Já é sabido por todos, seja de esquerda ou direita, que a Venezuela não é, pelo menos nas últimas três décadas, um modelo de democracia. Muito longe disso, ainda que narrativas tentem defender o indefensável. Sem qualquer desculpa no trocadilho, o governo de Maduro há muito já estava podre. Um modelo de governo que se arrastou por 13 anos, dando continuidade ao Chavismo, que já durava outros 14. No total, 27 obscuros anos de um regime que afundou a rica nação vizinha e implantou um modelo fechado, de autoproteção dos detentores do poder, sob o julgo das armas e da repressão.
Em uma ditadura, é sabido o que acontece com quem se opõe ao stablishment. Na Venezuela, quem ousou questionar, noticiar ou levantar-se contra o regime foi duramente perseguido. Adversários e jornalistas foram sistematicamente presos, mais de 450 veículos de comunicação foram fechados, cidadãos que ousavam protestar eram perseguidos ou mortos. Sob um permanente sistema de vigilância a população, em sua quase totalidade e ao mesmo tempo, foi condicionada às migalhas de um estado de miséria que ainda não vê luzes no fim do túnel.
Enquanto se espera que um cidadão possa levar algumas notas a um supermercado e de lá trazer sacolas fartas de compras para sua família, na Venezuela a lógica é drasticamente invertida. Levam-se sacolas de dinheiro para comprar um quilo de arroz ou de feijão. Quiçá alguns pães. Em recente best seller, Levitsky e Ziblat assinalaram porque as democracias da era moderna vem sistematicamente desmoronando. Na prática, são regimes construídos sob falácias e discursos que se afastam da prática política cotidiana, mas que insistem em se sustentar em uma falsa legitimidade dada pelas urnas.
Em países com histórico político já conturbado, líderes carismáticos, ou não, se apossam do poder e instituem modelos em que indivíduos, grupos ou partidos ficam com as benesses do Estado. Sob a lógica da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, esse fisiologismo caracteriza grande parte de regimes políticos mundo afora, mas efetivamente sustenta aqueles autocráticos, onde os interesses do povo são deixados de lado.
O resultado do fracasso venezuelano pode ser visto nas ruas das capitais brasileiras ou nas cidades de fronteiras. Ao todo, mais de 7 milhões de refugiados, que abandonaram seus pares por causa da perseguição ou da falta de oportunidades, fugindo da miséria sistêmica. Quem possui alguma formação busca trabalho para uma vida melhor; quem não tem, ocupa semáforos e calçadas sob marquises para ganhar o sustento como pedinte. Fuga em massa que agrava problemas sociais também nos países vizinhos. Contra tudo isso, com proposta libertadora e somada ao pretexto do narcotráfico, Donald Trump ordenou uma invasão militar que depôs Maduro do poder, prendendo-o e levando-o a responder pelos crimes que entende justificarem a ação do Tio Sam. Ação arbitrária. É bom ver Maduro fora do seu “trono”. Mas não podemos aplaudir a ação estadunidense, especialmente em razão dos rasos motivos utilizados para justificar a ofensiva.
Assim como líderes ditadores não governam democraticamente para seu povo, também fica claro que o interesse dos Estados Unidos não está na libertação dos cidadãos venezuelanos. O ouro negro segue motivando ações do homem e configurando um novo quadro geopolítico. Tal ação deliberada abre precedentes perigosos, tanto da parte dos americanos, no sentido de seguirem investindo sobre outros territórios, vide o iminente risco de Colômbia e Groenlândia; seja da parte de outras nações igualmente poderosas, que usarão argumentos que lhe convencerem para abarcar porções além de suas fronteiras, vide Taiwan e Ucrânia.
Assim como algumas democracias vão sendo forjadas sobre um terreno frágil, movimentos nacionalistas começam a configurar um novo imperialismo. Como em um tabuleiro de xadrez, nações dão passos arriscados na proteção de seus interesses. O risco, no entanto, é que as direções se cruzem em algum momento. Falando de Venezuela e mirando o futuro, chegou a hora do povo ter devolvida a sua dignidade, seu direito de ir, de escolher livremente e trabalhar pelo progresso do seu rico país.