Entrevista // Dom Gilberto Pastana

Preocupação com as pessoas sem religião

Na nossa conversa, falamos sobre a missão da Igreja, os preparativos para as celebrações de fim de ano da Igreja Católica, sobre fé, sobre a Igreja durante a pandemia

Foto: Arquivo Pessoal

Com uma agenda extensa e intensa de atividades dentro e fora da igreja, o Arcebispo Metropolitano de São Luís, Dom Gilberto Pastana, abriu um espaço para atender a reportagem de O Imparcial. Nomeado dia 2 de junho pelo Papa Francisco, o arcebispo, natural do Pará, já havia sido bispo da Diocese de Imperatriz entre os anos de 2005 e 2016.

No retorno ao Maranhão, ele diz estar desenvolvendo um trabalho, à frente da Arquidiocese que compõe 15 municípios, de fazer o que Papa Francisco está pedindo no Sínodo, de uma igreja com comunhão, participação e missão. “Para isso é preciso que os organismos que geram essa comunhão funcionem. Os diversos  conselhos comunitários, paroquiais e arquidocesanos precisam  funcionar com participação, transparência, com a fidelidade de seus membros. Então, eu estou visitando as comunidades,  insistindo  nisso, conversando que todos tem que se sentir membros da Igreja”, disse Dom Gilberto.

O preparatório para o Sínodo 2021-2023 foi realizado em São Luís recentemente. Sínodo é uma assembleia periódica de bispos de todo o mundo, presidida pelo Papa, para tratar de assuntos ou problemas concernentes à Igreja.

Na nossa conversa, falamos sobre a missão da Igreja, os preparativos para as celebrações de fim de ano da Igreja Católica, sobre fé, sobre a Igreja durante a pandemia e ainda de como instituição católica está cuidando de seus fiéis, falamos também sobre Cristofobia, sobre a queda de fiéis na Igreja Católica, dentre outros assuntos.

E sobre Cristofobia, o tema chegou a São Luís com o projeto de lei 261/21, em trâmite na Câmara Municipal de São Luís, que cria no calendário oficial de eventos da capital o “Dia de Combate à Cristofobia”, a ser celebrado anualmente no dia 3 de abril. De acordo com Rosana da Saúde (Republicanos), autora da proposta, o objetivo da proposição é alertar as pessoas da existência desse preconceito. A Cristofobia é a perseguição, rejeição, aversão ou ridicularização pública de uma pessoa, em razão da sua fé em Jesus Cristo. Sobre isso, o Arcebispo também deu sua opinião.

Sobre a questão do ser católico, Dom Gilberto disse o que o preocupa. Dom Gilberto Pestana chama a atenção, não para o número de católicos que está decrescendo, mas para a quantidade de pessoas que se diz sem religião.

O Brasil ainda é o país com o maior número absoluto de católicos no mundo, cerca de 125 milhões, embora, segundo um estudo da Fundação Getúlio Vargas, essse número tenha decaído. Quando o papa João Paulo 2º veio ao Brasil em 1980, 89% por cento dos brasileiros se consideravam católicos. Em 2000, eram 73,89%. Em 2003, eram 73,79%. Mais recentemente, uma  pesquisa feita pelo Instituto Datafolha  apontou que em 2019, 50% dos brasileiros são católicos, 31% evangélicos, e 10% não têm religião.

A região do país que mais concentra quem se diz católico é o Nordeste com 59%, seguido de Sul (53%),  Norte (50%), Centro-Oeste (49%) e Sudeste 45%. Já a maioria dos evangélicos está na região Norte (39%).

Confira a entrevista com Dom Gilberto Pastana:

O Imparcial – Dom Gilberto, como serão as celebrações da Igreja para o Natal, tendo em vista as flexibilizações das medidas contra a Covid-19?

Dom Gilberto Pastana – O Natal normalmente é uma celebração onde se vivencia muito  na comunidade eclesial, no caso, na paróquia. Acredito que este  ano será certamente muito mais vivenciado dadas as circunstâncias em que nós estamos vivendo. A pandemia ainda não passou, porém a porcentagem de  pessoas que estão sendo vacinadas  consequentemente melhora a condição de participação. A gente acredita que será um momento de sairmos da igreja doméstica, para  a igreja paroquial. Neste sentido, as paróquias preparam os fiéis através das cartilhas onde se celebram em primeiro lugar o Natal em família, e depois na comunidade.

As celebrações vão ocorrer sem restrições de fiéis?

Elas vão obedecer aos decretos estaduais e municipais que estarão em vigor. 15 municípios fazem parte da diocese, então as paróquias devem se adequar às leis municipais. Eu diria que Igreja foi uma  das instituições que  conservou, preservou e  ajudou muito no que tange a defesa da vida. Ontem mesmo fizemos uma celebração e todos, sem exceção, estavam usando máscara, mesmo com a flexibilização e nenhum impedimento  para usar máscara. Todos seguindo as orientações sanitárias.

E qual vai ser a programação?

Eu celebrarei na Catedral (Igreja da Sé) tanto a missa do Natal, quanto a do ano novo, e no dia 1º estamos planejando fazer um voo de helicóptero abençoando as famílias, as pessoas, as instituições de saúde, de segurança, especialmente essas instituições que nesse período de pandemia se sobressaíram no trato da vida humana. Junto com a Paróquia São Maximiliano, após a celebração, nós embarcaremos para com Jesus Sacramentado, iniciarmos o ano de 2022 pedindo a benção para toda  cidade de São Luís.

A pandemia ressignificou muita coisa. Com foi o trabalho da Igreja com os fiéis?

