CONHEÇA A ESTÂNCIA BELA VISTA

Filosofia resgata identidade mental

Conheça a Estância Bela Vista que funciona no Araçagi desde janeiro deste ano. O espaço acolhedor, desde os profissionais que lá trabalham, foi idealizado pelo Dr. Juan Manuel Urbinati, psicólogo, psicanalista e doutor em Filosofia.

Reprodução

“Eu estava há 11 meses numa crise de depressão. Bebia até dormir. Estava isolado no meu quarto, no meu apartamento, não sabia o que era banho, o que era escovar os dentes, pentear o cabelo, eu só pensava em terminar a vida… em esperar a morte chegar. Tive uma tentativa de suicídio frustrada, não por minha causa, mas porque não deu certo mesmo. Estava numa situação que… ‘tava’ cheirando gás de cozinha para acabar com aquela depressão, tristeza, dia após dia só piorava… Eu não tinha o pensamento de ser ajudado”. O depoimento é de João*, nome fictício, porque ele não deseja se revelar, mas quer contar a sua história. A história de quem esteve no fundo do poço e hoje vê uma nova possibilidade de vida.

“Eu não pensava em vir para cá. Nem passava pela minha cabeça. Foi através de um resgate no meu apartamento que eu cheguei aqui. Mas eu queria saber para onde eu ia. Quis tomar um banho e tirar a barba para eu me apresentar direito. Vim com muita raiva. Isso é natural no estado que eu estava. Eu sofri muito, porque eu era viciado em medicamento ansiolítico, desses que são vendidos facilmente e consumidos como água e que fazem um mal danado. Então, eu sofri uma abstinência muito grande, por 15 dias. E então eu comecei a produzir, e daí para frente foi só alegria. Tive dificuldade de sono, mas quem não tem?”.

Depois de dois meses em tratamento, João não está mais internado na Estância Bela Vista, mas, por opção própria, segue frequentando por três vezes por semana. “Decidi que é um reforço por tempo indeterminado para o meu tratamento. E estou muito feliz e grato por tudo que fizeram por mim, pelo tratamento que eu tive aqui”, conclui João*.

João* é uma das dezenas de pessoas que têm passado por tratamento de saúde mental na Estância Bela Vista, que funciona no Araçagi desde janeiro deste ano. O espaço acolhedor, desde os profissionais que lá trabalham, foi idealizado pelo Dr. Juan Manuel Urbinati, psicólogo, psicanalista e doutor em Filosofia, fundador do Grupo Estância, que tem ainda as unidades Estância Morro Grande (Ibiúna/SP), Estância Resiliência (Brasília) e Estância Gradiva (Penha/SC).

O espaço de frente para a praia afasta completamente a imagem manicomial, quando se refere ao tratamento de doenças mentais, mas com uma estrutura hospitalar necessária para o tratamento proposto, ofertando um ambiente acolhedor e familiar que busca fortalecer a relação entre o paciente e os profissionais que o acompanham.

A proposta é focar no ser humano. “A Estância é um local em que recebemos as pessoas que estão fragilizadas pela batalha da vida, pessoas aflitas, com preconceitos contra si próprias, que se sentem excluídas da sociedade. Tudo isso faz com que eles não acreditem na sua capacidade. O que nos damos ênfase, nesse ser humano, é que, apesar de estar fragilizado, de estar passando por situações muito difíceis, ele tem capacidade de controlar seu problema”, comenta dr. Juan.

Escola de vida

Focando na filosofia humanista, o trabalho de resgate da identidade do indivíduo se afasta do conceito das antigas clínicas. Todos os dias quando o paciente acorda ele deve sentir o próprio corpo em primeiro lugar, com alongamento. Depois, ele arruma seu quarto, pois quando ele se organiza, organiza seu pensamento também. “Não é uma obrigação, é um processo terapêutico. Depois disso, tem uma palestra com temas que falam sobre vida, não sobre doenças. É uma escola de vida. Nós queremos que ele descubra o que é a vida. Viver é uma responsabilidade, é uma conquista diária e nós queremos convidar essa pessoa a entrar nesse processo de recuperação dessa forma, aceitando o que é a vida, a coisa boa da vida, que ele tenha uma linda perspectiva de vida, do que a vida oferece gratuitamente, como a natureza. Trabalhamos o lado intelectual, as atividades artísticas (emocionais) que expressam seus sentimentos através da arte, ou de jogos, ou dinâmica de grupos para que ele venha a sentir aquilo que estamos falando”, diz o fundador da Estância.

Acolhimento

A estância está em atividade desde janeiro deste ano com uma estrutura montada por psicólogos, psiquiatra e grupos terapeutas, educador físico, nutricionista, enfermeiro, técnico de enfermagem, monitor.

O atendimento a particulares e convênios, com internação, hospital dia, ambulatório e funcionamento 24h são para as especialidades: dependência química, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, síndrome mental, tratamento para depressão, terapia para profissionais. Quem recebe a família é a Sheila Guedes, do departamento comercial, que faz questão de ressaltar a metodologia humanista adotada no Grupo. “Isso é fundamental, essencial para o tratamento que é o acolhimento o respeito, porque a pessoa quando interna, voluntária ou não, ela fica afastada de todos os familiares, de toda  a sociedade, dos amigos, do trabalho, de todo aquele convívio que ela tinha, de todas as ações, então se a gente não der um conforto… a gente tem que tratar  o ser humano como ele tem que ser tratado, então a gente tem esse acolhimento com todos eles para que eles façam como o nosso paciente acabou de relatar,  que ele aceite e queira ficar com o tratamento. O que a gente quer é que ele fique bem, que ele esteja bem, que ele prolongue o tratamento e que ele saia daqui com uma outra mentalidade, com uma outra forma de pensar”, acredita Sheila.

O dr. Juan acrescenta que a filosofia é dar ênfase à saúde e não à doença. “Quando nós fazemos o acolhimento, é bem diferente daquele, ‘o que que você está usando?’. É: ‘querida, você tem um problema, vem cá. Você é uma pessoa como qualquer outra que também tem problemas. Todos têm problemas. Então, vamos falar de você’. E isso é o que chamamos de acolhimento. Queremos criar um clima de família aqui. Todos são respeitados, porque são seres humanos. Eu não trato ele como um drogado, um alcoólatra… para mim ele é um ser humano fragilizado que precisa ser recuperado, que precisa ‘reocupar’ o espaço que um dia foi dele e ele perdeu. A filosofia é: uma motivação para viver, uma alegria para viver. Essa tem que ser a essência do tratamento”.

*João – nome fictício do personagem da matéria

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