PATRIMÔNIO

Uma viagem à São Luís do século XIX

Na Semana Nacional dos Museus convidamos você a conhecer um pouco sobre a riqueza patrimonial, arquitetônica e histórica guardada no Solar Gomes de Sousa

Reprodução

Eu poderia começar esse texto de mil e uma maneiras, mas prefiro iniciar perguntando a você, leitor, se já visitou alguma vez o Museu Histórico e Artístico do Maranhão? Sabe onde fica, o que guarda, o que representa? Pois bem, se você já conhece, convido a apreciar a leitura, mas se não conhece, convido a perceber as minúcias que o casarão abriga. Nesta semana foram realizadas várias atividades na Semana Nacional de Museus em todos os museus e pontos de memória do estado. Escolhemos o MHAM por ser o museu mais representativo do estado. Então vamos lá? Boa leitura.

O sobrado onde fica o Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM) fica na rua do Sol, no Centro de São Luís e foi construído em 1836, a mando do major Ignácio José Gomes de Souza, um fazendeiro da região do Vale do Itapecuru, e pai de Joaquim Gomes de Souza, o Souzinha, que se destacou como matemático, astrônomo, filósofo e parlamentar.

O Solar Gomes de Souza, como ficou conhecido, é uma residência antiga, grande e luxuosa que representa a arquitetura civil maranhense do século XIX e a forma como vivia a sociedade abastada dos séculos XVIII e XIX.  Por isso, o prédio por si só já é um atrativo para o visitante. Desde a fachada, até o hall que dá de frente para a suntuosa escada, passando pela área externa, dá para se imaginar como viviam bem os moradores que passaram por ali.

Antes de ser comprada pelo governo do estado em 1968, por NCr$255.000,000 (duzentos e cinquenta e cinco mil cruzeiros novos) para ser sede do MHAM, ela foi residência de outras famílias ilustres do estado, como: Alexandre Colares Moreira membro da primeira diretoria da Caixa Econômica. Seu filho, Colares Moreira Jr, foi vice-governador de 1902 a 1905.

A família de José Francisco Jorge, grande industrial têxtil do Maranhão, foi a última a residir no sobrado, em 1918. Foi fundador dentre outras indústrias, da Companhia de Fiação de Tecidos do Rio Anil, onde hoje funciona o Cintra.

Idealizado pelo jornalista e escritor Josué Montello, o museu foi inaugurado em 28 de julho de 1973. A “casa de época” foi ambientada de acordo com descrições dos costumes encontradas na literatura maranhense a exemplo de O Mulato, de Aluísio Azevedo e Tambores de São Luís, de Josué Montello, onde são descritas a organização e a disposição dos ambientes de casas do século 19.

“Então você vê que esse solar abrigou três famílias distintas de importância no setor agropecuário, político e a industrial. Isso já é um atrativo.  Isso é a história. A pessoa que vem aqui tem como saber como viviam essas pessoas. Porque quando você aprende na sala de aula, com a teoria, é diferente de quando você vê os objetos, o mobiliário, as louças, os acessórios, o acervo em geral. Todas as pessoas que visitam um museu acabam se identificando de alguma forma, como sujeito da história a qual está inserida”, conta Maria da Conceição Ribeiro… responsável pelo setor de museologia do MHAM.

Confira a galeria de fotos dos objetos presentes no MHAM:

O que chama atenção

O museu possui um importante acervo que envolve mobiliário, louças, porcelanas, vidros, cristais, pinturas, esculturas e azulejarias de época, fruto do esforço de Josué Motello e José Jansen em reunir um vasto acervo (reuniram mais de mil peças) que pudesse contribuir com a memória história do Maranhão. Foram também muitas as doações de pessoas que possuíam coleções particulares e compra de peças para compor o acervo.

“Não temos um objeto que seja mais valioso, porque quando a peça chega em um museu ela perde seu valor de mercado e passa a ter valor histórico e artístico. Agora, claro que alguma peça chama mais atenção que a outra”, comenta Concita Ribeiro.

