Em meio ao ruído das redes sociais, à pressa das cidades e às urgências econômicas, a Igreja propõe silêncio, jejum e partilha. Propõe freio. Propõe profundidade. Para os católicos, a Quaresma remete aos 40 dias que Jesus passou no deserto, conforme narrado nos Evangelhos, enfrentando tentações antes de iniciar sua vida pública. É um período de preparação para a Páscoa, centro da fé cristã.
Historicamente, a Quaresma consolidou-se nos primeiros séculos do cristianismo como tempo de penitência pública e preparação dos catecúmenos para o batismo. Ao longo do tempo, manteve três pilares centrais: oração, jejum e esmola. Mais que práticas individuais, são exercícios de desinstalação. O jejum, por exemplo, não se resume à abstinência de carne às sextas-feiras; é pedagogia do autocontrole num mundo que estimula excessos. A esmola ultrapassa a moeda: é partilha estruturante, capaz de confrontar desigualdades.
Mais que tradição religiosa, o período é compreendido pela Igreja como tempo de conversão. O termo, que significa “mudança de direção”, ganha contornos concretos na vida de milhares de maranhenses.
Segundo orientação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Quaresma se sustenta em três pilares: oração, jejum e caridade. No estado, esses princípios assumem feições próprias, marcadas pela religiosidade popular e pela força das comunidades.
“A Igreja Católica se prepara para a Páscoa vivendo o tempo da quaresma. A espiritualidade deste tempo propõe aos cristãos elementos fundamentais para o equilíbrio humano, para a grandeza da interioridade, para a solidariedade para com o que sofre. Neste sentido, os exercícios quaresmais oferecem ao homem moderno aquilo que vai de encontro ao que destrói: agitação, violência, manipulação, superficialidade, individualismo, alienação. A proposta de Jesus para viver o jejum, a oração, e a caridade, reconectam o homem a si mesmo e a Deus”, disse o Pe. Antônio José, pároco da Paróquia de São João Batista.

Tradição que atravessa gerações
Em São Luís, paróquias e igrejas observam aumento significativo de fiéis nesse período e no que diz respeito à sensibilidade religiosa e social.
“Sobretudo com o convite da campanha da Fraternidade neste ano sobre a moradia. As buscas pela Palavra, pelo sacramento da Confissão e pela Eucaristia, são vivenciadas com mais intensidade, também no meio da juventude católica, que atualmente tende a ser mais conservadora”, disse o Padre Antônio José.
Tradicionalmente associado à abstinência de carne às sextas-feiras, o jejum ganhou novas interpretações. “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão” é o título da mensagem do Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026. O Pontífice convida os fiéis a um “jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”.
Para o Padre Antônio José, “o mais importante em todos os tempos é a vivência do amor ágape, que é a caridade. Amor que se dirige a Deus por Jesus e ao próximo. A abstinência de carne na sexta feira terá sempre esta dupla dimensão do equilíbrio, controle e abertura a Deus e a abertura ao próximo pela presença de vida e partilha dos bens”.
Inspirado por mensagens do papa, que convida os fiéis a “jejuar de palavras duras”, muitos católicos têm adotado práticas simbólicas e sociais.
A estudante Anna Júlia Bastos, 20 anos, comenta que a Quaresma é um tempo de conversão, um deserto que se escolhe viver como preparo para a Paixão de Cristo. “O que eu tenho feito para seguir as orientações da igreja é me recolher mais em oração, feito o jejum e mais ações de caridade. Atos de caridade não devem ser feitos somente na Quaresma, mas sim durante toda nossa vida de cristão”.

Para viver o tempo da Quaresma, Anna diz que “ir à igreja, ter direção espiritual e estudar mais as sagradas escrituras nos ajuda não só a viver a quaresma, mas ser santos e crescer na fé”, disse.
A professora Silvana Lisboa, 53 anos, pontua que a Quaresma é o momento de reflexão sobre o verdadeiro sentido na vida das pessoas. “E o que Ele está representando no nosso dia a dia, através das nossas práticas, não só religiosas, mas também sociais”.

Sobre as práticas da Quaresma, Silvana acredita que esse tempo não pode ser ligada só à abstinência de carne e que existem outros meios de se mostrar o pertencimento ao catolicismo.
“Que práticas são essas? Uma prática bem fácil. Abster-se de viver tanto tempo nas redes sociais, em celular, e praticar uma boa ação, por exemplo, fazer uma visita a um amigo que esteja precisando, ou até mesmo fazer uma oração por aqueles que estão vulneráveis a tantas mazelas que a sociedade oferece. Acredito que essas práticas venham te melhorar como pessoa, como ser humano e principalmente como cristão. Além de seguir a tradição da quaresma, eu particularmente estou tentando passar os 40 dias sem comer carne. Mas além disso, eu também estou tentando ficar longe um pouco do celular, ficar mais tempo em oração, cuidando da minha família, cuidando dos meus afazeres na igreja, enquanto cristã. E acredito que Quaresma é isso, é esse pertencimento.”
Fé que se traduz em ação
A Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela CNBB durante a Quaresma, mobiliza paróquias e movimentos sociais em todo o país. No Maranhão, comunidades organizam arrecadação de alimentos, visitas a hospitais e mutirões solidários.
“Este ano que a gente está abordando dentro da Campanha da Fraternidade, a questão da moradia digna, de ter um coração digno para que Jesus possa se fazer presente, a gente também tem que trabalhar a nossa parte humana, religiosa, espiritual”, pontua Silvana.
Teólogos lembram que a essência da Quaresma não está na culpa, mas na conversão. Converter-se, do latim convertere, significa mudar de direção. É metáfora poderosa num cenário de polarização e intolerância. A proposta não é autoflagelo, mas transformação interior que repercuta no coletivo.
Entre o silêncio das ladainhas e o barulho das cidades, a Quaresma segue atual no Maranhão — como pausa necessária.
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