Política · Operação Benedictio

Prisão de Beto Castro balança disputa pela presidência da Câmara de São Luís

Vereador passa a enfrentar incertezas políticas após ser alvo da Operação Benedictio, que investiga um suposto esquema de desvio de R$ 9,6 milhões em recursos públicos

A Justiça do Maranhão concedeu liberdade provisória ao vereador Beto Castro (Avante) (Foto: Reprodução)
A Justiça do Maranhão concedeu liberdade provisória ao vereador Beto Castro (Avante) (Foto: Reprodução)

A prisão em flagrante do vereador Beto Castro (Avante), durante a Operação Benedictio, deflagrada na manhã dessa segunda-feira (15) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e pela Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic), provocou um forte impacto no cenário político da Câmara Municipal de São Luís. Considerado até então um dos favoritos para assumir a presidência da Casa no segundo biênio da atual legislatura, o parlamentar passa a enfrentar um momento de incertezas que pode alterar completamente a correlação de forças para a sucessão da Mesa Diretora.

Beto Castro vinha consolidando sua candidatura desde o início do ano. Após a promulgação da Emenda à Lei Orgânica nº 004/2025, publicada em janeiro, que alterou o calendário da eleição para a Mesa Diretora da Câmara, o vereador já contabilizava o apoio de pelo menos 16 parlamentares — número suficiente para garantir sua eleição ao comando do Legislativo municipal. 

A mudança na legislação estabeleceu que a eleição da Mesa referente ao segundo biênio legislativo ocorrerá a partir de outubro do segundo ano da legislatura, com posse dos eleitos no primeiro dia útil de janeiro do ano subsequente. A alteração, que gerou intensa discussão política no fim de 2025, adiou a disputa interna para o segundo semestre deste ano, ampliando o período de articulações entre os grupos políticos da Câmara. Além de Beto Castro, o vereador Marquinhos também aparece como pré-candidato à presidência da Casa.

O cenário que parecia favorável ao parlamentar sofreu uma reviravolta após sua inclusão entre os alvos da Operação Benedictio. Durante o cumprimento de mandados judiciais, investigadores localizaram aproximadamente R$ 700 mil em espécie na residência do vereador. Segundo as autoridades, cerca de R$ 400 mil foram encontrados em um cômodo da casa e outros R$ 315 mil em outro ambiente. Também foram apreendidos uma pistola calibre 9 milímetros de uso restrito, aparelhos celulares e um veículo de luxo.

A prisão ocorre justamente quando o vereador intensificava movimentações para consolidar sua candidatura ao comando da Câmara. Embora ainda não exista definição sobre eventuais desdobramentos judiciais ou políticos, a repercussão do caso pode enfraquecer sua capacidade de articulação interna e estimular o reposicionamento de vereadores que haviam declarado apoio ao seu projeto político.

No final da tarde desta segunda-feira, a Justiça concedeu liberdade provisória ao vereador que foi preso em flagrante. Ele deverá comparecer periodicamente à Justiça e não poderá deixar a comarca de São Luís sem autorização judicial.

Investigação apura desvio de R$ 9,6 milhões

A Operação Benedictio cumpriu sete mandados de prisão preventiva e dez mandados de busca e apreensão autorizados pela Vara Especial Colegiada dos Crimes Organizados.

As investigações tiveram início a partir da análise de prestações de contas relacionadas à aplicação de recursos públicos e apontam para a existência de uma organização criminosa que teria desviado aproximadamente R$ 9,6 milhões destinados a projetos sociais. Além de Beto Castro, foram expedidos mandados de prisão preventiva contra Evania Maria Sousa Nicacio, Lucivânia Martins Alves Siqueira, José Roberto Santos Cunha e Cristiana Serra Duarte Cunha.

Segundo o Ministério Público do Maranhão, os investigados são suspeitos de integrar uma estrutura voltada ao desvio de recursos públicos oriundos de convênios e emendas parlamentares, além de lavagem de dinheiro e associação com facção criminosa.

As apurações indicam que o grupo teria montado uma rede composta por empresas de fachada, operadores financeiros, agentes políticos e colaboradores responsáveis por ocultar a origem e o destino dos recursos públicos que deveriam financiar ações sociais destinadas a populações vulneráveis.

Suposta ligação com facção criminosa amplia gravidade do caso

Um dos pontos que mais chamam atenção na investigação é a possível conexão da organização com o Primeiro Comando do Maranhão (PCM), facção criminosa com atuação em comunidades da capital maranhense.

De acordo com o Ministério Público, parte dos recursos desviados teria sido utilizada para manter uma estrutura de proteção privada destinada a resguardar a liderança do grupo e intimidar moradores das áreas sob influência da organização.

Na decisão que autorizou as medidas cautelares, a Justiça destacou que o crime de organização criminosa possui natureza permanente e considerou a prisão preventiva necessária para interromper as atividades do grupo, evitar a continuidade das práticas ilícitas e preservar a ordem pública.

Futuro político indefinido

Embora a investigação ainda esteja em curso e os acusados tenham direito à ampla defesa e ao contraditório, a prisão de um dos principais nomes da disputa pela presidência da Câmara cria um novo ambiente político dentro do Legislativo ludovicense.

A depender dos desdobramentos judiciais, o caso poderá provocar uma reconfiguração das alianças construídas para a eleição da Mesa Diretora. Vereadores que integravam a base de apoio de Beto Castro poderão rever posicionamentos diante do desgaste político provocado pela operação.

Além disso, a repercussão pública do caso tende a aumentar a pressão sobre os parlamentares na definição dos rumos da sucessão da Câmara, uma vez que a eleição para a presidência da Casa é considerada estratégica para a condução dos trabalhos legislativos e para a relação institucional com a Prefeitura de São Luís.

Operação mobilizou forças de segurança

A investigação foi conduzida ao longo de diversas fases pelo Gaeco, reunindo análises financeiras, relatórios de inteligência, quebra de sigilos autorizada judicialmente, interceptações telemáticas e diligências de campo.

Durante o cumprimento das ordens judiciais, foram apreendidos celulares, computadores, notebooks, mídias digitais, documentos, registros contábeis, dinheiro em espécie, armas e veículos de luxo.

Segundo o coordenador do Gaeco, Haroldo Paiva de Brito, a ação representa o resultado de um longo trabalho investigativo. 

“A investigação é fruto do trabalho do Gaeco, que reuniu ao longo de várias fases as provas que embasaram as medidas cautelares. E quando se soma a esse trabalho a integração com a Seic, a Polícia Militar e a inteligência da Caei no momento do cumprimento, o resultado é ainda melhor: ganhamos capacidade operacional para chegar a todos os alvos e desarticular uma estrutura que desviava recursos dos mais vulneráveis e se associava a uma facção criminosa. Seguimos com o compromisso de recuperar os ativos desviados”, afirmou.

Batizada de Operação Benedictio, a ação faz referência ao termo latino Benedictus (“abençoado”), em alusão ao Instituto Sê Tu Uma Bênção, entidade investigada por supostamente ter sido utilizada para operacionalizar o esquema de desvio de recursos públicos. A operação também integra uma mobilização nacional coordenada pelo Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), envolvendo Ministérios Públicos de diversos estados no enfrentamento ao crime organizado, à corrupção e à lavagem de dinheiro.

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