era bem mais reservado, porém, detalhista. Acompanhou de perto a evangelização dos indígenas, sem se envolver diretamente como Claude d´Abbeville, no complicado desenrolar das negociações que deram vitória aos portugueses e expulsão dos franceses em 1615.

Segundo Joseh Carlos Araújo, o caráter missionário em terras maranhenses muito ajudou nas relações cordiais com os tupinambás bem como a intimidade destes com as reentrâncias do litoral, mas que não foram suficiente para assegurar por mais tempo a colônia francesa implantada em São Luís. “Neste livro tento mostrar um olhar indígena que é o foco do meu trabalho que pouco foi retratado pela literatura. É o protagonismo indígena que neste contexto histórico é considerado mero figurante nessa briga toda entre a fundação e a colonização de São Luís. Este é um registro que eu considero importante porque eles eram os únicos brasileiros presentes quando ocorreram as primeiras guerras entre povos europeus, como franceses e portugueses, pela posse das terras do Maranhão”, explicou o escritor.

Aliança indígena com os franceses

Para Álvaro Urubatan Melo, historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e da Academia Ludoviscense de Letras, o que distingue esta obra é que o autor é pesquisador de volumoso subsídio ao assunto, e enfatiza com importância presencial dos tupinambás, na fiel aliança com os franceses, assunto sem relevância em livros alusivos à fundação de São Luís. “Joseh Carlos Araújo ressalta as qualidades destes gentios, sobre tudo seus costumes, dotes guerreiros, descritos com extrema habilidade. O livro é bom, o contexto fascinante”, disse ele.

Banquetes de carne humana

Joseh Carlos Araújo revelou a O Imparcial que quando os franceses chegaram ao Maranhão existiam cerca de 40 mil índios, 18 mil deles só em São Luís, e que os exploradores que aqui chegaram conquistaram os índios com o intuito de comercializar as riquezas encontradas para a França. No livro, Joseh Carlos Araújo cita, além das guerras sem fim, o requinte canibal, um traço selvagem distintivo dos tupinambás, que tinham como uma das paixões predominantes o massacre dos inimigos e consequentemente o gosto pelos banquetes de carne humana. Nos escritos do padre D´Abeville contextualizava tal situação: “O diabo tão profundamente cravou esse ponto de honra no coração dos selvagens como, aliás no de muitos cristãos, que preferem morrer nas mãos dos inimigos, e serem comidos, a fugir, o que lhe seria fácil em virtude de sua (quase) liberdade. Embora os índios tratem bem seus prisioneiros e lhes deem por mulheres suas filhas e irmãs…matam os mais gordos quando lhes dá na telha por ocasião de qualquer festividade ou caim”, escreveu o padre em seus manuscritos.

Na obra 1612 – Crônicas de São Luís: a fundação da cidade sob o olhar tupinambá, Joseh Carlos Araújo mostra ainda como em nome de Suam Majestade, Luís XIV, Daniel de La Touche, Francisco de Razilly, Nicolau de Harly, conselheiro de Estado e do Conselho Privado do Rei estabeleceram uma colônia francesa no Maranhão e terras adjacentes e a conversão dos índios ao cristianismo de acordo com as intenções do Rei da França antes de qualquer outra colônia decretar suas leis. “Há ainda uma grande discussão se realmente foram os franceses ou os portugueses que fundaram São Luís. Naquela época os portugueses eram donos do Brasil e os franceses lutavam para aqui instalar um território franceses. Os franceses passaram somente três anos em São Luís, e na época da fundação construíram as primeiras moradias que eram do tipo palafita, pois não tinham tempo para construir casas de alvenaria. São Luís só tomou mesmo forma de cidade após a explusão dos franceses, quando os portugueses começaram a construir os primeiros casarões coloniais que deram à cidade o título de Patrimônio Mundial da Humanidade por conta de seu conjunto arquitetônico”, explicou ele.

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