Mensagens de texto identificadas pela Polícia Federal (PF) no aparelho celular de uma funcionária da Câmara dos Deputados apontam que o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, gerenciava a distribuição e o remanejamento de emendas orçamentárias, mesmo sem exercer um mandato eletivo. A descoberta motivou uma decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que bloqueou até R$ 119,2 milhões em bens do dirigente partidário e suspendeu o andamento financeiro dos recursos sob suspeita.
De acordo com o relatório produzido pelos investigadores, as comunicações revelam um modelo de tomada de decisões informal na estrutura legislativa. No esquema descrito, servidores públicos organizavam e encaminhavam as indicações de verbas demandadas por Valdemar, enquanto parlamentares em exercício eram inseridos formalmente nos sistemas como os autores oficiais dos pedidos.
A corporação avalia que o procedimento buscava dar legalidade a atos de um cidadão comum que não possui prerrogativa legal para alocar recursos do Orçamento Geral da União.
Os diálogos foram extraídos do telefone de Mariângela Fialek, assessora que atuava no processamento de emendas de comissão. O dispositivo foi retido pelas autoridades no final do ano passado em decorrência dos desdobramentos da Operação Transparência.
Detalhes das conversas interceptadas
Em um dos trechos destacados no inquérito, datado de agosto de 2025, um interlocutor ligado à liderança do partido consulta a assessora sobre a possibilidade de direcionar R$ 24 milhões em emendas para o Ministério do Turismo, mencionando que a estratégia seria alinhada diretamente com o presidente da legenda. No dia seguinte, o mesmo contato solicita a confirmação do fechamento dos valores destinados ao dirigente e envia uma relação detalhada contendo municípios e CNPJs de entidades que receberiam os aportes financeiros.
Outro diálogo destacado envolve uma servidora da liderança do partido, que solicitou alterações em planilhas internas. Nas mensagens, é informado que o dirigente partidário havia solicitado a substituição de determinados municípios inicialmente indicados para o setor de turismo devido a impasses técnicos que impediriam a execução dos projetos pelas prefeituras locais.
Identificação de emendas e tipificação das suspeitas
O cruzamento das planilhas apreendidas com os registros oficiais do Portal da Transparência permitiu que a Polícia Federal mapeasse ao menos 21 emendas ligadas à atuação do presidente do PL. O montante totalizado alcança R$ 119,2 milhões, dos quais cerca de R$ 104 milhões já foram desembolsados pelos cofres da União.
A apuração agora busca esclarecer se os deputados federais cujos nomes constam formalmente nos documentos tinham ciência e anuência com a triangulação das verbas ou se as identidades parlamentares foram utilizadas sem o consentimento dos titulares. O caso é conduzido sob as hipóteses criminais de peculato, desvio de finalidade pública e associação criminosa.
Questionado a respeito das conclusões apresentadas pela Polícia Federal, Valdemar Costa Neto negou ter realizado as indicações de emendas de forma irregular, argumentando que a liderança da bancada partidária assume a responsabilidade pelas demandas de municípios de pequeno porte que não contam com representantes diretos no Congresso Nacional.