A liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, decretada pelo Banco Central, acendeu um alerta vermelho no mercado de cartões de crédito ao atingir diretamente o fluxo de liquidação das maiores bandeiras do mundo. Como a empresa atuava no setor de credenciamento (as populares “maquininhas”), a interrupção abrupta de suas atividades trava o repasse de valores que deveriam chegar aos comerciantes. O risco recai sobre as bandeiras, que podem ser obrigadas a honrar as faturas, repetindo o cenário crítico vivido pela Mastercard na liquidação do Will Bank, onde o prejuízo estimado superou a marca de R$ 5 bilhões.
O mecanismo de crise funciona como um efeito dominó financeiro: embora os correntistas continuem pagando suas faturas normalmente, a instituição liquidada deixa de repassar esses montantes para a bandeira do cartão. Com o dinheiro “preso” no processo de liquidação, o fluxo que deveria remunerar os lojistas por vendas já realizadas fica comprometido, sujeitando credores e parceiros a um risco considerado “anormal” pela autoridade monetária.
Segundo o Banco Central, a Entrepay apresentava uma situação econômico-financeira grave e descumpria normas bancárias fundamentais.
Para além do impacto nas operações de crédito, a Entrepay é peça central em investigações que miram o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A instituição é vista por investigadores como um braço operacional para a movimentação de patrimônio de Vorcaro.
O CEO da Entrepay, Antônio Freixo (conhecido como “Mineiro”), já foi alvo da Operação Compliance Zero e figura ao lado de Vorcaro em processos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que apuram fraudes na emissão e distribuição de cotas de fundos de investimento.
A queda da Entrepay expõe as vísceras de um conglomerado que já vinha sendo monitorado por órgãos de controle devido a práticas atípicas no mercado de capitais.
Enquanto o mercado financeiro tenta mensurar a extensão do rombo deixado nas bandeiras de cartão, as autoridades avançam para entender como a rede de influência de Vorcaro utilizava essas instituições de pagamento para circular recursos sob suspeita, desafiando a estabilidade do sistema de pagamentos nacional e a segurança jurídica de grandes operadoras globais.