Poucos doadores

Pacientes aguardam anos por um transplante de rim

Em 2015, foram 61 procedimentos, mas no ano passado esse número caiu pela metade; Ao todo são 213 que aguardam na fila de espera para realizar o transplante

Beatriz que passou 9 anos para receber um novo rim, agora pode levar uma vida normal Foto: Honório Moreira

O simples ato de beber água, que para a maioria das pessoas pode não significar nada, para outros é tudo. Para Bruna Letícia Santos, por exemplo, foi um sonho que se realizou. A estudante do curso de Nutrição, de 24 anos, ganhou uma nova vida depois que recebeu um transplante de rim há 9 anos.

Desde os 12 anos, quando começou a rotina de fazer hemodiálise, não sabia o que era ter qualidade de vida. “Mudou tudo. Posso ter uma vida normal. Posso beber água! Coisa que antes não podia, e agora posso beber até um litro se quiser (risos). Mas, de verdade, logo depois que fiz a cirurgia já comecei a levar uma vida normal”, conta Bruna.

Foi em 2005 que Bruna passou a cumprir as sessões de hemodiálise, após as idas e vindas a médicos especialistas e o diagnóstico de insuficiência renal crônica. Desde então, foram 3 anos de hemodiálise, com sessões que duravam até quatro horas, três vezes por semana, muitas aulas perdidas, muitos enjoos. Desde 2008, a futura nutricionista não precisa mais do procedimento. Porém, precisa de atenção redobrada e acompanhamento da saúde por causa da imunidade.
“Esta é a minha segunda casa. Estava com dores no corpo, daí liguei, e eles me disseram para eu vir logo para ver do que se tratava”, disse referindo-se ao Hospital Universitário Presidente Dutra, referência de transplante no estado e onde ela foi submetida à cirurgia.

No Maranhão, 213 pacientes aguardam por um rim. No ano passado, foram realizados 33 procedimentos, número inferior ao de 2015 quando foram feitos 61 transplantes. Neste ano, até o mês de junho, já houve 30 procedimentos com 8 doadores efetivos, ou seja, pacientes que tiveram morte encefálica e cuja doação foi autorizada pela família. São muitos os motivos para o não aproveitamento das doações em potencial, e a principal é o não consentimento da família da pessoa que morreu.

De acordo com a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos do Maranhão, a expectativa é de que neste ano o número de transplantes chegue ao menos perto do índice de 2015. Desde 2000, já foram realizados 565 transplantes no HU.

Setembro verde

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em dezembro de 2016, haviam 21.264 pacientes em lista de espera para transplante de rim no Brasil. Para conscientizar a população da importância da doação de órgãos, unidades da rede de hospitais universitários federais ligadas à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) aderiram neste mês à campanha Setembro Verde. A ação informa o quanto esse ato pode salvar vidas.

Com o tema “Seja Doador de Órgãos! Informe sua família!”, haverá ações de sensibilização e conscientização da população acerca do tema. O HUUFMA foi o pioneiro em transplantes no Maranhão iniciando os procedimentos em março de 2002 com doador vivo. A partir de 2005, começou a fazer com doador falecido (falecido com morte encefálica). Desde 2000, já foram realizados 565 transplantes no HU.

Em toda semana, o Hospital Universitário realiza transplante de doador vivo. Já o procedimento de doador falecido depende da doação pela família. A conscientização da importância em doar algum órgão ou tecido passa, muitas vezes, pelo medo do doador em se submeter ao procedimento médico. Outro problema é quando a família de um potencial doador falecido se recusa a efetivar a doação.

“Infelizmente, o número de doação ainda é pequeno. No caso de doador falecido, a negativa familiar ainda é muito grande, embora tenha melhorado no Maranhão, muito por falta de conhecimento da população, principalmente. Em se tratando de doador vivo, as vezes a família acha que vai ser prejudicada se fizer a doação, mas tudo isso é feito por uma equipe multidisciplinar, com avaliações, exames, tudo para quem tanto receptor quanto doador fiquem bem.

O receptor é acompanhado para a vida toda”, afirma a enfermeira Regina Cruz de Moraes, chefe da unidade de transplante do Hospital Universitário.

