No dia 30 de junho, quando o calendário aponta o fim oficial dos festejos juninos, as batidas das matracas e dos pandeiros não silenciam em São Luís do Maranhão. Pelo contrário: elas ecoam com uma força ancestral. É nessa data que a Avenida São Marçal, no bairro do João Paulo, transforma-se em um imenso arraial a céu aberto para acolher o tradicional Encontro dos Batalhões de Bumba Meu Boi. Com quase um século de existência, a Festa de São Marçal ultrapassa o conceito de mera apresentação folclórica.
Quando a cultura venceu a proibição
A grandiosidade atual da festa contrasta com um passado de intensa perseguição. Nas décadas de 1860 e 1920, as manifestações de Bumba Meu Boi sofriam com o preconceito das elites e das autoridades. Sob o falso pretexto de “manutenção da ordem pública”, os batalhões eram proibidos pela polícia de ultrapassar os limites do bairro do Anil e seguir em direção ao Centro de São Luís. Quem ousasse desafiar a ordem corria o risco de pegar até 15 dias de prisão.

A transferência do ponto de encontro para o João Paulo ocorreu graças à astúcia de lideranças comunitárias da época, como João Pacífico de Moraes (o “Bicas”), um dos fundadores da escola de samba Mangueira. Ao conseguir a liberação de um chefe de polícia, articulou-se um novo espaço de celebração. Walter David Mendes Seabra, conhecido como Seu Waltinho (73 anos), presidente do Bumba Meu Boi do João Paulo, resgata essa memória com precisão:
“Em 1928, as brincadeiras não podiam passar do Anil (…). Bicas, muito sábio, propôs fazermos no dia 30, dia de São Marçal, para que o santo fosse lembrado e os grupos tivessem seu espaço. Somente o Boi do Sítio do Apicum e o Lugar dos Índios (hoje São José dos Índios) tiveram a coragem de vir no primeiro ano, enfrentando o medo da repressão. São Marçal nasceu da coragem.”
O local de exclusão tornou-se o berço da resistência. A consolidação histórica foi coroada em 2006, quando a antiga Avenida João Pessoa foi oficialmente rebatizada como Avenida São Marçal (Lei Municipal № 4.626/06), instituindo também o Dia Municipal do Brincante de Bumba Meu Boi.
Comércio fechado e paz na multidão
A Festa de São Marçal abriga particularidades que encantam e intrigam quem a estuda de perto. Uma das maiores curiosidades relatadas por Seu Waltinho é o comportamento do comércio local. No dia 30 de junho, as lojas do João Paulo fecham completamente. Em uma pesquisa informal feita por ele, revelou-se um paradoxo: comerciantes de fora apoiavam o fechamento em respeito à tradição, enquanto alguns comerciantes locais, ironicamente, demonstravam resistência devido à intensa limpeza necessária no dia seguinte.
Outro ponto marcante é a “disputa” entre os batalhões. Embora os presidentes dos grupos de sotaque de matraca sejam grandes amigos ao longo do ano, a atmosfera muda completamente ao pisarem na avenida. “Quando chega ali no João Paulo, ninguém é de ninguém”, diverte-se Seu Waltinho. “A gente briga por causa de um palmo de terreno para o carro de som não entrar na nossa frente. Todo mundo quer passar o seu boi primeiro! Mas depois que passa, voltamos a ser os mesmos amigos de infância”, afirma.
Apesar do estresse de espaço e do calor humano de uma multidão estimada em mais de 300 mil pessoas, o evento destaca-se pela impressionante harmonia comunitária. É um espaço onde a violência não se cria. Se uma matraca pesada cai sem querer no pé de alguém, o incidente é resolvido com um sorriso e um abraço. A prioridade absoluta é brincar.
