DESCOBRIMENTO

Problemas na Fundação do Brasil há 518 anos

Data cívica em que se comemora o descobrimento do Brasil vai além do tradicional “quem descobriu o Brasil?”

Foto: Reprodução

Quem nunca ouviu a clássica pergunta “quem descobriu o Brasil?” ou “quando o Brasil foi descoberto?”. São perguntas comuns feitas aos alunos do ensino fundamental e que fazem parte do entendimento da história do Brasil e do ensinamento das datas cívicas. Mas o que de fato significa essa data para brasileiros, maranhenses? É mais uma data?

O professor especializando em História do Maranhão, Álvaro Maia, responde a essas perguntas com outros questionamentos: “Algum dia já se importaram? Nós maranhenses, por exemplo, sabemos a importância de nossa história, dos nossos monumentos, nossas datas cívicas? A resposta é não. É só observar o estado de abandono desses monumentos em geral… O descobrimento não é nem visto como data fundacional de nacionalidade ou qualquer sentimento de pertencimento coletivo. O que foi inaugurado em 1500 foi uma colônia, não uma nação”, dispara o professor.

Segundo a história, em 22 de abril de 1500 chegavam ao Brasil 13 caravelas portuguesas lideradas por Pedro Álvares Cabral. À primeira vista, eles acreditavam tratar-se de um grande monte, e chamaram-no de Monte Pascoal.

Após deixarem o local em direção à Índia, Cabral, na incerteza se a terra descoberta tratava-se de um continente ou de uma grande ilha, alterou o nome para Ilha de Vera Cruz. Após exploração realizada por outras expedições portuguesas, foi descoberto tratar-se realmente de um continente, e novamente o nome foi alterado. A nova terra passou a ser chamada de Terra de Santa Cruz. Somente depois da descoberta do pau-brasil, ocorrida no ano de 1511, o país passou a ser chamado de Brasil.

“Em um primeiro momento, os portugueses não encontraram índios que estivessem em estado civilizacional e que utilizassem, por exemplo, a metalurgia, que era o que os europeus mais procuravam naquela época, mas encontraram na Mata Atlântica a planta que deu origem ao nome do país. Durante uns 30, 34 anos, o Brasil passa por um processo de ‘esquecimento’ porque os portugueses estavam mais interessados na Índia, no comércio, nas especiarias indianas… mas você vai ter as feitorias, com o escambo indígena em que os portugueses trocavam pelo pau-brasil (os indígenas recebiam dos portugueses algumas bugigangas como apitos, espelhos e chocalhos, e davam em troca o trabalho no corte e carregamento das toras de madeira até as caravelas)”, conta o professor.

Álvaro Maio chama a atenção para a primeira degradação ambiental do país, visto que com o processo de ocupação a Mata Atlântica foi literalmente devastada. “A ocupação se dá através do desmatamento nas margens do rio, o processo de assoreamento vai se iniciar ali. A Mata foi a primeira grande vítima, junto com os índios, claro, dentro do processo de conquista”, diz Maio.

Foi descobrimento?
Quando se usa o termo “Descobrimento do Brasil” parece que a terra não era habitada e o feito foi dos portugueses, supostamente os primeiros a encontrá-la. Só que já existiam no território mais de cinco milhões de indígenas, divididos em várias nações, que habitavam o Brasil muito tempo antes da chegada dos portugueses.

A principal fonte histórica sobre o Descobrimento do Brasil é um documento redigido por Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Cabral. A “Carta de Pero Vaz de Caminha” a D. Manuel I, rei de Portugal, conta com detalhes aspectos da viagem, a chegada ao litoral brasileiro, os índios que habitavam na região e os primeiros contatos entre os portugueses e os nativos.

“Houve uma invasão, se você levar em conta as configurações de diversas nações ameríndias que viviam na América Portuguesa, pré-Cabralina, e até mesmo depois de todo o domínio, aculturação, conquista, genocídio, com relação a essas comunidades. Usa-se também conquista, já que na realidade vários povos já haviam estado em várias regiões das américas muito antes de 1500. O que houve de diferente foi que pela primeira vez houve uma expedição, se fincou uma bandeira e se estabeleceu aquele território como deles”, explica Maia.

Invasão, conquista e descoberta, sendo este último termo utilizado para se referir ao processo de intercâmbio cultural, à troca de informação, ao translado cultural. “Essa população europeia passa a descobrir costumes, cultura da América nesse sentido”, pontua Maia.

A herança da descoberta

Álvaro Maia destaca que o Brasil enquanto país vai ser uma construção do século 19, que é quando se constrói a ideia de povo, de nacionalidade, de cidadania, cria-se o hino nacional, símbolos, bandeira.
“Mas o descobrimento do Brasil é interessante para a gente pensar no Brasil sociologicamente falando. A partir do momento que você tem o descobrimento, você tem a construção de uma ideia de povo e de várias problemáticas presentes até a atualidade. Como é que você vai discutir machismo na sociedade do século 21, sem pensar na sociedade patriarcal fundada a partir de 1500 no Brasil?”, indaga.

A miscigenação do negro, branco e índio, o encontro dessas três raças, teve, segundo conta Álvaro Maia, sempre a matriz europeia como fundamental e as duas outras precisando se adaptar. “O povo brasileiro é uma mistura, um povo mestiço e isso vem de lá da colônia que remete a questões sociais como o machismo, ou o racismo. A partir de 1500 se implementa no Brasil qual tipo de estrutura de trabalho? O descobrimento é o marco inicial para uma série de problemáticas, para a construção do povo brasileiro, e que a gente tem que enfrentar na atualidade, como o machismo, o racismo, o trabalho escravo, presente em vários estados, tendo o Maranhão e Pará como recordistas nessa prática”, assegura Maia.

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