BASTIDORES

Com fome e com bala

Por que num país da dimensão do Brasil, com tantas aberrações nas desigualdades sociais, com 13,1 milhões de desempregados e outro tanto que deixou de procurar trabalho – os desalentados –, a principal discussão que se trava no centro dos poderes da República está exatamente em armas de fogo. Com crianças pobres sem livros, hospitais […]

Por que num país da dimensão do Brasil, com tantas aberrações nas desigualdades sociais, com 13,1 milhões de desempregados e outro tanto que deixou de procurar trabalho – os desalentados –, a principal discussão que se trava no centro dos poderes da República está exatamente em armas de fogo. Com crianças pobres sem livros, hospitais sem remédios, periferia sem médico e nenhum programa social relevante, o país se ocupa em debater quantas armas, que calibre e quantas balas cada brasileiro alcançado pelo decreto presidencial pode comprar.

O Brasil parece entrar num processo civilizatório involutivo. Ultimamente, milhões de brasileiros são induzidos a se preocupar mais com a situação de penúria da população venezuelana do que os milhões que migram internamente em busca de algum meio de sobrevivência. Se preocupar com a miséria alheia faz parte do sentimento humanitário dos seres civilizados, mas, no caso da Venezuela, massacrada pelos boicotes econômicos norte-americanos, trata-se de um direcionamento político-ideológico sem cabimento.

Pelo decreto do presidente Bolsonaro, caminhoneiros, advogados, jornalistas, políticos, menor de idade e outras categorias profissionais podem portar arma de fogo. Mesmo sendo considerado inconstitucional por especialistas, o debate das armas continua quente e explosivo. Num país com elevadíssimas taxas de homicídios, conflitos no campo por terras e alto poder letal no crime organizado, é imprevisível imaginar o desfecho dessa premissa de batalha. Afinal, os pobres, sem dinheiro para comprar comida e bens essenciais, adquirir uma arma só se for pelas organizações criminosas. Ao invés da mão estendida da fraternidade e da segurança, mostra-se o gesto da pistolada armada.

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