A voz do alto-falante
Na memória de Seu Waltinho, duas edições ficaram gravadas no coração pela beleza e pelo improviso tecnológico da época:
O ano do Boi de Maioba (décadas de 80/90): O lendário cantador Chiador havia composto uma toada de imenso sucesso, cujo verso dizia: “Convidei o meu santo, o padroeiro, a comandar meu batalhão”. Ao chegar no João Paulo, o cantador ainda não havia conseguido acessar a avenida por causa da multidão. O batalhão não flutuou: colocaram o disco de vinil (LP) para rodar no carro de som, e a multidão guarneceu o boi inteiramente guiada pela gravação até que o mestre aparecesse.
Ano de 2005 com o Boi do João Paulo: O cantador Peitinha estourou com a toada que virou hino: “Contrário é melhor te afastar / Deixa meu povo passar / Meu boi tá na avenida com seu batalhão / Derrubando fortaleza / Rebentando corda de arrastão”. Novamente, o mestre se atrasou no trânsito, e o batalhão evoluiu de forma emocionante apenas com a reprodução do CD, arrastando o povo em um coro uníssono até os portões do antigo 24º BC.
Valor cultural
Para Carlos André Teixeira (50 anos), administrador da Festa de São Marçal há cinco anos, o sentimento que define a energia do João Paulo no dia 30 de junho é um só: “Radiante!”. O administrador pontua que o evento transcende os limites geográficos e os sotaques do estado (matraca, orquestra, zabumba), transformando-se na representação máxima do povo maranhense.
“A grandeza da festa leva a essa união de sotaques, pois ali é a representação máxima do povo! Ela contribui na forma de muita resistência. Não é fácil fazer um desfile de mais de 24 horas sem o amor pleno pela cultura. Ali não é dinheiro, estar ali é ser comunidade”, afirma Carlos André.
Carlos destaca que sua memória mais emocionante aconteceu recentemente, em 2025: “No final de tudo, lá pelas 3 horas da manhã, vi o esforço monumental para a volta para casa do Boi de Miritiua. Ali eu testemunhei o quanto de suor e sacrifício é feito por cada integrante apenas para estar presente nessa festa”, conta.
Futuro e desafio das novas gerações
Apesar do reconhecimento da festa como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, os fazedores de cultura ainda enfrentam severos gargalos financeiros. Seu Waltinho desabafa sobre a realidade dos bastidores das associações:
“O dinheiro que vem da Secretaria de Cultura é pequeno. Todo mundo ganha ali na avenida, menos as associações. Quando o carnaval passa, em fevereiro, já começa a preocupação. Tem que comprar canutilho, paetê, miçanga, veludo, os pandeiros estão todos furados e o bolso está vazio. Nós andamos com o pires na mão pedindo ajuda.”
Ainda assim, o amor dos brincantes atua como o combustível principal. Se a diretoria cogita não desfilar por falta de verba, a própria comunidade se rebela. O brincante não aceita ficar de fora. Para garantir que o legado continue vivo, Carlos André Teixeira aponta caminhos institucionais urgentes: “É preciso uma maior valorização dos bois de matraca, de todos eles. É necessário que os gestores entendam a resistência de cada um em suas respectivas comunidades”.
Por outro lado, o envolvimento orgânico dos jovens traz esperança. Seu Waltinho relembra com orgulho de um festival de jovens cantadores que organizou, revelando cinco nomes que hoje lideram grandes batalhões. Para ele, ver as crianças dançando na rua ao sinal do carro de som é a certeza de que a semente permanece viva, afastando a juventude da vulnerabilidade social e oferecendo orgulho e pertença.
Se você vai vivenciar a magia de São Marçal pela primeira vez, o administrador Carlos André Teixeira deixa um conselho valioso: “Curta a festa do início ao fim, brinque em todas as agremiações e, no final, pesquise cada uma delas para entender o que é ser, de verdade, uma comunidade cultural”.
Como bem sintetizou Seu Waltinho, citando o imortal João do Vale, São Marçal é um “bombardeio de toadas, nação contra nação”. Uma guerra pacífica e puramente cultural, onde o Maranhão expõe sua alma e prova por que é dono do maior espetáculo da Terra.
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