 Uma das coisas que mais chama a atenção no mobiliário é a estante Júlio Roca, atrativa pela suntuosidade. O móvel foi um presente da Argentina para o Brasil, por meio do ex-presidente da Argentina, Júlio Roca, no ano de 1902. Antes ela ficava na Biblioteca Pública Benedito Leite.  Seu exterior conta com o desenho em relevo da Praça Gonçalves Dias e da Praça Buenos Aires, representando as duas cidades, São Luís e Buenos Aires, respectivamente. A estante é de madeira de lei com o interior revestido em carpete vermelho. Outros itens importantes do Museu são os manuscritos originais dos livros O Mulato, de Aluísio Azevedo, e Malazarte, de Graça Aranha.

 Na parte externa, o poço, que abastecia a casa é também motivo de admiração, características dos casarões mais opulentos da época. “A gente nunca viu um poço de perto, então é bem estranho imaginar como era antes, se bem que eles tinham os empregados né, os escravos para fazerem tudo”, comentou a estudante Letícia Sousa.

O passeio

Fomos guiados por um guia de museu, o Levi, que falou com muito entusiasmo de tudo que estava ali, pelos 14 cômodos da casa, amplos, arejados. Ao subirmos as escadas, nos deparamos com os quadros dos antigos proprietários da casa.

Hoje isso seria improvável, lógico. Você já imaginou no centro da sala um aparador de cuspe? Pois naquela época um objeto fazia parte do mobiliário em todos os cômodos: a escarradeira, ou cuspideira, comum porque havia o hábito de mascar fumo e em seguida cuspir, para evitar a tuberculose.

O primeiro cômodo do roteiro, a sala feminina, destaca o récamier, uma peça francesa cujo nome é em homenagem à Madame Juliette Récamier. O móvel largo e confortável era feito para mulheres corpulentas e para abarcar as vestes que eram grandes e fartas.

Ao lado, a sala masculina, e em seguida a sala de música representando o hábito da época de se fazer saraus. Era comum ser frequentada por casais, e onde se recitava poesia e tocava-se piano até o amanhecer.  

No quarto do casal, chama atenção a cama de dossel para proteger dos insetos. O berço decorado com carrancas demonstrava a ideia de afastar os maus espíritos e proporcionar um sono tranquilo para o bebê. A cadeira trono, onde se faziam as necessidades fisiológicas, escondia um penico. O objeto, colocado dentro dos quartos, já que não havia saneamento, nem rede de esgoto, originou a história dos escravos tigres. Ao levarem os depósitos com fezes, passando normalmente por ladeiras, os dejetos caiam em suas peles, causando doenças, marcas, deixando manchas, o que fez com que fossem conhecidos por escravos tigres.

O quarto da moça solteira, com várias portas e janelas, ficava próximo ao quarto dos pais, o que permitia que ela fosse vigiada. Já o quarto do homem ficava mais isolado e estrategicamente próximo à escada que dava acesso ao andar inferior e permitia que subissem escravas para visitas noturnas. Esse quarto masculino não possuía cama, já que os jovens eram enviados para estudar no exterior e passavam pouco tempo na casa. Eles dormiam em redes.

Na sala de jantar, a mesa, único móvel original do lugar, demonstra que na época as famílias eram grandes. “Demonstra também a avareza de algumas famílias. Porque conta-se que quando eles estavam fazendo refeição e chegava alguém indesejado, eles guardavam a comida nas gavetas”, conta Levi. “A casa tem um dado curioso. É que a mesa está em um ponto estratégico onde o chefe da família ficava na cabeceira da mesa onde ele podia olhar quem chegava na casa e o que estava acontecendo na área externa ao mesmo tempo”, conta Concita Ribeiro.

Há também os ambientes com acessórios de maquiagem e cabelo; o quarto da criança, a biblioteca, onde fica a estante de Roca.  A ala da cozinha, sala de atividades manuais e o escritório atualmente está em reforma.

Gostou? Isso é só uma pequena parte do grandioso acervo histórico e cultural que temos na nossa cidade. O Museu Histórico e Artístico do Maranhão está aberto à visitação de terça à sexta das 9h às 17h30, sábado de 9h às 16h e domingo de 9h às 14h. Para visitação paga-se uma pequena taxa.

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