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25 anos sem Mestre Coxinho

DVD que relembra a trajetória do amo do Boi de Pindaré, um dos maiores poetas do bumba meu boi, que morreu na pobreza

Hoje, Dia de São João, O Imparcial resgata a história de Bartolomeu dos Santos, Coxinho, considerado por pesquisadores e estudiosos da cultura popular maranhense como o maior cantador de bumba meu boi do estado.
Coxinho deixou um legado à cultura do estado e permanece como um dos nomes mais expressivos, mesmo após 25 anos de seu falecimento. O famoso fundador e amo do Boi de Pindaré foi uma das maiores vozes do bumba meu boi no sotaque da Baixada, pelo qual se dedicou por 30 anos. Se estivesse vivo, estaria completando 106 anos.
Reprodução

Foto: mestre coxinho

Coxinho nasceu em 24 de agosto de 1910, em Lapela, povoado de Vitória do Mearim. Sua relação com o bumba meu boi começou cedo, aos 14 anos, como vaqueiro perdido no Boi Reis do Ano, no município. Depois, mudou-se para São Luís. Só após 12 anos morando na capital maranhense é que Coxinho se tornou amo de boi. Em 1945, integrou os batalhões dos bumba-bois de Viana e Pindaré. Foi quando em 1977 Coxinho passou a comandar sua paixão: o Boi de Pindaré como amo, personagem principal da brincadeira.
Em São Luís, Coxinho viveu no Bairro de Fátima, local em que faleceu aos 81 anos. Ele teve sete mulheres e, com elas, um total de 42 filhos. Sua última esposa, Maria Jocelina Sousa dos Santos, de 68 anos de idade, ainda reside no Bairro de Fátima, na casa em que viveu com o marido. Como forma de reverenciar a sua obra, todos os anos acontece no local o Tributo ao Mestre Coxinho.
O legado de Coxinho
Para eternizar a história de Coxinho e a sua importância para a cultura maranhense, o filho do cantador, José Plácido Sousa dos Santos, o Zequinha de Coxinho, que seguiu os passos do pai, tornou-se catador, folclorista, produtor cultural e teve a ideia de retratar a biográfica de Coxinho por meio de um documentário.
O produtor, ao lado do jornalista José Raimundo Rodrigues e Careca de João Câncio se reuniram para dar vida ao projeto. Com uma hora e meia de duração, o vídeo doméstico contém cenas da família, depoimentos de amigos e companheiros de Coxinho.
Produzido em 2013, o documentário é adaptado anualmente para ser exibido e comercializado. No vídeo, o cantador participa de roda de conversas e de momentos de descontração. O DVD Tributo a Coxinho, que também faz parte desse projeto, foi lançado no último dia 18 de junho, no Arraial da Praça Maria Aragão. Parte da verba dos DVDs será revertida para a viúva de Coxinho, Maria Jocelina.
“Preservar a tradição é manter o talento e memória do Mestre Coxinho viva, pois sua trajetória ajudou a construir a cultura de nosso estado. Não só no período junino, mas em todo o ano está sendo feito um trabalho de divulgação e preservação da memória de Coxinho, realizado em escolas e seminários por meio de vídeos e palestras, para que sua história não caia no esquecimento”
Zequinha, filho de Coxinho
Hino do Folclore Maranhense
Reprodução

Foto: Mestre Coxinho do Boi de Pindaré

A autoria mais famosa de Coxinho foi a toada Urrou do Boi, criada em 1972, e que hoje está reconhecida como o Hino Cultural e Folclórico do Maranhão. Após a morte de Coxinho, a toada foi oficializada como hino do folclore maranhense por meio de um projeto de lei criado pelo então deputado estadual Benedito Coroba. A Lei 5.299, de 12 de dezembro, foi sancionada pelo então governador Edison Lobão, que tornou obrigatória sua execução na abertura e fechamento de eventos culturais realizados no Maranhão.
“Falta valorizar o trabalho deste grande artista. A lei que imortalizou oficialmente a toada Urrou o Boi tem um jubileu prateado de 25 anos que passou despercebido. A Lei não é respeitada nem nos arraiais do governo e tão pouco nos privados. Além disso, vários cantores regravam a toada sem pedir autorização para família de Coxinho e reproduzem a música sem pagar nada por isso. O Imparcial está de parabéns por lembrar essa figura de grande importância para cultura maranhense”.
Jornalista e amigo de Coxinho, José Raimundo Rodrigues
Tributo ao Mestre Coxinho
Durante 17 anos, o Tributo ao Mestre Coxinho abre as homenagens ao cantador no período junino. O cantador do Boi de Pindaré morreu aos 81 anos, no dia 3 de abril de 1991. A homenagem a ele começa com o resgate histórico de sua biografia e apresentação do documentário produzido pelo comunicador José Raimundo Rodrigues. Depois, os grupos convidados vão se apresentando. O palco das apresentações é a Praça do Alto de Fátima, no Bairro de Fátima. O tradicional evento reúne variadas manifestações folclóricas, com show de artistas maranhenses, os cantadores de bumba meu boi, danças tambor de crioula, dança do lêle, caroço, dança portuguesa, dança de São Gonçalo, dança do coco, cacuriá, transformando o local em um imenso arraial. A produção é assinada pelo Grupo Fruto da Raça Show.
Novilho Brasileiro (Urrou do boi)
Mestre Coxinho do Boi do Pindaré
Lá vem meu boi urrando,
subindo o vaquejador,
deu um urro na porteira,
meu vaqueiro se espantou,
o gado da fazenda
com isso se levantou.
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou
Boa noite meu povo
Que vieram aqui me ver
Com essa brincadeira
Trazendo grande prazer
Salve grandes e pequenos
Este é meu dever
Saí pra cantar boi bonito pro povo ver
São João mandou
Que é pra mim fazer
Que é de minha obrigação
Eu amostrar meu saber
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou
Viva Jesus de Nazaré
E a Virgem da Conceição
Viva o Boi de pindaré
Com todo seu batalhão
São Pedro e São Marçal
E meu senhor São João
Viva as armadas de guerra
Viva o chefe da nação
Viva a estrela do dia
São Cosme e São Damião
Urrou, urrou, urrou, urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou
O declínio de Coxinho
Em 1979, quando João Castelo foi governador do Maranhão, nomeou Coxinho na Secretaria de Estado de Desportos e Lazer (Sedel). Foi quando ele passou a receber um salário mínimo por mês. A aposentadoria não foi suficiente para suas necessidades. Coxinho, então, passou a mendigar pelas ruas do centro de São Luís. O então deputado estadual José Raimundo Rodrigues tentou por meio de proposta apresentada ao governo para que a aposentadoria de cantadores com mais de 20 anos de presença na cena cultural do estado fosse elevada para o valor de cinco salários mínimos, mas não teve sucesso.
Um cantador feliz com seu talento, mas amargurado com as suas condições de vida que dizia: ‘Fico no Boi de Pindaré até o dia de morrer’. Apesar de ter a idade avançada, problemas na visão e uma chaga implacável nas pernas, que o acompanhou por vários anos, ele se recusou a parar de compor e produzir as toadas. Mesmo doente, o Mestre Coxinho, ostentado em suas vestes, virou noites no ofício de amo do Boi de Pindaré.
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