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Câmara de São Luís: greve dos rodoviários vira pauta de debate na tribuna 

Paralisação dos rodoviários expõe embates entre oposição e base governista, com críticas à gestão, defesa do prefeito e alerta para impactos sobre os mais vulneráveis

(Foto: Reprodução/Leonardo Mendonça)
(Foto: Reprodução/Leonardo Mendonça)

A greve geral no Sistema de Transporte Público de São Luís, deflagrada pelo Sindicato dos Rodoviários do Maranhão, dominou parte significativa dos pronunciamentos na primeira sessão deliberativa da Câmara Municipal após o retorno dos trabalhos parlamentares. O impasse no transporte coletivo, que já afeta diretamente a rotina de milhares de usuários, foi amplamente debatido no plenário, com críticas, defesas e apelos por diálogo envolvendo a Prefeitura, empresários e trabalhadores do setor.

Durante o uso da tribuna, o vereador Raimundo Penha (PDT) chamou atenção para a gravidade da paralisação e para os impactos prolongados do movimento. Segundo ele, trata-se de uma das greves mais longas já registradas na capital.

“Essa é uma das greves mais longíncuas que já tivemos. Muitas das coisas que aconteceram nesta greve, aconteceram em greves passadas”, afirmou. O parlamentar classificou como um “fato político” a exoneração do então secretário municipal de Trânsito e Transportes, Maurício Itapary, destacando que o prefeito Eduardo Braide teria agido de forma estratégica ao afastá-lo logo no início da crise. Penha classificou o prefeito como “inteligente” e desejou boa sorte à nova secretária, Manuela Fernandes, a quem chamou de “corajosa” por aceitar comandar a pasta em meio ao cenário de instabilidade.

Troca de secretários nas greves  dos rodoviários

Apesar disso, Raimundo Penha criticou a recorrência da troca de comando na SMTT durante períodos de greve. “Uma coisa que sempre me chamou a atenção é que toda vez que tem uma greve o prefeito troca de secretário. É muito fácil trocar e transparecer para a população que aquela pessoa era incompetente. Mas como aquela pessoa chegou até lá para ser secretário de Trânsito e Transporte?”, questionou.

Para o vereador, desde que Eduardo Braide assumiu a prefeitura, não houve avanços estruturais na área, citando como exemplo a falta de recuperação dos terminais de integração e o aumento no número de greves no período.

O parlamentar também comparou os valores do subsídio ao transporte coletivo. Segundo ele, no ano passado o montante não chegava a R$ 10 milhões anuais, enquanto atualmente estaria próximo de R$ 100 milhões por ano.

Penha criticou ainda a postura do prefeito em relação ao diálogo com os empresários do setor. “O prefeito diz que não conversa com os empresários do transporte coletivo de São Luís, mas dialoga com empresários de aplicativo, que são multinacionais, empresas que operam no mundo todo, com capital estrangeiro”, declarou.

Divergência de visões entre base e oposição

O vereador também criticou a estratégia adotada pela prefeitura durante a paralisação. “Nesses cinco anos de greve e demissões de secretários da SMTT, o que tem me chamado a atenção é a retórica do prefeito”, afirmou, citando a utilização de vouchers para corridas por aplicativo. Segundo Penha, a medida foi eficiente em greves anteriores, mas nesta tem se mostrado insuficiente, especialmente para moradores da zona rural.

Ele relatou aumentos significativos no valor das corridas e explicou que o usuário recebe dois vouchers de R$ 30, um para ida e outro para volta, sem possibilidade de acúmulo, arcando com a diferença caso o valor ultrapasse esse limite. Penha também apontou a falta de discussão sobre alternativas como a regulamentação dos chamados carrinhos de lotação e o uso de vans e micro-ônibus, sobretudo para atender a zona rural. Para ele, os mais prejudicados pela greve são os públicos vulneráveis.

A vereadora Flávia Berthier também se pronunciou sobre o tema, destacando que a crise ganhou repercussão nacional. Ela afirmou que os vereadores não têm interesse em atrapalhar a gestão municipal, mas que a falta de diálogo entre prefeitura, Câmara e empresários tem penalizado diretamente a população. A parlamentar relatou que esteve na SMTT em busca de diálogo com a nova secretária, mas foi informada de que ela estava em campo tratando das demandas da greve.

Também acompanhou a audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho, que terminou sem solução. “O valor desse voucher de R$ 30 está saindo do bolso de todo mundo”, afirmou. “Quem está sendo penalizado de fato e de verdade é o nosso povo”, completou, pedindo que a situação deixe de ser politizada. Para Flávia Berthier, apesar de reconhecer erros da gestão, “a vítima aqui é o nosso povo”.

Em defesa do prefeito Eduardo Braide, o líder do governo na Câmara, vereador Dr. Joel (PSD), afirmou que atribuir a responsabilidade da greve exclusivamente ao chefe do Executivo é uma “narrativa política”. Ele destacou que a atual licitação do transporte público data de 2016, com validade de 30 anos, e que não foi feita em benefício da população.

Segundo ele, o prefeito teria apenas duas opções imediatas para encerrar a greve: aumentar o subsídio ou reajustar a tarifa. “Nenhuma dessas opções coloca o povo no centro”, afirmou. “O prefeito é contra fazer qualquer uma dessas duas opções. E ele está certo”, disse, reiterando apoio à decisão de não aumentar nem o subsídio nem a passagem.

Dr. Joel ressaltou ainda que, nos cinco anos da atual gestão, o aumento da tarifa foi de apenas R$ 0,50, dividido em dois reajustes de R$ 0,20 e R$ 0,30. O parlamentar também comentou a decisão do STF, destacando que o ministro Nunes Marques não proibiu a adoção emergencial de vouchers para aplicativos, mas tratou do repasse de subsídios e suspendeu o trecho da lei que falava em caducidade do contrato até o julgamento do mérito, em decisão de dezembro de 2025.

Sobre a nova licitação, Dr. Joel afirmou que houve dificuldades técnicas, principalmente pela ausência de dados consolidados do sistema. Segundo ele, após nove meses de trabalho, a SMTT conseguiu elaborar um processo com mais de 700 páginas, já encaminhado à Procuradoria Geral do Município. “Não é tão simples assim e nem falta de vontade política”, declarou. Para o vereador, o prefeito tem demonstrado coragem para enfrentar interesses particulares e conta com amplo apoio popular. “Não é à toa que alguém chega perto de 90% de aprovação em uma capital”, afirmou, acrescentando que Braide lidera pesquisas para o governo do Maranhão, mesmo sem se declarar pré-candidato.

Herança maldita

O vereador Aldir Júnior. apresentou dados econômicos para contextualizar o reajuste da tarifa. Ele lembrou que, em 2021, o diesel custava R$ 3,81 e chegou a R$ 7,10 em 2022, período que classificou como caótico. Segundo ele, cerca de 70% da operação do transporte público depende de derivados de petróleo, cujos preços sofreram fortes aumentos. “Todo esse investimento está sendo absorvido pela prefeitura para não chegar ao bolso do trabalhador”, afirmou.

Aldir Júnior. classificou a licitação de 2016 como uma “herança maldita” da gestão anterior e alertou para os riscos financeiros de uma eventual ruptura contratual. “Romper esse contrato pode gerar um prejuízo bilionário para São Luís”, disse, defendendo que a cidade conviva com o atual modelo até o fim do prazo, enquanto se prepara para uma nova licitação.

O debate evidenciou a complexidade do impasse no transporte público de São Luís e a divergência de visões entre base e oposição, enquanto a população segue enfrentando os efeitos diretos da paralisação.