Embora o Brasil seja um Estado laico, a religião continua exercendo forte influência sobre o comportamento eleitoral. Nas últimas décadas, o crescimento acelerado da população evangélica alterou o cenário político nacional e transformou esse segmento em um dos principais grupos de interesse nas disputas eleitorais.
No Maranhão, esse movimento também se consolidou e tende a ganhar ainda mais protagonismo nas eleições de 2026, quando cerca de 5,19 milhões de eleitores estarão aptos a escolher governador, dois senadores, deputados federais, deputados estaduais e presidente da República.
Apesar da relevância do segmento nas estratégias partidárias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não coleta, armazena nem divulga informações sobre a religião dos eleitores em seu cadastro. As estatísticas oficiais contemplam apenas dados como sexo, faixa etária, escolaridade, estado civil, raça/cor e identidade de gênero, esta última de forma opcional. Assim, as estimativas sobre o tamanho do eleitorado evangélico resultam do cruzamento entre os dados do Censo Demográfico do IBGE e pesquisas realizadas por institutos privados.
No Maranhão, o cenário revela uma transformação significativa. Segundo o Censo do IBGE, 25,4% da população maranhense se declara evangélica. Projetando esse percentual sobre os 5.192.144 eleitores aptos registrados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA) para as eleições de 2026, estima-se que aproximadamente 1,31 milhão de eleitores pertençam ao segmento evangélico.
O crescimento é expressivo quando comparado ao levantamento anterior. No Censo de 2010, os evangélicos representavam 17,2% da população maranhense. Em pouco mais de uma década, houve um avanço de 8,2 pontos percentuais, consolidando uma mudança no perfil religioso do estado que também passou a influenciar a dinâmica das disputas eleitorais.
Mesmo com essa expansão, o Maranhão continua figurando entre os estados de maior predominância católica do país. Atualmente, 64,4% dos maranhenses se declaram católicos, percentual superior à média nacional. Ainda assim, especialistas observam que o crescimento contínuo das igrejas evangélicas faz com que o segmento deixe de ser apenas uma base complementar de apoio para se tornar um dos principais atores políticos do estado.
De acordo com o levantamento feito por O Imparcial, o avanço evangélico não ocorre de forma homogênea em todo o Maranhão. As maiores concentrações estão na Região Tocantina e no Sul do estado, especialmente em municípios como Imperatriz, Açailândia, Balsas, Buriticupu e Barra do Corda, onde a presença de igrejas pentecostais e assembleianas é mais intensa.
Distribuição regional amplia influência eleitoral
Imperatriz, considerada por muitos analistas como a principal referência do segmento no interior maranhense, reúne uma das maiores densidades de templos por habitante do Nordeste e concentra importantes convenções religiosas, fator que amplia a capacidade de mobilização política dessas instituições.
Outro polo de crescimento está nas periferias da Grande São Luís, especialmente em bairros como Cidade Operária, Itaqui-Bacanga e Coroadinho, além dos municípios de São José de Ribamar e Paço do Lumiar. Nesses locais, além da atuação religiosa, igrejas exercem forte papel social por meio de ações comunitárias, assistência às famílias e projetos educacionais, fortalecendo sua presença junto ao eleitorado.
Convenções religiosas ampliam articulação política
Uma das características do cenário maranhense é a forte organização institucional do segmento evangélico. Diferentemente de outros estados, grande parte da mobilização política ocorre por meio de convenções pastorais, que reúnem centenas de igrejas e milhares de fiéis.
Entre elas, destacam-se a Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Maranhão (CEADEMA), considerada a maior organização religiosa do estado, e a COMADESMA, com forte atuação na Região Tocantina, especialmente em Imperatriz.
Essas entidades exercem influência principalmente na formação de candidaturas para deputado federal e estadual, onde a capacidade de mobilização costuma produzir maior impacto eleitoral. Ao mesmo tempo, o protagonismo dessas instituições também desperta debates sobre os limites entre liberdade religiosa e participação política.
O Movimento Brasil Laico, por exemplo, protocolou representações junto ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público do Maranhão (MPMA) questionando suposto direcionamento institucional de votos por parte da CEADEMA, tema que ainda integra o debate público.
Senado concentra uma das principais disputas
Entre os nomes ligados ao segmento religioso, a situação da senadora Eliziane Gama (PT) tornou-se um dos principais pontos de observação para 2026. Historicamente eleita com amplo apoio de lideranças da Assembleia de Deus, a parlamentar passou a enfrentar resistência de parte das alas mais conservadoras após seu alinhamento político ao governo federal e sua filiação ao PT. Esse cenário abriu espaço para que setores da direita e do centro busquem conquistar parte desse eleitorado na disputa pelas duas vagas ao Senado.
Ao mesmo tempo, Eliziane continua figurando como uma das principais representantes evangélicas do Maranhão no Congresso Nacional, mantendo diálogo com setores progressistas e preservando projeção eleitoral no conjunto do eleitorado.
Bancadas religiosas mantêm presença no Legislativo
Além da senadora, outros parlamentares ligados ao segmento religioso ocupam posições estratégicas na política maranhense. Na Câmara dos Deputados, destacam-se Pastor Gil (PL), integrante da ala conservadora vinculada à Assembleia de Deus; André Fufuca (PP), ex-ministro do Esporte e membro da Frente Parlamentar Evangélica; e Aluísio Mendes (Republicanos), que atua em pautas relacionadas à segurança pública e aos costumes.
Na Assembleia Legislativa do Maranhão, a deputada Mical Damasceno (Republicanos) tornou-se uma das principais lideranças do segmento, defendendo pautas ligadas à liberdade religiosa e à valorização das tradições cristãs. Nos bastidores, seu nome aparece entre os cotados para disputar uma vaga na Câmara Federal em 2026, com expectativa de ampliar sua capilaridade eleitoral por meio da aproximação entre diferentes convenções religiosas.
Voto religioso deve influenciar estratégia das campanhas
Embora não exista um “voto evangélico” homogêneo, a crescente organização institucional das igrejas e o aumento da participação desse segmento no eleitorado tornam sua influência cada vez mais relevante nas eleições. No Maranhão, essa força tende a ser percebida de maneira distinta conforme o cargo em disputa.
Nas eleições proporcionais, para deputado federal e estadual, o poder de mobilização das lideranças religiosas costuma produzir maior capacidade de transferência de votos. Já nas disputas majoritárias, como governador e senador, fatores como alianças partidárias, desempenho das campanhas, identificação ideológica e avaliação dos governos também pesam na decisão do eleitor.