Jogo mortal

Os detalhes perigosos do Baleia Azul

Desafio da Baleia Azul causa mortes, mas também pode ajudar a descortinar a falta de apoio para adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional

Reprodução

Nesta semana, o Brasil começou a ter contato e a temer um novo viral na internet: o jogo da Baleia Azul, ou Blue Whale (em inglês). Criado supostamente na Rússia, consiste em um desafio de 50 passos envolvendo estado de psicodelia, privação de sono, consumo de material audiovisual sensível, automutilação submissão psicológica a um “curador” e, por fim, suicídio.

A corrente tem percorrido mensageiros eletrônicos e redes sociais, sempre com perfis falsos, preocupando pais pelo mundo todo. Só na Rússia, 130 casos de suicídio podem estar relacionados à “brincadeira”. No Brasil, relatos de adolescentes se mutilando, entalhando na própria pele uma baleia azul têm sido interpretados, por algumas pessoas, como uma falta do que fazer. Mas o que diz a ciência? Adolescentes são mesmo pessoas mais influenciáveis? O que está por traz da atração por um desafio que pode ser mortal?

Como explica Artenira Silva, pós-doutora em Psicologia e pesquisadora em saúde pública, a suposta maior influência sobre os adolescentes é real, uma vez que “crianças são mais sugestionáveis por pessoas com quem mantenham maior vínculo afetivo e adolescentes buscam espelhos ou modelos predominantemente fora do ambiente doméstico, por estarem sedimentando sua identidade”. Mas, como ela ressalta, o ser humano como um todo é sugestionável, “em todas as suas etapas de desenvolvimento, em maior ou menor grau”.

A forma de apresentação em si é favorável ao estímulo de jovens, por se tratar de um jogo de desafios, envolvendo também filmes e música. “Logo, estímulos externos como filmes e/ou jogos podem ter maior poder de sugestão sobre adolescentes, considerando- se principalmente as oscilações de humor e de emoções extremas também características deste momento de desenvolvimento psicossocial”, contou a doutora.

Para ela, é preciso ainda considerar a atração pelas coisas arriscadas e proibidas, pela aventura, pois isso está presente em todos os seres humanos, em especial, naqueles que se encontram em “momentos de vulnerabilidade ou carência emocional: não se sentir aceito, sentir- se rejeitado, ter alto índice de insegurança, ter baixa autoestima”.

A piada mortal

No Brasil, o meme se profissionalizou, já diz o novo ditado, e o jogo da Baleia Azul não passou despercebido pelos radares. Em alguns, uma carteira de trabalho é mostrada como “solução” para que os jovens não joguem; em outro, uma chinela para que pais agridam fisicamente os filhos que, por um acaso, estejam pensando em jogar; outro ainda mostra uma moça na praia de biquíni, que foi pintada de azul e, claro, chamada de baleia; em mais um, a mãe de um sujeito oculto e genérico, que pode ser qualquer um que esteja lendo, é a baleia fazendo um comercial de uma companhia de telefonia móvel.

Exemplos não faltam, mas, para a psicóloga Artenira, eles não têm graça alguma. Ela explica que memes, piadas ou “qualquer forma pejorativa de fazer referências aos usuários do jogo são necessariamente negativos”.

“Uma das afirmações mais frequentes é que estes adolescentes têm uma cabeça vazia ou vivenciam falta de ter o que fazer. Este tipo de afirmação, além de preconceituosa, banaliza o sofrimento de quem está encarcerado no jogo ou a vulnerabilidades que o tenha atraído para o jogo”, reforçou a psicóloga.

É preciso ajudar

Antes de mais nada, como explica a especialista, é preciso entender que pessoas precisam de ajuda. Pais e amigos podem oferecer essa ajuda para quem esteja jogando ou mesmo que apenas se sinta atraído. “Dialogar, como um hábito familiar, não é fácil e precisa ser cultivado”, disse a psicóloga. Ao final do dia, quando todos estão cansados de suas tarefas diárias, tendem a se isolar em seus celulares ( redes sociais), deixando de primar pela interação presencial em casa ou mesmo em lazer. Quantas vezes não presenciamos uma família em um restaurante sem qualquer interação, cada um focado em seu celular?”, questionou.

“As famílias, independentemente dessa formação, são consideradas estruturadas e protetoras da saúde mental de seus integrantes quando respeitam a dignidade da pessoa humana de cada um dos seus membros, de qualquer gênero ou faixa etária. Um ambiente doméstico saudável cultiva o diálogo como um hábito e seus membros se sentem amados e importantes, em ambiente que apoia e dá suporte”, ressaltou Artenira.

