Dívida

Inadimplência aumentou no Maranhão no mês de julho

Diferente do cenário nacional, em julho, o estado teve aumento no número de pessoas incluídas no SPC. Planejamento financeiro é a saída, segundo especialista

Ter crédito na praça ou mesmo o popular “nome limpo” é o objetivo da maioria das pessoas que por uma fase financeira difícil ou por dificuldade em administrar os rendimentos, com despesas que vão se acumulando, tiveram os nomes incluídos em serviços de proteção ao crédito.

Em um país de 14 milhões de desempregados tentando resistir à instabilidade econômica alimentada pela crise política, a inadimplência é um fator consequente à perda da remuneração mensal.

No mês de julho, a inadimplência no Maranhão cresceu 1,25%. Em São Luís, o aumento foi de 1,38%, em comparação a julho de 2016. Números estão acima da média do Nordeste (-2,50%) e da média nacional (-1,17%). São pessoas que se encontram na condição de ter débitos vencidos há mais de 90 dias e, por isso, passaram a compor o quadro de pessoas com restrições ao crédito.

Os dados são da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Maranhão (FCDL). Em contrapartida, a média da dívida em atraso do maranhense em julho de 2017 ficou em R$ 1.893, abaixo da média do Nordeste (R$ 1.947) e nacional (R$ 1.976).

O cartão de crédito é um dos principais responsáveis pela inclusão de pessoas nos serviços de proteção ao crédito. Os usuários dessa modalidade estão mais aptos a acumular dívidas por conta dos altos juros cobrados pelas financeiras.

É o caso de Flávio Gomes, que acabou perdendo o controle e não conseguiu mais pagar as faturas dos cartões de crédito. “Aos 18 anos fiz meu primeiro cartão, depois o segundo, o terceiro e assim foi. No começo eu sabia administrar minhas contas direitinho, pagava em dia.

Mas foi ficando difícil, pois eu estava e ainda estou desempregado e não tive como cumprir mais com os pagamentos. Agora devo estar com uma dívida exorbitante”, conta o estudante de 19 anos.

Por estar desempregado, o estudante não tem previsão de pagar os débitos acumulados com os cartões, mas pretende fazê-lo quando conseguir uma vaga no mercado de trabalho. “Assim que eu tiver um emprego formal, a primeira coisa que farei é negociar meus débitos e limpar meu nome”, assegura.

Já Regiane Castro, 28 anos, que trabalha em uma loja de departamentos em São Luís, o planejamento financeiro passou a fazer parte de sua rotina após ter seu nome negativado e deixar de ter acesso a linhas de crédito. “Foi um choque de realidade e eu passei a ser mais cuidadosa com os gastos. Fui pagando as contas de forma gradual. Por último consegui quitar um débito com a faculdade e limpar meu nome”, relata.

O retorno às linhas de crédito com cartão, empréstimo e outras formas de financiamento são uma oportunidade de adquirir bens e serviços, mas também pode ser uma armadilha se houver descontrole financeiro podendo resultar em novo endividamento.

“Hoje eu sou mais controlada. Ter o nome limpo foi um objetivo e pretendo fazer financiamento de um imóvel, mas de forma mais realista e de acordo com os meus ganhos. Para isso, até fiz o Cadastro Positivo”, revela Regiane.

A saída é poupar

Para Nicodemos Araújo Costa, o hábito de poupar, seria a melhor saída para adquirir bens, fugir dos juros altos e evitar o endividamento. “Se a pessoa poupar durante o ano R$ 1 mil por mês, ela reúne uma poupança de R$ 12 mil por ano. Em três anos, ele teria R$ 36 mil.

Dinheiro que daria para comprar um veículo popular. Do contrário, sem essa poupança, o cidadão pagaria quase R$ 36 mil de juros a mais que o valor do bem”, analisa o economista que também é professor universitário e membro do Conselho Fiscal do Sindicato dos Economistas do Estado do Maranhão.

De acordo com o professor, o exemplo se aplica a qualquer bem. Se o cidadão pretende comprar uma geladeira daqui a tantos meses, deve planejar e poupar dinheiro, assim evita pagar juros. Segundo a lógica do argumento, se as famílias não fizerem isso, vão entrar nos juros bancários que são altos e além de não terem poupando terão que despolpar: pagar o valor do bem e mais os juros.

“Ressalto a importância da poupança na economia. Em países ricos, eles são ricos por causa da cultura da poupança. Aqui nós temos a cultura da despoupança. As pessoas antecipam o 13° que receberiam em dezembro e negociam com os bancos. Quando se precisa adquirir um bem, tem que recorrer ao financiamento a juros bancário”, argumenta Nicodemos.

Quanto ao recurso de pagar dívidas para voltar a consumir, o economista alerta para os impactos. “Isso deve ser feito com cautela. Voltar a consumir descontroladamente cai no risco de fazer novas dívidas, em vez de poupar. O ideal é planejamento financeiro daquilo que se pode consumir e o que se pretende consumir”, completa.

Pagamento de dívidas

Muitos brasileiros utilizaram os recursos das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para pagar dívidas.
Pesquisa realizada pela Boa Vista SCPC com 2.880 entrevistados de todo o Brasil, em junho, revelou que 57% tinham em mente o pagamento de dívidas como o principal destino dos créditos das contas inativas do FGTS. O prazo para saque de créditos do Fundo de Garantia terminou em julho. Agora o saque só é permitido a trabalhadores com doenças graves ou que estão presos e que não puderam ir a uma agência da Caixa no período estabelecido.

Outro recurso a ser liberado pelo governo são R$ 15,9 bilhões em PIS/Pasep que estão inativos. Cerca de 8 milhões de trabalhadores serão beneficiados e a média do valor recebido deve ficar em R$ 750. Terão acesso ao saque das cotas do fundo mulheres com 62 anos ou mais e homens com mais de 65 anos. Anteriormente, os recursos só poderiam ser liberados quando as pessoas completassem 70 anos. No Maranhão, a faixa etária que o número de devedores que mais cresceu no mês de julho foi a de 65 anos.

O desemprego que atinge 14 milhões de brasileiros, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é outro fator que serviu para alongar a lista de inadimplentes.

Nos últimos meses, tem se vislumbrado uma leve recuperação no mercado de trabalho com a elevação no saldo de empregos. Mesmo que os números estejam longe de alcançar a grande massa de pessoas desempregadas, o fator pode vir a diminuir a inadimplência gradualmente.

O mercado de trabalho brasileiro abriu 35,9 mil vagas formais em julho. Foi o quarto mês consecutivo com saldo positivo. O saldo de julho resulta da diferença entre 1.167.770 admissões e 1.131.870 demissões no mês passado. De janeiro a julho, há saldo positivo acumulado de 103.258 novas vagas.

O Maranhão tem acompanhado esse crescimento. No mês de julho, o estado se destacou por obter o segundo melhor saldo de empregos formais do Nordeste e o sétimo do país com a geração de 1,6 mil postos de trabalho.

De acordo com dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o emprego formal maranhense registrou uma abertura de 1.567 postos de trabalho em julho de 2017, configurando o terceiro mês consecutivo de resultado positivo, levando o acumulado do ano a 2,2 mil demissões líquidas, contra 12,6 mil no mesmo no mesmo intervalo de 2016.

O destaque no mercado formal no último mês foi para o setor da Construção Civil, que registrou 1.020 admissões líquidas. Destaque também para a Indústria de Alimentos e Bebidas, que registrou 1,1 mil aberturas de vagas de trabalho.

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