ECONOMIA

Inflação desacelera e juros podem cair mais

Para economistas, é sinal de que o Banco Central poderá reduzir a taxa Selic dos atuais 6,75% ao ano para 6,5% ou até 6,25%, estimulando o crescimento da atividade econômica

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A inflação continua surpreendendo o Banco Central (BC) e economistas. A expectativa era de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) reagisse em 2018 com a melhora da atividade econômica e a elevação dos valores dos alimentos. Mas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou ontem que a taxa registrou variação de apenas 2,84% no acumulado de 12 meses até fevereiro, muito abaixo da meta para o ano, de 4,5%. Os preços nos supermercados não subiram como o esperado e, por isso, a autoridade monetária pode tomar a decisão de reduzir mais uma vez a taxa básica de juros, a Selic, de 6,75% para 6,5% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 20 e 21 de março.

De acordo com o IBGE, a variação do IPCA foi em 0,32% em fevereiro, o menor patamar para o mês desde 2000. O grupo de produtos de alimentação foi o maior responsável por conter a expansão do índice, ao apresentar deflação de 0,33%. O economista-chefe da Opus Investimento, José Márcio Camargo, afirmou que o mercado está surpreso com o recuo dos preços de alimentos. Além disso, a inflação de serviços desacelerou, acumulando alta de 4,2% ao ano, o menor nível da série histórica — e mostra tendência de baixa.

Política monetária

“A política monetária afeta o setor de serviços e o desemprego que, embora ainda alto, está diminuindo. Então, os dois fatores estão se reduzindo, tornando a redução de juros mais benéfica do que antes”, apontou. “Isso significa que o BC pode diminuir ainda mais a Selic, mas tem que ser lentamente, estudando o ambiente”, completou Camargo.

Excluindo o efeito do grupo de alimentos, a inflação teria ficado em 0,54% em fevereiro, em vez de 0,32%. Flávio Serrano, economista da Haitong, defende, porém, que o Banco Central não deve cortar juros com base na inflação de curto prazo. Ele avaliou que o IPCA de março ainda deve ser baixo, mas destacou que os preços de alimentos são imprevisíveis, podendo causar choques futuros. “Na última reunião, o Copom indicou que fecharia a porta para novos cortes de juros, mas não a trancou. Acho que desta vez vai ser diferente, deve trancar, o que não quer dizer que não possa reabri-la novamente. Isso, porém, vai depender de como se comportarão os preços dos alimentos nos próximos meses”, apontou.

Vicente Koki, analista-chefe da DMI Group, também avalia que o BC deve reduzir a Selic de 6,75% ao ano para 6,5% ao ano na próxima reunião. “Mas, com o IPCA vindo tão baixo, ganha força a tendência de mais um corte, o que levaria os juros básicos a 6,25% ao ano”, avaliou, explicando que, com isso, o Brasil deverá crescer 3% em 2018, como estimado pelo governo.

Aulas mais caras

Em fevereiro, o recuo dos preços no segmento de alimentos foi suficiente para minimizar o efeito sazonal das mensalidades escolares. O reajuste dos cursos regulares, no mês passado, atingiu 5,23%, em média, no país, impactando o grupo de educação, que subiu 3,89%. Brasília teve a menor variação na mensalidade escolar entre as regiões pesquisadas: 3,13%. A dona de casa Orema da Fátima, 61 anos, teve ainda mais sorte. “A escola do meu neto nem aumentou, manteve o valor do ano passado, ou seja, continuamos pagando R$ 600”, comemorou. O músico Hélio Rodolfo Ribas, 57 anos, também teve a mesma (boa) experiência. “O que a gente escuta por aí é justamente o contrário, que iria aumentar bastante a mensalidade, mas não foi o que aconteceu”, disse.

O grupo de transportes teve aumento de 0,74%, devido à alta das tarifas de ônibus urbanos, que subiram 1,9%, em média, e pela gasolina, que ficou 0,85% mais cara. Mesmo assim, a deflação de alimentos segurou o IPCA, que, no primeiro bimestre, ficou em 0,61%, o menor percentual para o período desde o lançamento do Plano Real, em 1994.

Mesmo assim, os consumidores reclamam dos preços. O músico Hélio Rodolfo Ribas, por exemplo, disse que o pacote de biscoitos, que antes comprava por R$ 3, passou a R$ 4,79. “E os produtos que não subiram estão mantendo a mesma média de preço. Para nós, consumidores, ainda há o receio de novas altas. Eu e minha esposa estamos sempre atrás de promoções e pesquisando nos estabelecimentos próximos de casa”, contou. Economistas explicam que os preços não pararam de subir, mas estão aumentando menos do que antes, o que eleva o poder de compra dos trabalhadores.

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