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CULTURA

Um passeio pela história dos bares tradicionais de São Luís

São Luís é a República dos Botecos. Esta assertiva foi feita pelo jornalista, compositor e escritor João Batista Lopes Bogéa

Reprodução

Boêmios e notívagos ludovicenses ou visitantes, que gostam de botecos, sempre encontra algum em qualquer ponto da ilha. É o lugar certo para um alegre bate-papo, degustação de boa bebida e das iguarias da nossa gastronomia específica. Discutir é fazer negócio, iniciar ou acabar relacionamentos, paquerar ou afogar as mágoas, o boteco é sempre uma terapia para problemas de qualquer etiologia.

São Luís é a República dos Botecos. Esta assertiva foi feita pelo jornalista, compositor e escritor João Batista Lopes Bogéa, certa vez, ao convidar seus companheiros de Rádio Timbira, para tomar cervejas no boteco Caixa de Fósforos, pertencente ao seu amigo, a quem chamava de irmão, João Mouchereck, localizado em um espaço pequeno ( o que lhe rendeu a denominação), na parte inferior do sobrado em que residia com a família, na esquina das ruas dos Afogados com Ribeirão. Ali, era ponto de encontro de velhos amigos.

Para o jornalista Antônio Nelson Faria, um do fundadores da Banda Pastoral do Grogue, em parceria com Ronald Almeida, Francisco Ramos (Chicão), Helias Haickel e Fernando Godinho, boteco é ponto de encontro para jogar conversa fora, atualizar conhecimentos culturais, meditar sobre a vida e curtir a bebida predileta. É lugar para socializar com amigos mais chegados. Nunca é, e sequer será, ponto para “chato de galocha” se encostar. “Porque bar vazio é cena forte demais para boêmio cotidiano”, profetiza Nelson.

O épico Moto Bar

Entre tantos botecos que existiam na cidade, o Moto Bar foi o que marcou, na sua época. Toda sociedade maranhense o frequentava. Uns para beber com os amigos e botar a conversa em dia; outros, para lancharem; alguns para comprarem frutas frescas importadas (uvas, peras, maçãs, ameixas, etc.), somente lá encontradas, visto que vinham da Europa, em navios. Ali também eram encontrados bebidas, biscoitos, queijos finos, presuntos defumados, etc. Servia excelentes sanduíches de pernil e de queijo, sorvetes de frutas regionais e de ameixa, e o inigualável guaraná champanhe, além da cerveja mais gelada da cidade.

Em artigo publicado nas redes sociais da Academia Maranhense de Letras, falando da relação do poeta Fernando Braga, com o Moto Bar, o jornalista, dramaturgo e escritor Ubiratan Teixeira, emérito representante da boemia maranhense e frequentador ilustre daquela casa portuguesa com certeza, garantiu que foi no Moto Bar que o poeta Nauro Machado teria conhecido o outro poeta Bandeira Tribuzi, nascendo, assim, uma grande e saudável amizade que durou até a morte do genial autor de “Pele e Osso”. Ambos já estão brilhando no andar superior. Outros grandes frequentadores do Moto Bar eram os jornalista Erasmo Dias e seu fiel escudeiro Luís Alves, conhecido como “Luís Papagaio”, que exerceu mandatos consecutivos de vereador de São Luís.

O Moto Bar pertencia a um grupo de cidadãos portugueses liderados por um chamado Serafim. O nome do estabelecimento se originara porque alguns rapazes da época ali se reuniam no intuito de trocar ideias sobre suas possantes motocicletas, que as tinham como hobby, e não como transporte, como hoje se vê; e ali se reuniam com o objetivo da troca de ideias em torno do objeto comum de todos que era aquele esporte. Segundo Fernando Braga, surgiu assim, o Moto Clube, nome que mais tarde foi dado ao time de futebol fundado pelo mesmo grupo, a proporcionar ao torcedor maranhense, muitas alegrias, sendo, inclusive, o campeão do Norte na década de 40, recebendo, por isso, o carinhoso epíteto de “Papão do Norte”.

O Moto Bar fechou e no seu lugar existe apenas o prédio abandonado, fechado por tijolos, contrastando com a beleza do recém reformado Largo do Carmo. Ainda hoje, aquele prédio serve de referência para muitas pessoas, que para indicar a Ladeira do Comércio, dizem que a mesma fica ao lado do prédio em que funcionou o Moto Bar.

