PATRIOTISMO

Cientista social maranhense critica “pompa” da letra do hino brasileiro

A música foi composta por Francisco Manuel da Silva em 1822. A letra, anos mais tarde, em 1909, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada.

Reprodução

Com letra de Joaquim Osório Duque Estrada e música de Francisco Manuel da Silva, essa melodia, quando ecoa nos primeiros acordes, é inconfundível. É o Hino Nacional. Você já se pegou tentando interpretá-lo? Seus vocábulos complexos e rebuscados, tão ao gosto dos acadêmicos do final do século XIX, mas distantes do universo das gerações atuais compõem um dos mais significativos símbolos nacionais.

A escolha do 13 de abril para comemorar o Dia do Hino Nacional é uma referência a uma manifestação que ocorreu nessa data em 1831, quando o ex-imperador do Brasil, D. Pedro I, embarcava para Portugal.

Segundo o cientista social da Estácio São Luís, Gabriel Nava, os hinos nacionais normalmente contam a história da cultura de um povo, celebram seus heróis e devem despertar a ideia de pertencimento, de identidade nacional. “Não basta cantar o hino, ele deve fazer sentido para quem canta. Nosso hino é bonito, mas não faz sentido para a maioria dos brasileiros. Não é porque contém palavras que não usamos mais no nosso cotidiano, é porque não representa de uma forma geral, nada para o ouvinte. É bonito, é marcial, mas não desperta o espírito de identidade nacional no ouvinte”.

A música foi composta por Francisco Manuel da Silva em 1822. A letra, anos mais tarde, em 1909, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada. O Hino se tornou oficial durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil, em 1922. No entanto, a letra e música só foi oficializada em 1º de setembro de 1971, através da lei nº 5.700. Desde 2009 é obrigatório que seja cantado pelo menos uma vez por semana em todas as escolas públicas e particulares do país.

Recentemente a proposta de execução do Hino causou polêmica entre população, políticos, juristas, educadores, depois que o então Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, enviou carta às escolas pedindo a leitura de uma carta contendo frases que foram slogan da campanha para presidência, seguida da execução do Hino Nacional. Crianças seriam filmadas durante o ato. Pouco tempo depois o MEC desistiu de pedir às escolas para gravarem alunos durante a execução do Hino Nacional, segundo a pasta, por questões técnicas de armazenamento e de segurança. “Não basta só cantar o hino na escola. Os alunos vão ouvir, vão decorar, mas se não lhes for explicado o que ele realmente representa, o sentido de nação, o que é ser brasileiro, ele vai ser só mais uma letra que vai ser decorada por obrigação e depois vai ser esquecida”, dispara Gabriel Nava

Composição do significado

O texto parnasiano, que privilegia a forma mesmo com sacrifício da clareza da mensagem, gera dificuldades de compreensão, segundo especialistas. Para isso, colaboram o preciosismo vocabular e as frequentes inversões da ordem do discurso. Além de possuir palavras pouco usuais, sua letra é rica em metáforas.

“Creio que nossos símbolos nacionais, aí passa pelas armas, pelo hino, já nasceram com problema na origem. Eles não representam o povo brasileiro e nem fazem com o que povo brasileiro se sinta representado neles. Eles foram criados inventados por uma elite no século XIX que não pensou no povo brasileiro por puro preconceito mesmo. Naquele momento a escravidão ainda era sentida e até vivida no nosso país. O povo brasileiro, só nasceu mesmo no século XX. No século XIX , ou no início do século XX não existiam brasileiros, existiam grupos de pessoas que viviam no território do estado brasileiro, o que é totalmente diferente”, critica o cientista.

O cientista ainda diz que antes de cantar o hino, o brasileiro deve ser ensinado sobre o que é ser brasileiro, quem é o Brasil, qual a sua cultura, o que nos identifica como povo, como nação, e só então mostrar os símbolos que faça com que ele saiba. “Cantar por cantar, é só mais uma música que eles vão decorar. Nada mais que isso”, finaliza Gabriel Nava.

Entenda os termos rebuscados
Parte I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas (calmas)
De um povo heroico o brado (grito) retumbante (que ressoa)
E o sol da liberdade (independência), em raios fúlgidos (brilhantes),
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor (direito) dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte (com firmeza),
Em teu seio (interior), ó liberdade,
Desafia o nosso peito (coração) a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada (adorada), Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido (brilhante)
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso (belo) céu, risonho (repleto de promessas) e límpido (claro),
A imagem do Cruzeiro (constelação Cruzeiro do Sul) resplandece (brilha).

Gigante pela própria natureza (desde que nasceste),
És belo, és forte, impávido (destemido) colosso (gigante)
E o teu futuro espelha (refletirá) essa grandeza.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil (generosa),
Pátria amada, Brasil!

Parte II
Deitado eternamente em berço esplêndido (admirável),
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras (cintilas), ó Brasil, florão (enfeite) da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra, mais garrida (vistosa),
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,
“Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” no teu seio “mais amores.”

Ó Pátria amada,

Idolatrada, Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo

O lábaro (bandeira) que ostentas (exibes) estrelado,

E diga o verde-louro (amarelo) dessa flâmula (bandeira)

– Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava (arma) forte,

Verás que um filho teu não foge à luta,

Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra, adorada,

Entre outras mil,

És tu, Brasil,

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,

Pátria amada, Brasil!

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