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A erosão do discernimento

Carlos Nina - advogado e escritor

Há algo de inquietante acontecendo diante dos nossos olhos — e talvez justamente por isso já não consigamos mais enxergar com clareza. Nunca tivemos acesso tão imediato ao mundo. Em poucos segundos atravessamos continentes, acompanhamos guerras, festas, tragédias e conquistas. A promessa tecnológica era ampliar consciência, aproximar pessoas e democratizar o conhecimento. Mas o resultado parece paradoxal: quanto mais vemos, menos compreendemos; quanto mais somos expostos ao sofrimento e à celebração, menos conseguimos distinguir o que realmente importa.

Nas redes sociais, os acontecimentos perderam hierarquia emocional. Uma partida de futebol provoca explosões de alegria; logo adiante surgem imagens de destruição; vídeos de luxo ostensivo, consumo transformado em espetáculo e vidas cuidadosamente editadas para parecer perfeitas. Depois, tragédias pessoais, degradação urbana, escândalos e descartes humanos. Tudo ocupa o mesmo espaço. Tudo recebe o mesmo gesto mecânico: deslizar o dedo.

O problema não está em ver tudo. Está em começar a sentir quase nada. O filósofo Guy Debord antecipou que viveríamos numa sociedade do espetáculo (1967). Hoje, o espetáculo deixou de ser apenas representação e tornou-se ambiente permanente da existência. Não apenas observamos o mundo: passamos a habitá-lo como fluxo contínuo de imagens.

Nesse processo, o extraordinário e o banal perderam fronteiras. A repetição do sofrimento produz anestesia. A guerra torna-se atualização. A catástrofe vira tendência. A dor converte-se em conteúdo. Não porque as pessoas tenham se tornado necessariamente cruéis, mas porque nenhum indivíduo suporta permanecer indefinidamente em estado de choque.

Para continuar funcionando, aprendemos a nos proteger pela indiferença. Ao mesmo tempo, consolidou-se uma cultura da exposição permanente. Não basta viver; é preciso mostrar. Não basta possuir; é necessário exibir. O luxo torna-se performance pública enquanto o lixo também ganha visibilidade e circulação. Tudo entra na mesma economia da atenção.

Como se não bastasse, cresce uma crise ainda mais profunda: a da verdade. Nunca circularam tantas informações e nunca foi tão difícil distinguir realidade e fabricação. Conteúdos manipulados, imagens descontextualizadas e uma enxurrada de falsidades desorientam o julgamento e corroem a confiança coletiva.

Nesse cenário surge a inteligência artificial — ferramenta poderosa e, ao mesmo tempo, fonte de novas inquietações. Se imagens, vozes e textos podem ser produzidos artificialmente com aparência de autenticidade, instala-se uma dúvida silenciosa: aquilo que vemos aconteceu de fato ou são manipulações que subvertem o espaço público? (Paulo Menezes, 2020).

O desafio do presente não é reduzir o fluxo das telas, mas recuperar o discernimento.

Num mundo em que um gol e um bombardeio disputam o mesmo espaço e o mesmo segundo de atenção, preservar o espanto, a sensibilidade e o senso crítico talvez seja uma das últimas formas de resistência humana.

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Carlos Nina
Carlos Nina Colunista