As razões e a baleia

Dias antes do jogo da Baleia Azul ser lançado, foi a série 13 reasons why, do canal de streaming Netflix, que trouxe a discussão do suicídio de adolescentes para o dia a dia das salas de aula, escritórios e almoços de família. Na série, uma menina chamada Hanna deixa 13 fitas gravadas contando as razões que a levaram à tomar a decisão de findar a própria vida. O espectador acompanha por 13 episódios os amigos, pais e tutores serem apresentados, alguns omissos, outros ativamente cruéis com a jovem.

Hanna, segundo alguns críticos da produção, é mostrada como heroína, como alguém empoderada após a morte. Para outros, é uma menina como muitas, amiga de escola de tantas outras, que sofre vários abusos físicos e psicológicos até que chega ao ponto de não suportar mais estar viva. Mas de que lado está a verdade? Questionou inclusive a Netflix em suas campanhas promocionais. Para a doutora Artenira, antes de mais nada, é preciso questionar o que todas as situações apresentadas, que contribuíram para o suicídio da personagem, e por extensão dos jogadores, possuem em comum. “Todas as situações a rebateram a contextos de humilhação, desvalorização, sofrimento, crueldade, ridicularizarão, menosprezo… Enfim, a prevenção doméstica e escolar no que diz respeito a evitar ideações suicidas em adolescentes é cultivar valores de inclusão, valorização, solidariedade, atenção genuína e escuta ativa. O ser humano precisa de afeto e atenção para sua sobrevivência tanto quanto precisa do ar, de água e de alimentação”, apontou a especialista.

Para Artenira, as afirmações de empoderamento e de romantização não podem ser feitas de forma tão simples. “Observe o completo contrassenso de rotular de modo simplista situações de máxima complexidade. Não é possível afirmar que o suicida tem ou não poder, é ou não corajoso, é ou não covarde. São rótulos cruéis e preconceituosos.

Na verdade, o suicida é alguém que se encontra em sofrimento extremo e, portanto, no mínimo, requer respeito e ajuda profissional”, explicou.

A doutora explicou ainda que “a personagem não inspira a vontade de imitá-la, salvo se a pessoa estiver vivenciando sofrimento semelhante, mas inspira vontade de cuidar, inspira lamento”. Para ela, a conversa sobre o jogo e sobre a série não deve ser pelo viés de crítica pura aos personagens, mas pelo contexto social e de saúde que levantam. Para ela, a mídia sobre o jogo, os casos e a série deveriam servir para que as pessoas procurassem oferecer ajuda a quem precisa. “Um ponto que me chama a atenção na discussão das pessoas é que focam na crítica aos jogadores ou à personagem da série com expressões de desprezo ou raiva, quando deveriam, em um contexto de saúde mental, sentirem o impulso para ajudar, acolher, apoiar, rever seus próprios comportamentos no cotidiano”, disse.

O jogo da Baleia Azul e a série 13 resons why deixam um convite para uma autoavaliação sincera e profunda: eu critico mais que elogio? Sinto prazer em difamar alguém? Acolho e ouço aqueles que digo amar quando precisam de atenção? Tenho tempo para tomar um café com um amigo que precisa de atenção? Eu, de fato, favoreço à vontade de viver ou reforço a desmotivação pela vida daqueles com quem convivo? Muitos seres ditos humanos criticam, excluem, difamam, agridem, atacam e julgam seus semelhantes muito mais do que acolhem, apoiam, valorizam, elogiam e incluem. Este é o terreno fértil para o sucesso de jogos como a Baleia Azul”, finalizou.

As cores do bem

A mesma onda que deu origem à Baleia Azul também trouxe a Capivara Amarela e a Baleia Rosa, grupos e correntes que tentam reverter o lado negativo e perigoso oferecendo ajuda e estímulo à autoestima.

A Baleia Rosa, um completo oposto da russa, é um desafio criado por uma publicitária que incentiva as pessoas a tomarem ações de valorização da vida. Em vez de automutilação, autoinspiração; em vez de vídeos perturbadores, vídeos engraçados; nada de ficar acordado de madrugada, e sim para contemplar o pôr do sol; e já que desenhar é uma ótima terapia, troca-se a baleia triste por um unicórnio colorido. Já a Capivara Amarela, um símbolo bem brasileiro, é um desafio criado pelo curitibano Sandro Sanfeline, e nele, os participantes são separados entre desafiantes e curadores, a exemplo do russo, mas as funções são bem diferentes. Os participantes são pessoas que procuram ajuda, e os curadores, ou padrinhos, são pessoas dispostas a oferecê-la.

Os desafios são separados em três categorias: iniciais, intermediários e avançados. Entre eles, a exemplo da Baleia Rosa, estão, por exemplo, escrever todo dia uma qualidade ou algo que a pessoa goste nela mesma, usar uma roupa favorita e tirar fotos, como se estivesse fazendo um book fotográfico, doar sangue, entre vários outros.

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