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RAPOSA OU CACHORRO-DO-MATO

Em meio a isolamento social, animais silvestres passeiam em São Luís

Especialista afirma que presença de raposas ou outras espécies não representa ameaça

Os animais diferentes costumam ser vistos passeando tranquilamente em alguns pontos de São Luís. Foto: Divulgação

Era noite quando, ao passar de carro, a caminho de casa, o professor universitário Márcio Cunha observou animais diferentes passeando tranquilamente pelo calçadão da Lagoa da Jansen, em São Luís. Ao se aproximar, ficou surpreso com o que viu: eram duas raposas (nome científico: Cerdocyon thous), animais que também são chamados de cachorros-do-mato. Para comprovar o que testemunhou, Márcio gravou um vídeo.

Professor Márcio Cunha desce do carro e se aproxima dos animais, que, apesar de tranquilos, refugiaram-se na mata ao notar a presença humana. Crédito: Arquivo pessoal

O que Márcio presenciou na noite de terça-feira (16) já tinha sido visto por outras pessoas ao longo dos últimos dias. No fim de semana, outro vídeo, que acabou viralizando nas redes sociais, mostra um casal encantado com a presença dos animais no mesmo lugar.

Leia também: Qual a fauna de São Luís e onde encontrar?

Casal fica admirado com o passeio noturno dos animais pelo calçadão da Lagoa da Jansen. Crédito: Divulgação

“Meu Deus, um monte de raposa!”, exclama a mulher, enquanto o homem, que dirigia o veículo, chegou a parar o carro para tentar filmar melhor o grupo de animais que por ali passeava. “Olha, que coisa linda, um monte de raposa aqui na Lagoa da Jansen! Olha, olha que coisa linda!”, comentou.

Essa admiração existe porque, apesar de serem comuns nos chamados fragmentos florestais – áreas verdes preservadas dentro da zona urbana da cidade-, esses animais silvestres há muito não eram vistos tão à vontade por aí. “Esses bichos sempre existiram pela região, mas com obras de urbanização, como as praças, eles foram perdendo espaço de habitação natural. Esses animais se espantam facilmente com ruídos de carros, sons de máquinas, além da presença de pessoas. Por isso, agora, acredita-se que o isolamento social tenha os deixado mais ‘livres’ para essas saídas de dentro das matas”, comenta Maximiliano Siqueira, biólogo com mestrado em Ciência Animal e especialista em Engenharia Ambiental.

Maximiliano Lincoln Soares Siqueira é Biólogo, Mestre em Ciência Animal, Especialista em Engenharia Ambiental, Consultor Ambiental especialista em animais silvestres.

Sem ameaças

Questionado sobre se teve ou não algum tipo de receio ao se aproximar dos animais, Márcio Cunha disse acreditar que não haja perigo. “Acredito que não tem, só se alguém for lá perturbar, elas são muito assustadas. Eu desci e fui olhar de perto, e elas se assustaram quando me olharam. Em período normal, elas não aparecem assim”, relata o professor que filmou as raposas maranhenses passeando pela Lagoa.

O estudioso Maximiliano Siqueira esclarece que a raposa é a espécie da família dos canídeos mais comumente encontrada nos fragmentos florestais. De hábitos noturnos, os animais não oferecem qualquer risco às pessoas. “Não faz nenhum sentido recolher esses animais, que sempre viveram ali; mas talvez um monitoramento [pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ)] possa ser interessante”, atesta o consultor ambiental especialista em animais silvestres que atua em uma empresa especializada.

O pesquisador pondera que o risco de transmissão de doenças como a raiva a partir do contato com esses animais é baixo.

Hábitos alimentares

Raposas são mamíferos silvestres de médio porte, e são notívagas: dormem o durante o dia e saem depois que o sol se põe. É quando vão em busca de alimentos. Por serem onívoros, eles se alimentam tanto de outros animais, como roedores e aves, quanto de alguns vegetais, como frutinhas silvestres. “Justamente por serem ‘generalistas’ na alimentação, as raposas vêm conseguindo se adaptar às mudanças impostas pela urbanização da cidade”, pontua Max Siqueira.

Em cima, raposa vermelha (Vulpes vulpes), comum na América do Norte, Europa e Ásia. Embaixo, raposa maranhense (Cerdocyon thous), também chamada de cachorro-do-mato, mamífero silvestre de maior porte encontrado hoje em matas na área urbana de São Luís. Foto: Divulgação

Bom sinal

A presença desses animais não deve ser encarada como uma preocupação, mas como um bom sinal, pois, segundo o especialista, eles vivem e se refugiam em micro populações, nos fragmentos de mata que ainda resistem em São Luís, como a floresta do entorno da Lagoa da Jansen; o Parque do Rangedor; a Área de Preservação Ambiental do Itapiracó; as vegetações que cobrem dunas na Avenida Litorânea; e as áreas de mata ciliar no leito do rio Pimenta, na região do Vinhais e Calhau. “Já ocorreu de alguns bandos migrarem durante o dia, de um fragmento florestal para outro, e acabarem atropelados”, relata Max Siqueira, que acrescenta: “Se as raposas passeiam pela Lagoa, é porque a população humana da região coexiste pacificamente com esses animais, há uma consciência geral para a preservação da fauna silvestre”.

Caça de animais silvestres e o novo coronavírus

Historicamente retratadas como animais maliciosos e ‘ardilosos’, as raposas ainda são alvo de muitos criadores de aves que, especialmente nas cidades do interior, praticam a chamada “caça de retaliação”, que é quando os bichos são capturados e mortos por terem se alimentado de galinhas, por exemplo.

Essa prática, assim como a caça de animais silvestres apelidada de “esportiva”, configuram crimes ambientais previstos na legislação brasileira. “Só não é crime quando se trata de caça para subsistência, ou seja, para a própria alimentação ou para alimentação da família”, lembra o biólogo Max Siqueira.

O consultor ambiental também ressalta que, apesar de haver como melhorar, as leis brasileiras têm tido sucesso na preservação das espécies silvestres, de um modo geral. “O Brasil tem a segunda maior biodiversidade do mundo, atrás apenas da Indonésia. Graças a essa legislação ambiental, não temos mercados vendendo carnes de caças, como ocorre na China hoje, por exemplo”, opina Max Siqueira, ao relacionar o surgimento de diversas doenças no país asiático, como a covid-19 causada pelo novo coronavírus, à alimentação do povo chinês, que até pouco tempo atrás vendia e comprava livremente animais selvagens – alguns, ainda vivos -, em mercados e feiras.

Policial observa civeta selvagem capturada por fazendeiro em Wuhan, na China. FOTO: AFP, via Getty Images

Em tempo: desde o início deste ano, a China começou a implementar em todo o país uma rígida proibição ao consumo e criação de animais silvestres, em resposta à pandemia do novo coronavírus. As autoridades acreditam que o surto teve origem em um mercado de animais silvestres em Wuhan. Apesar de ainda não estar claro qual animal transmitiu o vírus para humanos – morcego, cobra ou pangolim, a China reconheceu que precisa controlar o lucrativo mercado de animais silvestres para prevenir outro surto de doença.

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