Entrevista com Dom Belisário

‘No Natal, deve-se evitar sentimentos contraditórios’, diz Dom Belisário

O arcebispo metropolitano, Dom José Belisário da Silva, conversou com a reportagem de O Imparcial sobre o sentido do Natal, a esperança da população acerca de uma vida melhor, em todos sentidos, e o que se espera para 2018

Em sua mensagem de Natal, o arcebispo metropolitano, Dom José Belisário da Silva, assegurou que as celebrações natalinas, embora sejam feitas todos os anos, são diferentes, tanto nas circunstâncias em que ocorre o Natal, quanto para quem o vive. “Em nossas lembranças, certamente conservamos a memória de natais felizes. Mas também de natais não tão felizes. Natais na abundância e natais na carência. Natais rodeados de amigos e familiares e natais na solidão. Natais pacíficos e natais nas trincheiras. Natais com saúde e natais na doença, na dor e na perda. Nestes dias, somos invadidos por sentimentos contraditórios e ambivalentes. Aliás, assim é a vida humana. Só que, nesta época, esses sentimentos correm o risco de serem exacerbados pela propaganda, pela música, pelas luzes. Há de se evitar a euforia inconsequente, mas também não podemos cair na melancolia”, aponta. Em entrevista a O Imparcial, o arcebispo falou sobre vários assuntos, dentre eles, política, educação, cotidiano e do quanto o ser humano precisa se agarrar a uma esperança e ter fé que as coisas possam melhorar. Segue abaixo o bate-papo.

Estamos na quarta semana do Advento. O que representa isso?

É um tempo litúrgico da igreja que começa no início de dezembro ou final de novembro. Geralmente são quatro semanas. Um tempo de preparação para o Natal. Depois vem o tempo do Natal, que vai até a celebração dos Santos Reis, da Epifania do Senhor. As quatro semanas que antecedem o Natal são consideradas tempo de silêncio, de penitência mesmo. Ao contrário do tempo do Natal, que é tempo de festividade. Há uma tradição surgida no século XIII que é de montar a cena do nascimento.Como o senhor avalia este ano em São Luís. As pessoas se voltaram mais para a Igreja, ou se afastaram? Chamo a atenção para alguns eventos públicos muito marcantes na vida da igreja. Que é a celebração do Corpus Christi (Corpo de Deus) e as festas religiosas populares, que são: a festa de São José de Ribamar, a festa de Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac) e a de Nossa Senhora da Conceição (Monte Castelo). São momentos muito fortes na vida pública da igreja. Porém, eu sempre gosto de chamar a atenção, que as coisas mais importantes da vida acontecem no silêncio, e também eu diria a vida religiosa, a vida eclesial. O mais importante é a vida de cada dia. E aí a gente pode até citar a raposa, do Pequeno Príncipe, que diz que o essencial é invisível aos olhos. E de fato, a fé cristã se realiza na interioridade da vida de cada pessoa.

Como o senhor avalia este ano em São Luís. As pessoas se voltaram mais para a Igreja, ou se afastaram?

Chamo a atenção para alguns eventos públicos muito marcantes na vida da igreja. Que é a celebração do Corpus Christi (Corpo de Deus) e as festas religiosas populares, que são: a festa de São José de Ribamar, a festa de Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac) e a de Nossa Senhora da Conceição (Monte Castelo). São momentos muito fortes na vida pública da igreja. Porém, eu sempre gosto de chamar a atenção, que as coisas mais importantes da vida acontecem no silêncio, e também eu diria a vida religiosa, a vida eclesial. O mais importante é a vida de cada dia. E aí a gente pode até citar a raposa, do Pequeno Príncipe, que diz que o essencial é invisível aos olhos. E de fato, a fé cristã se realiza na interioridade da vida de cada pessoa.

Então, não necessariamente, a pessoa tem que estar nesses eventos para demonstrar sua fé?

Eu estou chamando a atenção para dizer que em alguns momentos a igreja católica se manifesta publicamente, porém, sem esquecer que a vida religiosa, cristã, a vida humana de uma forma geral, se realiza no silêncio, na interioridade de cada pessoa.