Penso que nós não vamos mais voltar ao que éramos, ou seja, vamos ter que continuar com essas duas maneiras de evangelizar: a presencial, mas também a virtual. Eu diria que todas as paróquias durante a pandemia tiveram que se readaptar no que tange à comunicação. A grande maioria teve que inclusive, investir em equipamentos para não perder esse contato com os fiéis. Então, a Igreja durante a pandemia foi muito presente. Foi muito presente  na vida dos seus fiéis,  na vida daqueles também que não são fiéis,  mas que estavam nas redes não só por meio das celebrações, mas através de lives, de assessorias, de reuniões… quer dizer, a evangelização não parou. A catequese, as reuniões, as refelxoes continuaram com horários específicos, mas continuaram. Agora nós atingimos as mesmas pessoas que nós atingíamos quando era presencial? Nós não temos esses dados. Eu tenho uma pesquisa muito  espontânea e diria que aí  depende muito da qualidade de nosso lider, do seu carisma, porque nem todos tem um pouco esse carisma para a comunicação no que tange os meios de comunciação social. Mas de modo geral fomos sim, presentes na vida do povo.

E por falar em alcance, uma pesquisa divulgada ano passado mostrou que está havendo uma queda no número de pessoas que se declaram católicos? Isso preocupa a Igreja?

Não há, se você pegar os censos passados, não há um crescimento das outras religiões, o que há é um crescimento, e é isso que nos preocupa, daqueles que se declaram sem religião. Aqui há uma preocupação, uma preocupação de pessoas que migraram, que tiveram um trânsito em diversas denominações. Inclusive nós estamos tendo muito retorno, se há uma saída de fiéis, mas também ha retorno de pessoas que fizeram um trânsito religioso e depois voltaram para casa. Então o que cresceu e o que está crescendo é justamente esses que se declaram  sem religião, isso nos preocupa.

O senhor acha que há uma razão?

Podemos nos perguntar: isso é  pontual, é fruto do secularismo? é fruto ainda de certas ideologias que declaram a morte de Deus, essa coisa toda? eu não saberia dar ainda uma resposta. Eu digo que aqueles que são católicos conscientes, esses permanecem.

Mas a Igreja está perdendo fiéis?

Nós  não estamos perdendo qualidade, estamos perdendo, se é que é perca, é quantidade, números. Veja por exemplo, na nossa Arquidiocese temos quase 1 milhão e 700 mil pessoas nos 15 municípios que compõem. Digamos que 850 mil, eu penso que temos mais católicos, entre 65% e 70%, mas peguemos a porcentagem de 50%, são 850 mil. Nós atingimos, enquanto discipulado, participação, engajamento, pessoas que se conhecem pelo nome, que vivem a comunidade, 15%. Os outros são batizados, se declaram católicos, mas não tem uma prática cristã, não tem uma vivência na comunidade. Eles vão na celebração de vez em quando, vão talvez pela morte de um ente querido, ou algum acontecimento especial, como Semana Santa, mas  não vão à igreja. Os que estão realmente engajados são 15%. E é o que nós humanamente, até diria, temos estrutura para acompanhar, porque o fiel exige acompanhamento. Ser cristão  é ser discípulo missionário de Jesus, e isso significa acompanhamento. Jesus tinha os grupos, tinha a multidão que o seguia, mas dentro dessa multidão tinha os que estavam muito mais próximos dele, que  recebiam uma formação mais contundente, mais sistemática, mais permanente. Tinha os 12 e dentro dos doze tinha os 4 que conviviam mais com ele. Essa  é a dinâmica, metodologia nossa também. Então é necessário que a gente cuide sobretudo das vocações para poder também crescer, a gente não pode fazer um plano  de crescimento se a gente não tem como acompanhar.

O senhor tem cumprido uma agenda extensa, qual seu propósito enquanto Arcebispo?

O meu grande desejo é que a gente viva aquilo que o Papa tá pedindo nesse Sínodo, que a gente construa  uma Igreja com comunhão, participação e missão. Para isso,  é preciso que os organismos que geram essa comunhão funcionem. Então eu estou visitando as comunidades  insistindo  nisso, conversando. Todos tem que se sentir membros, vestir a camisa, se identificar com a comunidade, se identificar com a sua fé, não fazer proselitismo. Queremos fazer testemunho, queremos  dizer a razão da nossa  fé, a razão da nossa confiança, e isso sem dúvida nós vamos acompanhar, e acompanhar de uma forma sistemática, acompanhar medindo resultados, medindo  qualidade e tendo plano de acompanhamento.

Está em andamento um projeto de lei que cria o Dia de Combate à Cristofobia em São Luís? Existe isso, devemos nos preocupar?

É difícil de responder essa pergunta, dizer que existe cristofobia… esxistem grupos mais tradicionais, mais reacionários, mas não chega a esse ponto de perseguição. Se existe, não conhecemos. A Igreja Católica sempre pautou pelo ecumenismo, pelo diálogo, pelo respeito, e eu acho que é a unica que eu tenho conhecimento que tem uma pauta aberta de diálogo com a religião, com a sociedade, com as raças, com tudo. Porque também o Papa tem falado muito sobre isso, insistido e até mais testemunhado do que falado.

Muito obrigada por ter falado conosco.

Para nós é uma alegria  participar e influenciar na sociedade, porque nossa grande missão não é dentro da Igreja, é fora, na sociedade, é fazer com que a sociedade abrace esses valores que não são só cristãos, mas são humanos, são universais:  valores da verdade, da fraternidade, da igualdade, da justiça, da compaixão, da misercórdia…, isso não são palavras, isso são atitudes que nós devemos realizar no nosso dia a dia.

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