ECONOMIA

Você sente a queda da inflação?

O Imparcial explica por que o impacto dos preços é diferente daquele anunciado pelo governo pro restante do país

Foto: Reprodução

A inflação oficial no país em 2017 foi de 2,95%, o menor valor desde 1998, mas muita gente deve estar pensando: como assim? Se o gás de cozinha e a gasolina não pararam de subir, as compras no supermercado não ficaram mais baratas, e o salário cada vez menos dá conta de todas as despesas da família?

Isso acontece porque a inflação que as pessoas sentem no bolso normalmente é bem maior que o índice oficial. Isso é normal e não quer dizer que o dado oficial seja fraudado.

Gás e gasolina subiram, mas alimentos caíram

No caso específico da inflação de 2017, realmente o gás de cozinha subiu bastante: 16%. A gasolina idem: 10,32%. Sem falar na conta de luz (10,35%), na conta de água e esgoto (10,52%), no plano de saúde (13,53%), na creche das crianças (13,23%).

Por outro lado, os alimentos em geral ficaram mais baratos (-1,87%), graças à boa safra que tivemos. É a primeira vez que isso acontece desde que o Brasil adotou o Plano Real. As frutas, que haviam subido 22,67% em 2016, recuaram 16,52% no ano passado. O mesmo aconteceu com o açúcar cristal (alta de 25,3% em 2016 e queda de 22,32% em 2017).

E o feijão feijão carioca, que já foi um vilão dos preços? Ficou 46,06% mais barato em 2017, após subir 46,39% em 2016.

Inflação e juros

A meta traçada pelo governo para controle da inflação vai de 2,5% a 6,5% ao ano. Acima disso, o Banco Central utiliza a Taxa Selic para aumenta os juros e controlar a situação. Assim, um dos primeiros efeitos da inflação alta é o aumento dos juros. No dia a dia do brasileiro, fica mais caro pegar dinheiro emprestado no banco ou fazer alguma compra parcelada, com juros.

Inflação e poupança

Outro efeito negativo da inflação alta é seu reflexo na caderneta de poupança. Com a inflação acima do teto da meta, 6,5%, a poupança começa a render menos do que a inflação oficial, ou seja, quem tem dinheiro guardado na caderneta, na verdade, passa a perder dinheiro. E por quê? Primeiro porque dinheiro, ou salário, valendo menos do que a inflação, é dinheiro retirado do seu bolso, é dinheiro que compra menos do que comprava antes.

E no caso da poupança, pelas regras, quando os juros da Selic estão acima de 8,5%, ela rende apenas os 6% ao ano, mais a taxa de referência, que é perto de zero. Com inflação a um valor como 4%, a poupança continua rendendo 6%. Dois pontos a mais. Se a taxa subir para 8%, a poupança rende 6%. Dois pontos a menos.

Salários e Inflação

Outro estrago ocasionado pela alta dos preços, ou seja, devido à alta inflação, é no valor real dos contracheques salariais. Se um aumento salarial é anunciado no início de um ano, ele é calculado pela inflação acumulada do ano anterior. O mesmo ocorre com o salário mínimo, que apesar de ter um pouco de ganho, depende do PIB dos dois anos anteriores.

A cada mês, a inflação pode subir. Caso aumente, o salário vale o acertado menos a inflação do mês. Se, em janeiro, um determinado salário aumentou 4% – a inflação acumulada no ano anterior – e, em dezembro, a inflação acumulada seja de 10%, o salário perde 6% para inflação. Ou seja, se o valor era R$ 1 mil, na verdade, está valendo R$ 940.

Inflação e contas públicas

O aumento da Taxa Selic também eleva os juros para o governo, que vai ter de desembolsar muitos milhões a mais para pagar a dívida pública, que está chegando aos R$ 2 trilhões. Só de juros das prestações mensais, é coisa que chega aos bilhões. Resultado: com a alta da Selic, por causa da inflação, o governo não cumpre o superavit primário, que é a economia para pagar os juros da dívida.

O vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Pernambuco, Fernando de Aquino Fonseca Neto, explica que o IPCA é oficial e amplo, já que chega à média mensal através dos nove grupos diferentes – voltados ao consumidor — e das rendas familiares que vão de um a 40 salários mínimos por mês.

Impacto da inflação no bolso

Cerca de 40 tipos diferentes de índice são utilizados para medir a inflação no Brasil, mas a chamada inflação oficial, medida mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem como base o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

O IPCA é coletado mensalmente junto às famílias com renda de até 40 salários mínimos e seguido pelo Banco Central, que obedece as ordens do Comitê de Política Monetária (Copom). O Comitê se reúne a cada 45 dias e determina a Taxa Selic, índice básico de juros utilizado pelo governo para, justamente, controlar a inflação.

Uma inflação alta provoca estragos nos salários, na compra dos supermercados, no rendimento da caderneta de poupança e ocasiona o pagamento de mais juros pelo governo no que se refere à dívida pública.

A inflação é a variação de preços ao longo do tempo. Não é a taxa que aumenta o preço dos produtos, mas sim os preços que apontam o nível da inflação, principalmente em serviços, alimentação e nos valores administrados, como gasolina.

Diferentes índices de inflação

Esses produtos e seu peso também variam conforme a faixa de renda da população. Por isso, existem diferentes índices de inflação.

O mais citado é o IPCA, usado como “oficial” pelo governo. Quando se fala que a meta da inflação está sendo cumprida ou estourou é a esse índice que se refere.

Mas há muitos outros, como INPC, IPC-Fipe, IPC-S e IGP-M. Cada índice tem uma metodologia diferente, e a medição é feita por diversos órgãos especializados, como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a FGV e a Fipe.

Entre as diferenças de método, estão os dias em que os índices são apurados, os produtos que incluem, o peso deles na composição geral e a faixa de população estudada.

Conta inclui centenas de produtos

Os índices de inflação são usados para medir a variação dos preços e o impacto no custo de vida da população.

O índice geral é calculado com base no preço de centenas de produtos (tão amplo que inclui de tomate e sabonete até celular, por exemplo). Esse grupo de produtos varia conforme o índice usado (IPCA, INPC, IGP-M). No caso da inflação “oficial”, o índice usado é o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que inclui mais de 400 itens.

Cada item dessa lista tem um peso relativo no índice geral. Se o preço do tomate sobe 50%, o consumidor paga isso, mas a inflação geral não será de 50%, porque o tomate tem uma certa influência na cesta, mas existem muitos outros produtos a serem considerados nessa conta.

É uma combinação disso que faz chegar ao índice final. Cada pessoa consome uma quantidade, um tipo e uma marca diferente de cada produto. Por isso, o cálculo é complexo.

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