DIA DO CARTEIRO

“Acredito que a nossa profissão vai resistir”

Você vai se surpreender com a quantidade de representações que a profissão carrega, tanto para quem a exerce quanto para quem dela se beneficia

Roosevelt dos Santos, carteiro. (Foto: Honório Moreira)

O sol pode estar causticante. A chuva pode estar violenta e o vento, implacável. Mas, diariamente, Roosevelt dos Santos levanta e se prepara para uma verdadeira maratona. Não, ele não é um corredor, tampouco um velocista – embora possa facilmente se tornar um. Roosevelt é carteiro há quase 17 anos. Para ser mais exato, são 16 anos e sete meses trabalhando nos Correios. Após um concurso público que ele fez em 1997, Roosevelt esperou pelo resultado, que viria somente quatro anos depois. “Em 2001, eu finalmente fui chamado pela agência e me apresentei para receber o cargo. De lá para cá, são mais de 16 anos andando cinco horas por dia pelas ruas de São Luís”, descreve.

Sua rotina começa na agência dos Correios localizada no bairro Cruzeiro do Anil, em São Luís. Ele reúne todos os documentos, cartas e encomendas que deverá entregar no dia e sai pelas ruas do bairro e por outros bairros próximos à agência. Segundo ele, são, no mínimo, 10 quilômetros diários percorridos para que o material chegue ao seu endereço final.

“É quase uma maratona que a gente faz para entregar tudo certinho, no lugar correto, no endereço adequado e no menor tempo. É cansativo, mas a gente acostuma com essa lida. Tudo isso para conseguir a satisfação dos clientes”, conta.

Roosevelt se refere ao destinatário e ao remetente das encomendas como clientes. Respeito que ele aprendeu a cultivar durante as quase duas décadas de labuta pelas ruas de São Luís. O carteiro ressalta que sua “vida de carteiro” o fez criar inúmeros laços de amizade e companheirismo com os moradores dos bairros por onde percorre. “Saber que o cliente não me trata somente como um carteiro, mas como um amigo é muito gratificante. Conheço quase todo mundo nesse bairro aqui, as pessoas me conhecem e mostram que se importam comigo e com meu trabalho. Essa é uma das coisas que me move como carteiro”, declara.

Trazendo boas-novas

Para o carteiro, a maior dificuldade é lidar com o temperamento dos cães. (Foto: Honório Moreira )

O carteiro reconhece sua importância para a sociedade, mesmo em tempos digitais, onde a grande maioria dos contatos é feita por e-mail ou redes de envio de mensagens instantâneas. Para ele, ser carteiro é bem mais do que somente entregar encomendas.

“A tecnologia chegou com tudo. Hoje muita coisa pode ser feita, mesmo através da tela de um computador ou de um celular, mas eu acredito que nossa profissão vai resistir. Ela vai resistir porque fazemos muito mais do que entregar cartas ou contas. Nós trazemos boas notícias, trazemos más notícias, trazemos resultados importantes. Nós informamos as pessoas”, observa.

Ele se lembra das várias vezes que foi convidado pelos moradores do bairro em que estava fazendo entregas a entrar, sentar e conversar com eles. “A gente faz as vezes de psicólogo, de médico, de conselheiro. Não acontece só comigo, mas com muitos colegas meus. As pessoas realmente criam um laço com a gente”.

Sendo ponte

Roosevelt dos Santos está há 17 anos trabalhando como carteiro. (Foto: Reprodução)

Roosevelt lembra que a última carta escrita à mão que entregou foi no mês de outubro. Para ele, essas são as melhores de entregar, pois o faz sentir saudade do tempo em que as cartas eram o principal meio de comunicação entre as pessoas.

“As cartas escritas a punho são as que eu sempre procuro logo. Essas são as melhores de entregar porque me faz sentir nostalgia do tempo que as pessoas se comunicavam somente por cartas. Tenho entregado poucas nos últimos meses, mas quando aparecem, eu sempre comemoro”, exclama.

E foi por meio de algum carteiro na década de 80, que a professora Léa Silva iniciou uma amizade que já dura quase 30 anos. Tudo começou em 1986, quando ela estava lendo uma revista que se chamava Carícia. Nessa revista, havia uma seção dos Correios, que exibia mensagens de pessoas que queriam se corresponder com outras.

“Eu enviei um recado para a revista dizendo meu nome, minha idade – na época tinha 15 anos – e que queria me corresponder com pessoas de todo o Brasil, de ambos os sexos. O recado foi publicado e logo depois eu comecei a receber muitas cartas de todo o Brasil. Recebia uma média de 100 cartas por semana. Eu selecionei algumas cartas e comecei a me corresponder”, relata a professora.

Até hoje, garante Léa, ela continua em contato com cinco mulheres, cada uma de um estado diferente. A amizade já dura quase 30 anos e, hoje, não é mais por cartas que o contato é mantido.

“São cinco meninas, uma de Minas Gerais, uma de Belém, uma de São Paulo, uma do Rio de Janeiro e uma de Santa Catarina. Mantenho contato por WhatsApp, por e-mail, Facebook e conheço duas delas pessoalmente. Era muito gostosa essa comunicação porque a gente ficava ansioso, esperando pela resposta”, relembra, nostálgica.

Conta a história que…

… em 490 a.C., a Grécia estava na iminência de sofrer um ataque do Império Persa, que se expandia cada vez mais. Perverso, o povo de Pérsia prometeu que violaria as mulheres gregas e sacrificariam os seus filhos caso vencessem a batalha. Sabendo disso, os gregos orientaram suas mulheres para que sacrificassem suas crianças e tirassem a própria vida em caso de derrota.

Mesmo com um contingente muito maior, mais treinado e mais equipado do que o exército grego, os persas foram derrotados. E como as mulheres atenienses ficariam sabendo disso milênios antes da invenção do rádio, da TV, do telefone e da internet? Aí entra o soldado e atleta Fidípedes.

Conhecido por ser um exímio corredor, o soldado recebeu a missão do General Milcíades, de correr os mais de 40 km que separavam o campo de batalha da cidade de Atenas, para levar a mensagem do triunfo sobre os persas e evitar que as mulheres executassem o plano.

Fidípedes correu como nunca para cumprir seu objetivo. Ao chegar, conseguiu apenas dizer que os gregos tinham vencido e, exausto, deu seu último suspiro e caiu sem vida. O trabalho notório do soldado grego foi que inspirou o exercício do carteiro, que, às pressas, entrega a encomenda do remetente para o destinatário correto. Quem garante isso é o próprio Roosevelt. “Em meus quase 17 anos como carteiro, vejo minha profissão como uma missão. Se não for por mim, como as pessoas saberão que algo precisa ser resolvido?”, questiona, sabiamente.

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