“No fundo do poço. Sem vontade pra nada. Nada faz sentido. Apatia. Vontade de nada,,,” (A.L, 32 aos). A.L. está em tratamento contra ansiedade e depressão, fazendo terapia, e tomando medicamentos, depois de uma crise intensa que abalou não só ela, mas toda a família. A esta repórter, contou que tem dias que parecem não ter fim. “Não há explicação. Simplesmente acontece. E é tratamento para a vida toda. É ficar vigilante, seguir as terapias, fazer atividade física. A gente que sofre desse mal, sabe de tudo isso, mas às vezes…”, resume.
Pessoas como A.L. que passam por sofrimento psíquico, travam uma batalha para estarem bem consigo mesmas. Sensibilizar sobre sofrimento psíquico, quebrar estigmas, promover diálogo e fazer com que pessoas em risco saibam que não estão sozinhas são algumas das metas da campanha Setembro Amarelo, que no triênio 2024-2026, decorre sob o lema: “Mudar a Comunicação sobre o Suicídio, Começar a Conversa”.
Não há explicação. Simplesmente acontece. E é tratamento para a vida toda
O objetivo é criar uma cultura de compreensão, escuta sem julgamento e mais empatia, em um movimento de ação coletiva que envolve governo, organizações, comunidades e toda a sociedade.
De agosto até 18 de setembro deste ano, 13 pessoas tiraram a própria vida, na Grande Ilha, de acordo com o Relatório Quantitativo Diário de Crimes Violentos Letais Intencionais e Outras Mortes, da Secretaria de Segurança Pública.
O Setembro Amarelo no Maranhão é uma oportunidade valiosa para que a sociedade — governos, instituições, comunidades — volte os olhos para algo que ainda sofre de invisibilidade: o suicídio e o sofrimento mental persistente em muitas regiões.
Mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio
Para fazer a diferença, é essencial transformar o “alerta de setembro” em ação contínua, pautada em dados, com acesso crescente a tratamento e suporte, descentralização dos serviços, e com compromisso político de médio e longo prazo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio em todo o mundo. Trata-se de um problema de saúde pública que impacta emocional, social e economicamente os países. Entre os grupos de risco estão os jovens de 15 a 29 anos.
Ficar atento aos sinais
Combater esses índices é responsabilidade de toda a sociedade, todos os dias, em todos os espaços de convivência e por meio de gestos simples de gentileza, fundamentais em um tempo em que falar e cuidar da saúde mental nunca foi tão urgente.
Mas como perceber quem está precisando de ajuda? O psicólogo Rênan Ferreira afirma que nada acontece do nada.
“Nós como seres humanos costumamos dar sinais e indícios, e quem está ao redor, seja família ou amigos, ou rede de apoio como nós chamamos aqui na psicologia, podemos perceber pelos padrões de comportamento, ou seja, aqueles comportamentos mais comuns daquela pessoa. Se ela é uma pessoa mais extrovertida ela pode ficar mais recolhida, uma pessoa mais bem humorada, pode ficar mais quieta. Se ela é uma pessoa que tem muito prazer em tocar um instrumento, em sair com os amigos, ela pode ficar mais também sem essas atividades, ela pode alterar o apetite, comer menos ou comer mais, ela pode também alterar o sono, dormir mais ou dormir menos, ela pode começar também a alterar os níveis de ansiedade. Isso dá sinais externos e visíveis, né?”

Alteração na respiração, inquietação motora, pensamentos que às vezes catastróficos, ali em circunstâncias que precisam resolvidas. Então tudo isso são indícios de alteração do comportamento e de como a pessoa está”, disse.
E quando a pessoa está em sofrimento psíquico, mas não quer ajuda? O psicólogo disse que a primeira coisa a ser feita é acolher essa pessoa.
“Acolhimento de verdade, escutar genuinamente. Tem a diferença de ouvir, escutar, escutar é prestar atenção. E procurar realmente ajuda especializado, um bom psicólogo, um bom psiquiatra para um tratamento terapêutico adequado. Temos aí também alguns recursos que podem ser usados até a gente chegar lá. Tem o 188 que é o CVV (Centro de Valorização à Vida) que essa pessoa pode ligar e ela pode ser escutada por voluntários preparados. Às vezes ela não quer ir direto pro psicólogo, então ela liga, ela é escutada, é anônimo, ela não precisa se identificar, ela precisa falar pra alguém o que ela está sentindo. Então é necessário todo esse cuidado, esse manejo de suporte, de amparo, não de julgamento, não de pressa para essa pessoa ser cuidada efetivamente. Porque por vezes é preciso um tratamento terapêutico adequado, uma medicação adequada, uma avaliação adequada pra saber o que fazer com essa pessoa”.
Outros recursos também podem ser terapêuticos, mas não são terapia, como praticar atividade física e se a pessoa tem alguma espiritualidade, movê-la, por exemplo. “Mas nunca impor também nenhuma realidade dessa e nenhuma dimensão pra alguém que não tem uma vivência ou não tem uma abertura pra essa dimensão. É estar próximo para acolher, muito mais escutar do que dizer receitas prontas de como resolver essa demanda”, acrescentou Rênan Ferreira.
Rede de saúde mental
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são os serviços de referência para o atendimento em saúde mental. No Maranhão eles estão localizados em 89 municípios maranhenses, somando mais de 100 unidades existentes.
Esse tipo de equipamento do SUS pode ser de gestão estadual ou municipal e atende por demanda espontânea, ajudando na reabilitação psicossocial ou na desintoxicação pelo uso abusivo de álcool e outras drogas.
A Rede Estadual de Saúde Mental é composta por oito serviços:
- Centro de Atenção Psicossocial Dr. Bacelar Viana (CAPS III);
- Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD Estadual);
- Unidade de Acolhimento Adulto (UAA); Hospital
- Nina Rodrigues (HNR);
- Três Residências Terapêuticas (Dra. Amarilis Toledo, José Raimundo Brandão e Jardim das Flores).
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Por Samartony Martins