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Psicoterapia psicanalítica: por que o Brasil medica tanto e escuta tão pouco

O país lidera os rankings globais de ansiedade, mas apenas 5% da população faz psicoterapia. A abordagem psicanalítica, uma das mais antigas e menos compreendidas, propõe um caminho que vai além do alívio rápido dos sintomas

(Foto: Freepik)
(Foto: Freepik)

Uma mulher de 34 anos, moradora de São Luís, passou três anos tomando ansiolíticos antes de procurar um psicólogo. Quando chegou ao consultório, não sabia explicar o que sentia. Sabia apenas que a medicação não bastava.

A cena se repete em consultórios de todo o país e traduz um desequilíbrio que os números confirmam: o brasileiro consome remédio para problemas emocionais numa proporção três vezes maior do que frequenta sessões de psicoterapia.

Segundo levantamento do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, somente 5,1% dos brasileiros fazem tratamento psicoterápico. Em contrapartida, 16,6% da população, o equivalente a um em cada seis adultos, faz uso contínuo de medicamentos para questões emocionais ou comportamentais.

A diferença não é apenas numérica. Ela revela uma cultura que ainda enxerga o sofrimento psíquico como algo a ser silenciado quimicamente, e não compreendido.

Essa lógica atinge com mais força as regiões onde o acesso a profissionais de saúde mental é escasso. No Maranhão, dados do DataSUS compilados pela Agência Tatu mostram que há um psicólogo para cada 5,4 mil habitantes na rede pública, o pior índice do Nordeste.

A proporção de psiquiatras é ainda mais grave: um para cada 53 mil pessoas. A conta não fecha, e quem paga por isso é o paciente.

Quando a pergunta muda, a resposta também muda

De acordo com Dr. Fabio Correa, psicólogo especialista em psicoterapia psicanalítica, a psicoterapia psicanalítica parte de uma premissa diferente da maioria das abordagens mais difundidas. Enquanto métodos como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) se concentram no sintoma apresentado pelo paciente e buscam modificar padrões de pensamento disfuncionais, a abordagem psicanalítica investiga o que está por trás do sintoma. A pergunta central não é “como eliminar essa ansiedade”, mas sim “o que essa ansiedade está tentando dizer”.

Criada a partir dos estudos de Sigmund Freud no fim do século XIX, a psicanálise introduziu conceitos que até hoje orientam boa parte da clínica psicológica: inconsciente, repressão, transferência, mecanismos de defesa.

A psicoterapia psicanalítica, por sua vez, é uma derivação mais flexível desse método. Mantém a escuta como ferramenta central, trabalha com associação livre (o paciente fala o que vier à mente, sem censura) e valoriza a relação entre analista e paciente como espaço de revelação de padrões emocionais.

A diferença prática é relevante. Na TCC, o terapeuta costuma ser mais diretivo, propõe exercícios, sugere tarefas entre sessões e trabalha com metas específicas. Na psicoterapia psicanalítica, o profissional assume postura de escuta, intervém com interpretações e ajuda o paciente a construir uma narrativa própria sobre sua história.

O ritmo tende a ser mais lento, os resultados menos imediatos, e o objetivo não é corrigir um comportamento, mas compreender o que o sustenta.

O que dizem os estudos

A relação entre psicanálise e pesquisa científica sempre foi tensa. Diferente de abordagens que se adaptaram ao modelo dos ensaios clínicos randomizados, a psicanálise resiste a ser medida por instrumentos padronizados. Isso não significa que não existam evidências.

Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores da Unifesp, publicada em 2023, analisou 16 ensaios clínicos randomizados envolvendo 1.623 pacientes e concluiu que adultos submetidos à psicoterapia psicanalítica apresentaram redução significativa dos sintomas de transtornos de ansiedade, incluindo ansiedade generalizada, ansiedade social e transtorno de pânico. O estudo também indicou que os resultados foram comparáveis aos de outras abordagens terapêuticas.

Em 2008, Leichsenring e Rabung publicaram uma meta-análise que apontou eficácia da psicoterapia psicanalítica de longo prazo em pacientes com transtornos mentais.

Um ensaio clínico conduzido por Knekt e colaboradores acompanhou 367 pacientes ao longo de cinco anos e verificou que, embora outras psicoterapias trouxessem benefícios mais rápidos, a abordagem psicanalítica apresentava melhores resultados em longo prazo.

Há contestações. Smit e colaboradores, em 2012, concluíram que a eficácia da psicoterapia psicanalítica de longo prazo era equivalente à de outros tratamentos ativos, sem superioridade clara.

O debate segue aberto, mas um ponto parece consolidado: a psicoterapia psicanalítica funciona, e funciona especialmente bem quando o que está em jogo não é apenas um sintoma isolado, mas um modo de existir que causa sofrimento repetido.

O peso do sofrimento que não aparece na receita

Os dados brasileiros sobre saúde mental justificam a preocupação. Estimativas da OMS situam o Brasil como o país com a maior proporção de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo: 9,3% da população, o que representava 18 milhões de pessoas antes mesmo da pandemia.

A pesquisa Covitel 2023 atualizou esse retrato e encontrou 26,8% dos brasileiros com diagnóstico de ansiedade. Entre jovens de 18 a 24 anos, o índice chegou a 31,6%.