Bar do Hotel Central

Com o fechamento do Moto Bar, os frequentadores migraram para o Bar do Hotel Central que recebia boêmios de todas as estirpes, notadamente jornalistas, poetas, outros intelectuais e políticos, pessoas da sociedade que o preferiam para o bate-papo de fim de tarde, que se estendia até altas horas. Aquele estabelecimento contava com garçons prestimosos e atenciosos com destaque para o Lauro e Seu José, sempre trajando paletós imaculadamente brancos e suas gravatas borboletas, e que tinham a preferência dos que ali se reuniam. O bar funcionou durante muitos anos no térreo do prédio Palácio do Comércio, e prestou bons serviços. O local era um ponto de encontro, não só de hóspedes do Hotel Central, mas, também, de pessoas da sociedade local. Ali, negócios eram realizados ou desfeitos, tudo regado a uísque do bom, e outras bebidas.

Foi naquele ambiente que, no dia 7 de dezembro de 1973, uma sexta-feira, às 19h30, o empresário e campeão de tiro ao alvo Ivon de Oliveira Sousa, de 36 anos, assassinou com um tiro no rosto o contador do Tribunal de Contas do Estado José Ribamar Sacramento Pestana Costa, de 34. A motivação do crime teria sido a disputa por uma mulher. Ivon Oliveira foi assassinado com um tiro de espingarda, por um policial civil aposentado, em 1984, na Areinha. Mesmo assim, o bar se manteve aberto por muito tempo, mas o crime jamais foi esquecido.

O antológico Bar do Léo

Um bar tradicional que ainda resiste, é o Bar do Léo, localizado no horto mercado do conjunto Vinhais. Trata-se de um bar muito frequentado pelos moradores daquele núcleo habitacional e por boêmios e famílias de toda cidade, que ali vão curtir a boa música apresentada pelo sistema de som mecânico, e se deliciar com as variadas comidinhas de boteco da nossa gastronomia regional.

Já houve tentativa de fechá-lo, mas não deu certo. Jornalistas, políticos, intelectuais e até mesmo membros do Judiciário, uniram forças em apoio ao seu proprietário Leonildo Martins e impediram a catástrofe. Ali se reúnem pessoas da sociedade em geral para as conversas que não tem fim e também para acontecimentos culturais como noites de autógrafos para lançamento de livros.

Foi lá que o radialista Elvas Ribeiro, conhecido como “Parafuso”, fez o lançamento do seu livro “Memórias de um parafuso”, em que narra fatos e causos vividos e praticados por jornalistas/radialistas maranhenses, por ele testemunhados.

O Bar do Léo é um misto de boteco e museu. Ali estão expostas peças  de rádio e radiolas antigos e imenso número de discos de long-plays e CDs, discos de 78 rpm, fotografias e muitas bugigangas. Ali, se mantém a tradição da boa música, com ênfase à MPB de boa qualidade e toda variedade de estilos. Alguns notívagos, do tipo que Antônio Nelson chama de “chato de galocha”, que encontram resistência do Léo ao pedirem alguma música, então encenam uma discussão entre eles, dizendo que ali não tem a referida música. Funciona como um desafio e o Léo, sem nada dizer, bota a música pra tocar, para provar que tem a maior coleção de discos do estado.

Base do Rabelo & outros

No Bairro do Lira, um boteco, marcou sua época como ponto de encontro de políticos e intelectuais. Era um ambiente simples e ao mesmo tempo sofisticado em face ao nível dos seus frequentadores. A Base do Rabelo se celebrizou por servir o melhor galeto da cidade. As aves eram preparadas com esmerado zelo e assadas na brasa ou no forno, conforme a preferência do freguês e sempre sob a supervisão do seu proprietário. Servia também as bebidas de qualidade indiscutível como o whisky de boa procedência. “Baleado”(whisky falsificada) ali não tinha vez.

Não muito distante dali, na Rua João Evangelista, na Macauba, se encontrava a Base da Maroca, uma senhora negra que servia sua especialidade, carne bovina assada de panela, temperada com especiarias como cravo da índia, o que lhe dava um sabor forte e gostoso. Outra especialidade da casa era cerveja bem gelada e batida de limão e de maracujá. Tempos depois a casa passou a ser administrada por seu filho, Germano, que evoluiu para a Base do Germana. Mudou para a Avenida Wenceslau Braz, próximo ao Canto da Fabril e, graças a forte campanha midiática, ficou conhecida por servir um prato que ficou famoso, a “Camaroada do Germano”. Encerrou suas atividades com a morte do proprietário, assassinado no Turu.

