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Enigma econômico

A exagerada explosão de estabelecimentos do ramo, deixa a indagação se existe escala para absorver o negócio, desafiando  qualquer lógica de equilíbrio entre receita e despesa

Enigma econômico

Em meio a um cenário de incertezas econômicas e retração de consumo, um fenômeno curioso tomou conta da nossa moderna, mas pobrezinha capital: a abertura desenfreada de barbearias. A cada esquina, em ruas de bairro ou nos shoppings, surge alguma, como se a demanda fosse inesgotável. Como a conta não fecha, paira no ar um enigma inevitável: serão lavanderias de dinheiro?

A exagerada explosão de estabelecimentos do ramo, deixa a indagação se existe escala para absorver o negócio, desafiando  qualquer lógica de equilíbrio entre receita e despesa. Em alguns pontos da cidade, as barbearias já superam em número  restaurantes, farmácias, óticas e lojas de roupas. Nos bairros, extrapolam as lojas de bugigangas de chineses e coreanos, indicando, de repente, como se todos os homens da Ilha decidissem elevar o cuidado estético do cabelo e da barba, criando bolha de prosperidade e abrindo nicho de mercado inundado de dinheiro.

Não faz muito tempo cortar cabelo era um ato simples, quase protocolar. A tesoura, a navalha e a velha máquina zero — celebrizada nos cortes “de cuia” no quartel do antigo 24º BC — eram os instrumentos básicos de um ofício essencialmente artesanal. Mas tudo mudou. A estética masculina ganhou status, conceito e ousadia. Cortes estilizados, barbas desenhadas e novos conceitos transformaram a barbearia num espaço quase artístico e muito badalado.

Eu pessoalmente sou fiel ao corte tradicional conduzido por profissionais experientes e que não sucumbiram ao modismo. Ao estilo do seu Doca, instalado no São Francisco, hábil barbeiro que atravessou o tempo e em cujo salão o bom papo e a vida alheia eram sempre atualizados.

Entre os primeiros salões a redefinir a inovação esteve o Salão Ópera, que introduziu modernidade com ambiente climatizado, elegância e profissionais alinhados às tendências da época. O visionário barbeiro Raimundo Nonato liderou essa transformação ao criar uma rede que conquistou políticos, empresários e personalidades da sociedade maranhense.

Na mesma época, o Montreal e o Mendes, ambos no final da rua Grande, brilharam com cortes inspirados em artistas famosos. O Salão São José, na rua Afonso Pena, vizinho ao boêmio Bar Cajueiro, atendia os jornalistas de O Imparcial.

O disputado Salão Pompeu, na João Lisboa, ao lado do Moto Bar, o Guanabara, perto do Centro Caixeiral e o famoso Salão do Hotel Central eram bastante concorridos. Já o popularíssimo Salão São Bento, no Mercado Central, mantém até hoje clientela fiel com preços acessíveis.

Há ainda histórias pitorescas, como a de Wilson, o barbeiro do Salão Kremlin, na rua das Cajazeiras. Nome escolhido em alusão ao centro do poder da Rússia, apresentava como maior trunfo a amizade com o violonista Turíbio Santos. Barbeiro de esquerda atendendo clientela de direita, uma ousadia, que não resistiu ao Dops(antiga Polícia Política) e ao tempo, mas deixou memória.

Talvez o primeiro salão prime do país tenha surgido na década de 1980, no Rio de Janeiro. O Sousa, sofisticada barbearia instalada no Shopping Rio Sul, era patrocinado por Magalhães Pinto, banqueiro, político e pessoa influente. Exibia no seu currículo além do Banco Nacional a façanha de ter namorado a belíssima atriz Vera Fisher.

O espaço oferecia  whiskey, cervejas importadas e deliciosos canapês aos clientes. Caríssimo e glamouroso, sucumbiu ao alto custo do aluguel, deixando um legado de sofisticação.

Hoje poucas barbearias conceituadas seguem firmes. Uma delas é o Salão Imagem, do advogado Ademir Sousa, conservando elenco de antigos profissionais como Ocimar e Miguel. A Rei Arthur comandada por Daniel e muitas outras que não frequento, dão show nas cabeleiras mais charmosas da cidade.

No campo estético certos estilos se popularizaram de maneira quase simbólica, como o corte “cabeça nua” adotado por Alexandre de Moraes e certamente inspirado nos personagens interpretados pelo artista Yul Brynner, dono de calvície icônica que imortalizou no cinema quantidade enorme de facínoras frios e desalmados.

Como a vida imita a arte,  o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após a prisão, apareceu sem barba e com o cabelo aparado em fotos registradas na mídia. Enquadrado no corte padrão dos barbeiros das penitenciárias.