O Natal é um período em que a questão comercial é muito presente. Como o senhor vê esse consumismo?

O sentido do Natal? Nós vivemos em uma sociedade de consumo. Há umas décadas passadas, a nossa sociedade era de muita carência. Agora, a sociedade de consumo deixa claro, digamos assim, a distância entre os muitos ricos e os muito pobres, e a desigualdade brasileira fica patente nessas festividades. É o momento em que acho que tem que se evitar dois sentimentos contraditórios. Primeiro, uma euforia inconsequente, e, em segundo lugar, não cair na melancolia, na tristeza. No tempo de Natal aumenta o número de pessoas depressivas, e algumas que recorrem ao suicídio, justamente por causa disso, por causa desses sentimentos contraditórios que invadem a vida da gente.

Este ano foi bem difícil para o Brasil em vários aspectos. Como é que a gente pode enfrentar o ano de 2018?

A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil sempre tem se manifestado com respeitos à conjuntura social e econômica. Então, de alguma maneira a gente está de acordo com essa manifestação por parte da CNBB. Não há dúvidas que a sociedade brasileira tá vivendo um momento de uma crise profunda, uma crise ética e há um risco muito grande da sociedade brasileira desesperar-se. Eu acho que uma das formas de desesperança é a violência. Vivemos em uma sociedade muito violenta, aliás, o tema da Campanha da Fraternidade do próximo ano será sobre a violência. Então, o que eu vejo para 2018 são dois eventos que vão nos marcar. Um, é a Copa do Mundo, e a gente espera que o Brasil seja bem-sucedido (pelo menos está com boas perspectivas), e o outro, é a questão das eleições. Essas eleições, para nós, serão uma grande interrogação.

Por quê? Como é que o eleitorado brasileiro vai se comportar?

Eu, pessoalmente, acho que eleição sempre faz bem para a participação popular. Às vezes, quando o país perde o rumo tem que consultor a população. Então, eu acho que as eleições vão funcionar como uma consulta sobre o rumo que este nosso país vai tomar.

Já que o senhor falou de política, a igreja em algum momento se envolve nisso?

A igreja católica no Brasil evita fazer escolhas partidárias. Então, pode ser que alguma ou outra pessoa, um padre naturalmente, como cidadão tem direito de se manifestar. Institucionalmente a igreja católica evita qualquer partidarização. Porém, isso não significa que a igreja se omite diante das questões políticas. Então, a igreja sempre tem tomado posição a respeito das grandes questões brasileiras, e no caso, a posição da igreja sempre tem sido em defesa dos mais vitimados, dos excluídos. A posição da igreja, durante o período militar, por exemplo, foi muito importante. E no momento atual também. A igreja católica tem chamado a atenção permanentemente que esse país não pode ser desigual da maneira como está. Temos que tomar decisões para evitar que os excluídos, com desemprego enorme, com uma juventude perdida, sem emprego, sem perspectiva, fique mais terrível ainda. Então, temos que tomar consciência de que o país corre sérios riscos.

Estamos vivendo o Natal quando as famílias se reúnem, fazem ceias. O que dizer para as pessoas que não terão uma ceia?

Pois é. O que eu tenho a dizer é que quando a gente vê o que aconteceu na noite de Natal, é que Jesus nasceu na periferia da cidade. Ele não achou espaço. Creio que o futuro do nosso país está na integração dessas pessoas que você citou, na inclusão social. Acredito que a melhor inclusão se faz através da educação. Precisamos de uma educação pública de melhor qualidade, ensino básico de qualidade. Precisamos valorizar os trabalhadores do ensino, porque do jeito que estamos a esperança para esse povo que você está falando é muito pouca. Então, vai começar a campanha eleitoral, e é o momento muito adequado para se discutir essas questões. Naturalmente que as campanhas que as igrejas e instituições fazem, a favor dos pobres durante o Natal, são muito bonitas, elogiáveis, porém, não podemos esquecer que isso não soluciona. A solução perpassa por reformas estruturais de base da sociedade brasileira.

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