SAÚDE

Médico explica a diferença entre medo e fobia

Quem sofre com um medo irracional tem que lidar com as barreiras da fobia. Enfrentar o medo, no entanto, é o melhor remédio

Ruy Palhano, neuropsiquiatra e professor

O medo é um dos sentimentos mais comuns do ser humano. Ele se manifesta de diversas formas, em intensidades diferentes em cada pessoa. Há aqueles que gostam de senti-lo, seja assistindo filmes de terror ou se colocando em situações de adrenalina.

Quando, no entanto, as barreiras do natural são ultrapassadas, o perigo real passa a fazer parte das pessoas que sofrem com as fobias, lidando com situações de ansiedade extrema por conta de fatores determinados ou generalizados.

As fobias podem estar relacionadas aos mais diferentes lugares, objetos e pessoas. Pode ser o medo de aranhas, lugares fechados até palhaços que transformam a vida das pessoas que sofrem desse transtorno.

O medo é bom;fobia de barata

A fobia vem do grego fobos, significa a personificação do medo e do terror, e corresponde à disfunção do medo que, segundo o neuropsiquiatra Ruy Palhano, é importante como função de sobrevivência do ser humano. “O medo humano é o mais aperfeiçoado mecanismo de proteção da vida. Sem o medo você não viveria. Ele sinaliza para situações de riscos e de perigo. O medo é quem vai dizer para me afastar dos perigos, por isso é uma das funções mais importantes do ponto de vista da cognição e comportamento humano. Como todas as funções podem se disfuncionar, quando isso ocorre com o medo, cria-se uma fobia. Ela representa uma alteração desse medo natural dos seres humanos”.

O psiquiatra destaca que dentre os tipos de fobias, se caracterizam dois grupos: as fobias específicas e generalizadas. “Tem gente que tem fobias por lugares abertos, não consegue passar por praças, medos de coisas mais gerais. Outras têm fobias de lugares fechados, não conseguem entrar em elevadores, que são fobias específicas”.

A consciência de autopreservação fica confusa nas pessoas que sofrem de alguma fobia. Segundo Ruy Palhano, essa característica se dá por conta do trauma superior que o objeto da fobia representa para a pessoa. “Se você tiver um fóbico, por exemplo, de lugares fechados ou elevadores, e tiver algum com uma arma ameaçando atirar caso ele não entre, ele não entra, prefere levar um tiro”.

“As situações fóbicas não inspiram necessariamente risco de vida. O medo, pelo contrário, aparece quando existe esse risco, ameaçando a segurança. A fobia surge de forma inopinada, das situações mais simples possíveis”, destaca Palhano.

Fobia não é medo

As fobias atingem em torno de 1,5% a 3% da população do país, um número maior do que se acredita. Muitas pessoas confundem, no entanto, não tem noção de que sofrem alguma fobia, acreditando que certas situações não passam de sustos naturais, universais. Ruy Palhano diz que o medo mórbido cria barreiras na vida das pessoas que sofrem, sendo estas compelidas a se privarem de algumas situações. “A pessoa fóbica muitas vezes é impedida por uma barreira criada pelo objeto da fobia de realizar tarefas comuns do dia a dia. Você tem sua liberdade impedida, se torna um homem preso em suas fantasias. O homem livre pode fazer as coisas que tem vontade, o fóbico pretende, mas não faz, a cidadania fica comprometida pelas fobias”.

Muitas vezes a fobia também divide espaço com outras doenças, o que eleva a limitação das pessoas que já veem o objeto da fobia de forma distorcida. “Quando os estados emocionais começam a atrapalhar você, inclusive nas funcionalidades, você vai entrar em conflito. Não que fobia ocasione outras doenças, pois são de naturezas diferentes. Ela é diferente de uma doença do pânico por exemplo. Mas pode existir uma pessoa com mais de uma doença diferente, com uma fobia e sofrendo depressão, não que uma tenha gerado a outra, mas ocorre algo que chamamos de comorbidade. Esse conjunto de doenças é comum em pessoas que sofrem de fobias por estas ficaram tristes, tímidas, retraídas por que não conseguem realizar suas conquistas. A sensação de estima das pessoas vai lá para baixo”.

Como tratar

Tratar fobias é mais simples e eficaz do que se acha. Mesmo pessoas que acreditam que nunca conseguirão se aproximar a alguns milímetros de uma aranha ou elevador, podem conseguir através do acompanhamento psicológico. “O tratamento da fobia se dá por dois meios, através das psicoterapias, chamadas de terapia cognitiva comportamental, que são sessões que a pessoa passa para ir demolindo essa crença falsa das fobias e mudando a forma do fóbico ver a situação que gera a fobia. Além disso, também temos o tratamento farmacológico, com medicamentos anti-fóbicos, que acabam consideravelmente com o medo. Hoje se sabe que o medo e a fobia tem áreas especificas no cérebro, esses medicamentos agem especificamente nessas áreas, melhorando a performance das pessoas”, garante Ruy Palhano.

O especialista diz ainda que as duas formas de tratamento aliadas são mais eficientes. “Ao mesmo tempo que é feito o uso do medicamento, é importante o acompanhamento psicológico. Tudo isso para trabalhar as fobias de modo a ir gradativamente vencendo essas barreiras. É possível curar-se da fobia em seis meses, muitas pessoas vivem sofrendo por não procurarem um médico, ou não terem acesso a um psiquiatra”.

Fobia social

O neuropsiquiatria Ruy Palhano explica que uma particularidade chamada fobia social, que não está ligada a objetos ou situações traumáticas representa uma relação direta das pessoas com a sociedade ao seu redor. “A fobia social está ligada a dificuldade de relação com pessoas, e é um tipo especifico de fobia que se dá na relação de um sujeito com outros. Elas geralmente se isolam, não conseguem realizar situações simples como assinar um documento em um local cheio, entrar em uma fila de banco ou até falar em público. A primeira distinção é a consciência da pessoa de ser incapaz de ficar diante de um publico, por exemplo, e ministrar uma palestra”.

Origem das fobias

Ruy Palhano explica que fatores traumáticos podem ser incentivadores dos traumas psicológicos que ocasionam as fobias. “Existem fatores psicológicos traumáticos que podem determinar isso. Por exemplo, uma pessoa que foi sequestrada e colocada na mala de um veículo, esse trauma dessas circunstâncias pode motivar você a ter fobia de lugares fechados. Você ter um ataque de pânico dentro de um elevador, de repente isso pode fazer que você contraia uma fobia de elevadores”. Tramas adquiridos na infância podem ser fatores manifestantes de futuras fobias. “Antigamente era comum se educar na base do medo, usando alegorias como almas, bichos para obrigar crianças a obedecer. Isso tudo acaba gerando nesse processo educacional uma série de traumas nas pessoas que pode repercutir na vida futura”.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, são pelo menos 500 tipos de fobias, que são divididas em fobias de animais, fobias de aspectos do ambiente natural (trovoadas, enchentes, terremotos), fobias a sangue, injeções ou feridas, fobias a situações específicas (altura, andar de avião, andar de elevador), fobias sem classificação específica (medo de vomitar, de contrair uma doença, do escuro, de casar, de ficar solteiro, entre outros).

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