Recentemente, escrevi, neste mesmo espaço, um artigo sobre o crescimento alarmante da violência em nosso país, onde abordei a ação que resultou na execução de um empresário dentro do Aeroporto Internacional de Guarulhos por integrantes do PCC. Infelizmente, volto ao tema. A violência tornou-se pauta diária nas conversas das famílias. Está por toda parte, amedrontando o cidadão comum e desafiando o próprio Estado.
O que antes parecia concentrado nos grandes centros urbanos hoje se alastra por todas as regiões do Brasil — inclusive pelo Maranhão, que, no último fim de semana, viveu momentos de terror. Em reação a esses episódios, representantes dos três Poderes, juntamente com o Ministério Público, a Defensoria Pública e outros órgãos do sistema de justiça, reuniram-se na última terça-feira, no Palácio dos Leões, para discutir medidas conjuntas de fortalecimento da segurança pública no estado. A união institucional é indispensável, mas não basta reagir: é preciso planejar, prevenir e coordenar ações efetivas.
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, outra tragédia se desenrolava. Nos complexos do Alemão e da Penha, a chamada “Operação Contenção” terminou como a mais letal da história fluminense: mais de 120 mortes, entre elas, quatro agentes da segurança pública. Segundo as autoridades, o confronto teve início quando traficantes do Comando Vermelho reagiram com tiros, barricadas e drones sofisticados ao cumprimento de mandados de prisão. A operação reacendeu o debate sobre os limites da ação policial, o papel do Estado e o equilíbrio entre o dever de reprimir o crime e o respeito à vida.
Há uma constatação inescapável: o crime organizado e as milícias agem com método, planejamento e comunicação eficiente, enquanto as forças de segurança frequentemente atuam de forma desarticulada e reativa. A ausência de integração entre as esferas do poder público da União e dos Estados tem permitido que o crime avance. Reconhece-se a necessidade de firmeza e coragem por parte das forças policiais. Mas a força bruta, isoladamente, é ineficaz e contraproducente. É preciso inteligência, estratégia e coordenação. A repressão sem planejamento apenas multiplica o número de mortos, sem atacar as causas profundas da criminalidade.
O Brasil precisa repensar o seu modelo de segurança pública. O que se vê hoje é uma guerra fratricida, um confronto sem vencedores. De um lado, o Estado sangra pela perda de seus agentes; de outro, o povo, refém da violência, perde a paz e paga com o medo. A criminalidade não será vencida apenas com operações espetaculares, mas com investigação eficiente, ações integradas e coordenadas das forças de segurança, presença institucional permanente, valorização dos profissionais e políticas preventivas que ofereçam alternativas reais à juventude.
A violência é o reflexo de um Estado injusto e fragmentado, de políticas descontínuas e de uma sociedade que, pouco a pouco, naturaliza a barbárie. É fundamental investir em inteligência e tecnologia para asfixiar o poderio econômico das organizações criminosas, descapitalizando as facções e mantendo o controle da entrada de drogas e armas pelas fronteiras de nosso país.
Vejo com alento que o Presidente da República sancionou, ontem, uma lei que endurece o combate ao crime organizado, e que o Presidente do Senado determinou a abertura de uma CPI para apurar a estruturação, expansão, funcionamento e suas ramificações, com foco na atuação de milícias e facções. São medidas que, se conduzidas com seriedade podem representar um marco no enfrentamento da criminalidade que aterroriza o país.
Mais do que reações pontuais, o Brasil precisa de uma política de segurança pública articulada capaz de unir prevenção, repressão e justiça social. Só assim transformaremos o medo em confiança e a violência em paz duradoura. É tempo de retomar o controle pela lucidez da inteligência, pelo rigor da lei e pela firmeza da justiça. Os governos precisam se unir, acima de qualquer ideologia partidária, para tornar o Estado mais organizado que o crime, ou todos sairemos derrotados.