Os afastamentos do trabalho por questões de saúde mental mais do que dobraram entre 2022 e 2024, passando de 201 mil para 472 mil benefícios concedidos por incapacidade temporária, segundo dados do Ministério Público do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho. As principais causas foram reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%) e episódios depressivos (25,1%).

A busca por atendimento aumentou. Dados da plataforma Doctoralia mostram que as consultas em psicologia e psiquiatria passaram de 9,4 milhões em 2024 para 11,2 milhões em 2025, um crescimento de 18,5%.

O problema é que essa busca nem sempre encontra o profissional adequado, e menos ainda encontra o tempo necessário para um tratamento que vá além da supressão de sintomas.

É nesse vazio que a psicoterapia psicanalítica encontra seu lugar. Não como alternativa ao medicamento (há casos em que a combinação entre fármaco e psicoterapia é o caminho mais indicado), mas como um tratamento que se propõe a ouvir o que a medicação sozinha não resolve.

A escassez que define quem recebe e quem espera

No Maranhão, a rede pública conta com 88 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e cinco Serviços Residenciais Terapêuticos, conforme dados do Ministério da Saúde de 2024. Para um estado com mais de 7 milhões de habitantes, o número exige que se faça escolhas: quem será atendido primeiro, com qual frequência, em qual formato.

A psicoterapia psicanalítica, com sua exigência de tempo e regularidade, dificilmente encontra espaço em serviços públicos que precisam atender a demandas emergenciais.

A maior parte dos tratamentos com base psicanalítica acontece em consultórios particulares, clínicas-escola ligadas a universidades e serviços sociais mantidos por profissionais que disponibilizam valores reduzidos.

Em São Luís, instituições de ensino superior com cursos de psicologia oferecem atendimento gratuito ou a custo simbólico por meio de estágios supervisionados. É uma porta de entrada, ainda que estreita.

O Ministério da Saúde ampliou o investimento em saúde mental em 53% em 2024 e previu R$ 4,7 bilhões para o setor, com meta de implantar 150 novos CAPS até 2026. A expansão é necessária, mas não basta criar unidades se a oferta de profissionais qualificados não acompanhar o crescimento da rede.

Profissionais que atuam com psicoterapia psicanalítica precisam cumprir três requisitos de formação que vão além da graduação: análise pessoal (o próprio terapeuta precisa passar pelo processo), supervisão clínica e estudo teórico. Esse tripé torna a formação mais longa e exigente.

O resultado, quando o processo funciona, é um profissional preparado para lidar com camadas do sofrimento humano que escapam a protocolos padronizados.

O que o paciente precisa saber antes de procurar

A escolha da abordagem terapêutica deveria partir de uma decisão informada, e não do acaso. Na prática, a maioria dos pacientes chega ao consultório sem saber qual é a orientação teórica do profissional que vai atendê-lo. Não pergunta, não pesquisa, não compara. Aceita o nome que o plano de saúde disponibiliza ou a indicação de um conhecido.

Algumas perguntas ajudam a tornar essa escolha mais consciente. A primeira é sobre o tipo de queixa: se o problema é circunscrito (uma fobia específica, uma crise de insônia, um medo localizado), abordagens breves e focadas costumam oferecer bons resultados.

Se o sofrimento é difuso, se repete em diferentes contextos e parece resistir a tentativas anteriores de tratamento, a psicoterapia psicanalítica pode ser o formato que falta.

A segunda pergunta é sobre disposição. A abordagem psicanalítica exige do paciente uma participação ativa na fala e uma tolerância com o tempo do processo. Não há tarefas entre as sessões, não há metas semanais, não há gráficos de progresso. Há escuta, e há o trabalho de construir sentido a partir do que se diz, inclusive a partir do que se diz sem querer.

A terceira pergunta é sobre acesso. Existem profissionais que oferecem atendimento social, clínicas-escola com vagas semestrais e serviços públicos que incluem psicoterapia de orientação psicanalítica entre suas ofertas, embora com limitações de frequência e duração.

Nenhuma abordagem é superior a outra em termos absolutos. O que existe é um ajuste entre o que o paciente busca, o que o profissional oferece e o que o vínculo entre os dois permite construir.

A pesquisa em psicoterapia, independentemente da linha teórica, aponta de forma consistente que o fator mais determinante para o sucesso do tratamento é a qualidade da relação terapêutica.

Um país que precisa aprender a escutar

O Brasil avançou na conscientização sobre saúde mental. Pesquisa da Ipsos mostrou que 54% dos brasileiros consideram a saúde mental o principal problema de saúde enfrentado pelo país, índice que era de apenas 18% em 2018. O tema deixou de ser tabu em muitos ambientes, e o estigma associado à busca por ajuda profissional diminuiu, especialmente entre jovens.

O avanço, porém, se concentra na superfície. Reconhecer que existe um problema é o primeiro passo, mas transformar esse reconhecimento em acesso efetivo a tratamento exige estrutura, profissionais e, acima de tudo, uma compreensão de que cuidar da mente não se resume a tomar um comprimido.

A psicoterapia psicanalítica existe há mais de um século. Resistiu a críticas, adaptou-se a novos contextos, gerou derivações e segue sendo procurada por pacientes que querem ir além do alívio imediato.

Num país onde a ansiedade atinge quase um terço da população e o acesso à psicoterapia ainda é privilégio de poucos, abrir espaço para essa escuta não é luxo. É necessidade.

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