BASTIDORES

Caxias, século 19: terra e talento (1)

Quem pesquisar haverá de concluir que o século 19 foi prolífico em dar grandes nomes caxienses ao país e ao mundo. Haveria algo de, digamos, especial no solo da Caxias daquele tempo, ainda não plastificado pela pavimentação asfáltica que impermeabiliza o chão e vulnera, pelos desvios da corrupção, o caráter de tantos administradores e a […]

Quem pesquisar haverá de concluir que o século 19 foi prolífico em dar grandes nomes caxienses ao país e ao mundo. Haveria algo de, digamos, especial no solo da Caxias daquele tempo, ainda não plastificado pela pavimentação asfáltica que impermeabiliza o chão e vulnera, pelos desvios da corrupção, o caráter de tantos administradores e a prática da Administração Pública neste país?

Haveria, leitor, leitora, sobretudo naquele excepcional século 19, haveria no solo caxiense, no seu ar, na água, no ambiente, alguma etérea substância, uma intangível matéria, um invisível elemento ou uma especial propriedade que, por razões que a razão desconhece, se introduzisse, se infiltrasse em um ser e nele se impregnasse, hibernasse e homeopaticamente liberasse um poder, uma energia ou uma força que estimulasse a pessoa a esculpir caráter, a ter comportamentos e fazer brotar talentos e trabalhos diferenciados em relação ao comum da população?

Enfim, pode a terra em que se nasce ter ou conter algo que influencie positivamente a inteligência e o desempenho de um filho dela?

A resposta parece ser sim. Com certeza eram outros os tempos e o ambiente (meteorológico e sociocultural) da Caxias em que tantos homens e mulheres talentosos nasceram e onde viveram seus primeiros anos.

Há quem defenda a influência direta dos fatores geográficos e climáticos na formação de pessoas e sociedades.

Como de entrada aborda o professor maranhense, doutor e autor, Ricardo Leão, em sua monumental obra “Os Atenienses: A Invenção do Cânone Nacional”, “a hipótese de que os costumes, os hábitos, os temperamentos, a cultura e a civilização como um todo eram resultado da influência direta dos climas sobre o psiquismo das pessoas cruzou séculos, através da obra de literatos, filósofos, cientistas (…)”. O estudioso e premiado professor maranhense relaciona autores, transcreve trechos (inclusive nas línguas originais) de respeitados autores, a partir do influente  — há 2.400 anos — filósofo grego Aristóteles e seu livro “A Política”.

Segundo Ricardo Leão, outro autor, o francês Jean-Baptiste Dubos, em obra de 1719, “sustenta a tese de que determinados povos […] dão provas de possuir um melhor gosto, produzem um grande número de artistas, cujas criações são de qualidade superior”. Dubos chega a escrever que “o clima de cada povo é sempre, conforme creio, a principal causa das inclinações e dos costumes dos homens […]”.

Outro francês que o estudioso Ricardo Leão acolheu, François-Ignace Espiard de la Borde, afirma: “[…] do Gênio de uma Nação, a Causa fundamental é o Clima, com várias outras, subordinadas e consecutivas […]. O Clima é a mais universal, mais íntima Causa física”. Ricardo Leão analisa também o escritor e filósofo alemão Johann Gottfried von Herder, de cuja obra “Ideias Para Uma Filosofia da História da Humanidade”, dos finais do século 18, extrai que: “Cada homem é, portanto, em último resultado, um mundo, que em seus fenômenos externos apresenta semelhanças com aqueles de seu meio […]”. Herder foi aluno de Kant e nele deve ter observado e dele deve ter absorvido as ideias sobre o telurismo e a influência climática e geográfica no desenvolvimento humano.

Por sua vez, o também professor doutor maranhense Rossini Corrêa, advogado e sociólogo e autor de extensa e variada obra, em seu livro “Atenas Brasileira: A Cultura Maranhense na Civilização Nacional”, refere-se às “clivagens sobreviventes”, espécie de separações ou diferenciações sociais a partir da espacialidade territorial, “que contrapõe o litoral ao sertão”: neste “persistiria o arcaico, o primitivo”; naquele, “o moderno, civilizado”.

Além da força telúrica e da teoria dos climas, há a Teoria dos Grandes Homens, para a qual “o progresso humano ocorre devido aos esforços de indivíduos excepcionais”. A Teoria dos Grandes Homens tem origem na obra do professor, historiador e escritor escocês Thomas Carlyle, que observava e, ao final, afirmava: “Entre as massas indistintas e semelhantes a formigueiros existem homens iluminados e chefes, mortais superiores em poder, coragem e inteligência. A história da humanidade é a biografia desses indivíduos, a vida de seus grandes homens”. 

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