Para coordenadora da Central Estadual de Transplante, Inês Oliveira, é fundamental a conversa com a família da vontade da doação. “Informar que você é doador é fundamental. É necessário que a família autorize. Não precisa deixar registrado na carteira de identidade ou motorista, isso começou em 1997 com a Lei 9.434, mas foi abolido em 2001 com a Lei 10.211. Basta a família dizer o sim ou não. Por isso que a nossa campanha é sempre levando a população entender que precisa conversar com a família. Decida pela doação e comunique para a sua família”, pede.

Foto: Honório Moreira/ O Imparcial

Três anos de uma longa espera 

Se para Bruna Letícia a vida agora é só sorrisos, para Maria Cristina Moreira, 47 anos, dois filhos, há um misto de ansiedade e esperança, sempre na expectativa de receber a desejada notícia de que, finalmente, foi identificado um doador compatível. Ela está dentre as mais de duzentas pessoas que estão na lista de espera por um transplante. Sua angústia já dura seis anos, desde que começou a fazer a diálise peritoneal em casa mesmo.

Esse tipo de tratamento é indicado para pacientes que apresentam quadros de insuficiência renal aguda ou crônica. A indicação de iniciar esse tratamento é feita pelo nefrologista, que avalia o seu organismo através de consultas e exames médicos.

“Comecei a fazer em 2011 e aí depois eu vim fazer a hemodiálise. Desde 2014 é essa vida. Três vezes por semana eu estou aqui. Não posso trabalhar. Não posso comer o que gostaria. Não posso beber água. Passo mal, fico enjoada. Meu desejo é que pudesse encontrar doador e fazer a minha cirurgia para ter uma vida melhor”.

A fila
A fila do transplante, como é conhecida, na realidade é um cadastro de receptores com doença renal crônica. A distribuição de órgãos – sob responsabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) – é segundo a Central Estadual de Transplantes democrática, igualitária e funciona bem.

A coordenadora da Central, Inês Oliveira, explica que a destinação dos órgãos captados é definida com base em uma série de critérios. Ela não funciona por ordem de chegada, em que o primeiro a se inscrever receberá o órgão antes do segundo e assim consecutivamente. Os critérios obedecem a condições médicas. São três fatores determinantes: compatibilidade dos grupos sanguíneos, tempo de espera e gravidade da doença.

“Na hora que sai a tipificação do doador ela é colocada no Sistema Nacional e aí é gerado um ranking com todos os que tem compatibilidade com aquele doador. Se o doador é do Maranhão, a prioridade é para o Maranhão; se não tiver a compatibilidade, essa doação vai para a macrorregião. São escolhidos os 10 primeiros do ranking para fazer o teste de prova cruzada, indispensável antes do transplante de rim”, afirma Inês Oliveira.

Cada órgão tem uma fila de espera específica, baseadas na Lei nº 9.434/1997, no Decreto nº 2.268/1997 e na Portaria GM/MS nº 2.600/2009. As relações de pacientes são administradas pela Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do Ministério da Saúde, por meio de sistema informatizado. Apesar de o sistema de transplantes e a fila serem nacionais, as distribuições são regionalizadas.

“Não é mais pelo tempo de hemodiálise a espera por um transplantes, hoje se dá pela imunologia, pela compatibilidade”, comenta Regina Moraes.
O tempo de espera também conta, mas há outros vários fatores. Condições médicas como diabetes, por exemplo, garantem maior pontuação, entre outros. Quem somar mais pontos recebe o órgão. Cada vez que um rim fica disponível, um ranking diferente é gerado.

Doação
A doação também pode ser de pacientes vivos: nesse caso, as doações podem ser feitas por qualquer pessoa de até quarto grau de parentesco ou não familiar com liberação judicial que seja compatível e saudável.

A expectativa de sobrevida de pacientes transplantados depois de cinco anos, segundo o Ministério da Saúde, é de 70% a 80%. O acompanhamento pós-transplante é rigoroso e inclui avaliação semanal por 30 a 50 dias, ajustes medicamentosos, exames e consultas periódicas. Os pacientes com insuficiência renal devem procurar um nefrologista que atue na área de transplante para ser avaliado e colocado em lista de espera.

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