
Toda violência atormenta, mata. O discurso violento, niilista, me deprime. O amor, como sentimento sublime, desprovido da possessividade patológica, apazigua. Coloca-nos no pedestal da sublimação onírica, numa possibilidade de ser feliz. Porém, a paixão desenfreada, cega, sem limites, é uma violência e aniquila o amor. Transforma-o num reles e mísero tormento. Enfim, transmuda-o em puro e devastador ódio. Eis a escalada fatídica: – amor, paixão e ódio. Tudo que vai ao extremo, sem ponderação e equilíbrio, faz do homem um desregrado infeliz, ou um simulacro a viver uma falsa felicidade, que só ele crê na sua existência. Viver sem limites. Beber sem limites. Rezar ou orar sem limites. Comer sem limites. Crer sem limites. Amar sem limites. Tudo isso realizado, sem um freio racional e de modo ponderado, nos conduz a uma prática de exclusão. Eu sou eu, e o outro nada é. Eis o grande perigo: quando o fundamentalista vem a mim, como o demônio a tentar Cristo, e diz, com a veemência dos puros: – Eu tenho fé e estou salvo. E ainda acrescenta: – Tu, que és um incrédulo, estás no fogo do inferno. Pronto: está dada a sentença da condenação definitiva. Para escapar da tragédia desse brutal castigo, que nem o próprio Deus impõe, uma única saída: seguir a sua fé, para alcançar a suprema salvação.
O pior de tudo é que deturpam as lições deixadas por Cristo. Uma delas está na parábola do fariseu e do publicano. Jesus fez uso desse simples e instrutivo ensinamento para mostrar que o meu e o seu julgamento não são infalíveis e únicos. Por isso mesmo, recorreu a dois personagens. Um cumpridor da lei, e o outro um pobre diabo, que mal atrevia a levantar os olhos para os céus. O primeiro, do alto da sua pureza, agradecia ao Senhor por não ser igual aos outros – os ladrões, desonestos, adúlteros etc., e tantos mais etecéteras –, enquanto o publicano, pecador contumaz, dizia, a carregar nas suas pesadas culpas, que era um canalha, safado, prostituto e outros tantos etecéteras. No final, afirma Jesus, o pecador recebeu todas as bênçãos e foi para casa com os seus pecados remidos, e, sabiamente, conclui: quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será exaltado. Moral da história: é mais conveniente ser publicano do que fariseu, porque não adianta apontar os erros dos outros com o dedo sujo.
Essa passagem me faz pensar sobre a fé. Fé é um ato de sentir e não de ter. Sente-se a fé, ao invés de ter-se a fé. Como a fé denota esperança, ela reproduz um sentimento individual. Cada um de nós crê em algo, na possibilidade de esperar que alguma coisa aconteça. Tanto isso é verdade que tive um amigo que afirmava com a veemência de sua fé: – Meu Cristo é Che Guevara. O que ele queria dizer? Manifestava a sua fé nas práticas e ensinamentos do grande guerrilheiro, que doou sua vida numa dedicação permanente em defesa dos menos favorecidos, crendo que a transformação do mundo se operaria através de movimentos armados revolucionários. Quem crer, nessa e noutras dimensões, tem esperança de que, pela fé, é possível transformar-se a si mesmo e aos outros.
O mais fundamental da fé é ter a liberdade de crer. É como o amor. Amar sem liberdade é apenas estar aprisionado a um vazio. Esse meu amigo cria em Guevara, mas não me obrigava a aderir a esse sentimento. Ainda bem. Pela sua crença, não creio que tenha ido para o inferno, ou esteja na iminência de ir. Talvez ele seja o publicano da parábola. Ou, quem sabe, receba as bênçãos do filho pródigo, ao retornar à casa do Pai. Mas, uma certeza: – a liberdade é o alimento da fé. Fé sem a liberdade é arbitrária, despótica, impositiva, apenas ritual, porque assentada numa suposta sinceridade. Daí o fundamentalismo da fé ser a essência da sua negação. Os fundamentalistas não hesitam em impor a sua crença. Num paradoxo: matam por ela. E, dizem: é o único caminha da salvação, tanto espiritual como materialmente. A democracia, o pluralismo, a tolerância religiosa, a liberdade de expressão, a separação entre a Igreja e o Estado, tudo isso tem pouca ou nenhuma relevância para esses radicais que põem a sua fé acima de todos os valores. A sociedade tenta dar passos adiante, e os fundamentalistas insistem em retornar ao passado.
Na democracia, o voto simboliza a fé de quem escolhe, com liberdade, não estando vinculado a qualquer crença religiosa. Por ser o voto a principal forma de manifestação democrática, é de uma crueldade doentia vincular-se esse dever de escolha soberana a crenças religiosas. Fé e voto nunca conviveram pacificamente. As guerras religiosas levaram a atrocidades brutais, com torturas e assassinatos de inocentes, que tiveram seus corpos calcinados nas labaredas das fogueiras da insensatez. Vive-se o Estado laico, mas, até aqui, rompido o negro período da inquisição, sem o fundamentalismo medieval da condenação ao fogo eterno. Já bastam as fogueiras do passado, que transformaram em cinzas corpos de seres humanos que teimavam em professar ideias divergentes e outras crenças. Ser cristão é um ato de fé e não de voto. A liberdade de ser cristão é a mesma liberdade de votar, sem as amarras de uma postura medieval de exclusão. Ter fé e crer são sentimentos que não negam a liberdade individual do ato de escolher e votar. Deus sabe quem é fariseu e quem é publicano. E aí vem aquela verdade intransponível: quem não tiver pecado, atire a primeira pedra. Habilite-se, pois, pegue da pedra e acerte, com a sua fé, o primeiro infiel. Mas cuidado para não ir para o inferno, ou assumir as forças demoníacas da insensatez.
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