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PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Obras no Largo do Carmo revelam trilhos da era do bonde em São Luís

Parte da história do transporte público realizado por bondes na capital foram reveladas com obras de requalificação no Centro histórico, mais precisamente no Largo do Carmo

Reprodução

A execução das obras de reforma da Praça João Lisboa, Largo do Carmo e entorno, considerados pontos importantes do Centro Histórico de São Luís, revelou um pouco da história da cidade que estava esquecida; o transporte de bondes que por muito tempo foi fundamental para o desenvolvimento da mobilidade urbana da ilha.

De acordo com os dados históricos,  o transporte de passageiros por meio de bonde teria ocorrido em 1868, quando foi criado o primeiro sistema de transporte coletivo do Norte e Nordeste na cidade de São Luís, os bondes de tração animal, também conhecidos como “tramways”.  Posteriormente, já na década de 1920, os bondes passaram a ser elétricos, o que tornou o transporte ainda mais eficiente.

De acordo com uma pesquisa histórica publicada no site caosplanejado.com no artigo escrito por Paulo Sá Vale, intitulado, “Quando São Luís saiu dos trilhos”, durante as décadas anteriores ao fechamento das linhas de bondes, as empresas que participavam da manutenção e gestão das linhas passaram por inúmeros problemas. Até que no ano de 1966, o último bonde circulou na cidade de São Luís. O argumento utilizado para tal foi que eles causavam transtorno no tráfego da cidade. Ao longo das décadas seguintes, alguns gestores públicos, como Mauro Fecury, que foi prefeito de São Luís, chegaram a cogitar a volta de algumas das linhas de bondes, mas não saiu do papel e hoje as linhas dos antigos bondes estão cobertas pelo asfalto. A retirada dos bondes, como se pode imaginar, não foi capaz de resolver o problema do trânsito de São Luís.

Segundo Maurício Itapary, superintendente do Instituto de patrimônio Histórico e Artístico do Maranhão (Iphan/Ma) foram achados inúmeros segmentos remanescentes do trilho do bonde que em outrora cumpria o papel de transporte público na cidade de São Luís. No entanto, apesar desses remanescentes achados, muitas outras partes já foram perdidas, possivelmente em decorrência de intervenções anteriores, especialmente na execução de pavimentação daquelas vias.

“Os achados encontrados, trata-se de segmentos, ou mesmo apenas um lado de trilho do antigo bonde, que foram devidamente mapeados e feito sua locação topográfica, para que pudessem ser retirados temporariamente de seus locais originais de instalação. Essa retirada temporária foi necessária para que houvesse a realização dos serviços necessários de compactação da base das vias, para recebimento da nova pavimentação em paralelepípedos. Assim, após os serviços de estruturação da base e pavimentação das vias, os achados dos trilhos antigos retornarão aos seus locais de origem, compatibilizados com a  nova pavimentação em pedra das vias”, explicou Maurício Itapary.

Em entrevista a O Imparcial, Maurício Itapary revelou ainda que esse retorno dos trilhos, com sua devida visibilidade da locação deles, é um grande trabalho de sensibilização e educação à sociedade, visto que considerável parte dela desconhece a existência do uso de bondinhos em outras épocas mais remotas em nossa cidade. “Essa amostragem dos trilhos permitirá compor e evidenciar um registro histórico de nossa cidade, que conciliados as demais intervenções dessa obra, garantirá uma melhor sensibilização da população bem como melhor apropriação da historia de sua cidade”, acrescentou o superintendente.

Um legado histórico para a capital maranhense

Questionado se existe alguma possibilidade caso surja um projeto que possa resgatar essa tradição que foi perdida com o tempo e que faz parte do cenário de muitas cidades do mundo como Rio de Janeiro e Lisboa em Portugal, Maurício Itapary disse que essa possibilidade pode ocorrer se houver um amplo debate. “A obra de requalificação da Praça João Lisboa e Largo do Carmo não prevê a retomada dos bondes como meio de transporte no Centro Histórico de São Luís, conforme informado anteriormente. Os serviços que estão sendo executados são basicamente de melhoria da infraestrutura urbana e de restauração dos bens móveis e integrados da área”, ressaltou Itapary.

Maurício Itapary, enfatizou que os bondes foram os primeiros transportes públicos coletivos em nossa cidade, inicialmente com tração animal e depois elétrico, sendo o mais adaptado em dimensões físicas à capacidade viária das ruas de nosso Centro Histórico. “A Superintendência do Iphan no Maranhão, não tem nenhum óbice acerca de um possível retorno desse tipo de transporte, porém para que isso aconteça acreditamos que primeiro é necessário um amplo debate capitaneado pelo órgão responsável pelo trânsito e transporte na cidade, com a participação dos demais entes federativos e da sociedade civil. Sendo necessário primeiramente um estudo de viabilidade técnica e socioeconômica acerca da retomada desse tipo de transporte na área central de São Luís”, explicou o superintendente.

Ele afirmou que durante as obras, além dos remanescentes do trilho metálico do antigo bonde, nenhum achado foi encontrado naquela região, nem nos segmentos correspondentes às vias, ou mesmo nas áreas de passeio. “Essa situação é decorrente por aquela área já ter sido muito antropizada, pelo processo de transformação que o ser humano já exerceu por anos sobre aquele ambiente. As intervenções passadas, especialmente no que diz respeito à execução da pavimentação em concreto que ate então existiam, possivelmente contribuíram para atualmente não termos tido nenhum tipo de achados arqueológicos, visto que quando ocorreu à demolição dessa pavimentação de concreto, detectamos uma camada de pavimento superior a trinta centímetros de puro concreto, cuja colocação dele naquele terreno pode ter contribuído ao descarte de possíveis outros achados em obras anteriores”, disse Itapary.

O superintendente do Iphan no Maranhão, explicou que o maior legado que São Luís terá com estas obras de revitalização do Centro Histórico será o resgate da memória afetiva e histórica da cidade. Ainda de acordo com Maurício Itapary, os espaços públicos, integrantes da malha urbana do Centro Histórico de São Luís, são fundamentais para a compreensão da forma de ocupação e domínio desse território, já que funcionam como espaço de articulação entre os demais logradouros e edificações da cidade. “Estes espaços sempre foram pontos de convergência e irradiação dos moradores, visitantes, comerciantes e demais usuários da área”, lembrou Itapary. A contratação do projeto de requalificação da Praça João Lisboa e Largo do Carmo com recursos do Governo Federal, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, importou o montante de R$ 301.962,65. Já a execução da obra de requalificação, com recursos da Prefeitura Municipal de São Luís, é na ordem de R$ 4.473.118,82.  O prazo previsto para execução da obra é de 06 meses, tendo iniciado em março de 2020 e previsão de término em setembro de 2020.

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