No Caminho da Boiada, dois bares se digladiavam . Um, de propriedade de um homem conhecido como Cambota, que negociava com pescados no eixo Desterro/Mercado Central, e o outro pertencente ao empresário Raimundo Nicomedes, o “Mundiquinho”, muito conhecido por promover bailes de máscaras no período do Carnaval.

Mundiquinho foi também dono do Bar Sputinik, na Praça do Mercado Central, muito frequentado por comerciantes da região após o fim da feira e aposentados, que ali iam com o propósito de namorar com alguma das garçonetes, todas  muito bonitas, escolhidas para o trabalho como chamariz, mas o proprietário não permitia saídas no horário de trabalho e nem qualquer comportamento inadequado no local. Não era lugar de prostituição.

Ainda no Caminho da Boiada, havia o Bar do Aragão, um misto de boteco e quitanda. Ali vendia tudo em gêneros alimentícios de mercearia, mas também uma cerveja, muito elogiada por ser uma das mais geladas da cidade.

Bar do Cajueiro

O Bar do Cajueiro funcionou na Rua Afonso Pena, no Centro Histórico. Suas atividades se iniciaram, como uma garapeira e depois transformada em bar. Mesmo com um quadro de funcionários atenciosos, o dono Antônio Cajueiro, não se descuidava no atendimento aos seus clientes. Era muito frequentado por jornalistas, visto que situava-se próximo dos jornais Pequeno, O Imparcial e Jornal do Dia, que funcionava na Rua de Santana, transformando-se depois no jornal O Estado do Maranhão. Ora funcionando na Avenida Ana Jansen, no São Francisco.

O Bar do Cajueiro servia bons tira-gostos, mas sua especialidade era ovos cozidos, tingidos em várias cores com anilina de confeiteiro e que eram servidos mesmo sem o cliente pedir, pelo seu proprietário. Antônio Cajueiro foi presidente, por muito tempo, do Sindicato dos Bares, Hotéis e Similares de São Luís e foi um maiores vendedores de cerveja da cidade. Na mesma Rua Afonso Pena tinha o Bar da Hora, cuja especialidade era o prato “bife a cavalo” elaborado com carnes nobres, o que lhe garantia a qualidade.

Outro bar que se mantém na história da cidade é o extinto Bar do Biné, na Rua do Ribeirão, próximo da Praia do Caju ( Beira-Mar). Nos anos 60, era ponto de encontro dos jovens , professores, poetas, jornalistas e outros profissionais liberais que se opunham ao movimento ditatorial de 1964. Por que ali se reuniam lideranças dos movimentos revolucionários, era um local muito vigiado pelos “arapongas” das forças de segurança, mas o grupo de frequentadores formado por pessoas bastante argutas, quando detectavam a presença de algum suspeito, nada que pudesse comprometer quem quer que fosse, era falado. Foi no Bar do Biné que foi fundada pelo jornalista Antônio Nelson, poeta Valdelino Cécio e por Joina Moraes, a banda do Baixo Leblon, animada pelo músico Tio Zeca, que por muitos anos foi a grande atração do carnaval de São Luís.

No Bairro Diamante, reinou a Base da Diquinha, especializada em servir galeto feito na brasa e a inigualável costeleta de porco, também feita na brasa. Era frequentada por granfinos e pessoas de todos os segmentos da sociedade. Todos se rendiam aos sabores das comidas servidas pela Diquinha e também pela cerveja, sempre muito gelada.

O Bar Amendoeira, no Olho D’Água, funcionou por muito tempo, e tinha público cativo motivado pelo tratamento sempre cordial de seus proprietários Wanderley e Dona Jovina. Ali, Ronald Almeida, Francisco Ramos – “ Chicão”, Antônio Nelson, Elias Haickel e Fernando Godinho, fundaram a Banda Pastoral do Grogue, que até hoje marca o Carnaval de São Luís.

No Anjo da Guarda, além da Boite Guarany, havia o Bar do 29, que funcionava no Mercado daquele bairro e ficava aberto a noite toda para atender os boêmios e notívagos de plantão, servindo a cerveja mais gelada, iscas de peixe, peixe frito e iscas de fígado, a marca registrada do boteco.

Na Praça da Alegria, no Centro da cidade, o Terraço Bar funciona durante o dia até às 21 horas, com grande movimentação, servindo cervejas e outras bebidas e lanches. É o ponto preferido dos comerciários e pessoas que necessitam ir ao Centro e aproveitam para um momento de lazer.

Com o passar do tempo estes bares sucumbiram ou evoluíram para restaurantes, ficando na lembrança e na saudade da boemia da cidade.

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