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No Maranhão

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RETRATAÇÃO

Por uma mancha a menos

Desenrolar de uma investigação policial equivocada acabou levando à “condenação social” do jovem Ayrton Campos Pestana

Ayrton recebe abraço ao sair do presídio. (Foto: Reprodução/vídeo)

Sujeira é coisa fácil de limpar. Bastam alguns apetrechos, água e sabão, e logo se tem um ambiente limpo outra vez. Sujeira não é mancha. E para a maioria das manchas, não há limpeza ou substância que dê jeito, elas continuarão por lá.

A vida de um ser humano tem inúmeras sujeiras diárias, bem fáceis de eliminar: pensamentos secretos, desejos ocultos, palavras atiradas no impulso de uma emoção, deslizes profissionais. O problema é quando uma sujeira simples como essas causam uma mancha difícil de remover.

Aqui, a sujeira pode ser traduzida como a pressa da polícia em encontrar o suposto culpado de um crime chocante. Já a mancha seria o próprio desenrolar da investigação policial, que acabou levando à “condenação social” o jovem Ayrton Campos Pestana, equivocadamente apontado como o principal suspeito do homicídio que vitimou, na última terça-feira (16), o publicitário Diogo Adriano Costa Campos (41), morto com um disparo de revólver após uma discussão no trânsito, em São Luís.

Em tempos de redes sociais, basta um nome em uma mão, que logo a outra já acessa fotos e revira a vida de quem quer que seja. Na mesma tarde da trágica morte do publicitário, uma única – e frágil – evidência levou a Polícia Civil a considerar Ayrton Pestana suspeito. Mesmo sem resultado de perícia no automóvel supostamente usado por Ayrton, o jovem teve a prisão preventiva decretada e foi encaminhado ao Complexo Penitenciário de Pedrinhas.

Em poucas horas, ele e a família estavam com a imagem na cabeça e o nome na boca da população ludovicense, revoltada com o crime. O pai insistia que o filho era inocente, assegurava que a placa do carro visto nas câmeras havia sido clonada, mas o estrago já estava feito. “O pai está tentando proteger o filho” foram as palavras do experiente delegado Wang Chao Jen, rápido e seguro na resposta da investigação, certamente pressionado pelo anseio popular e, não raro, pelas ligações familiares da vítima: Diogo Adriano era sobrinho do ex-presidente da República, o maranhense José Sarney.

Sim, o pai tentava proteger o filho, porque é exatamente o que um pai faz, em especial, quando tem certeza do álibi que o inocenta: Ayrton estava em casa. O carro da família, que tem características semelhantes às do veículo usado no crime, jamais saiu da porta da oficina do pai no momento em que Adriano levava um tiro fatal, distante dali. Mas isso tudo a polícia só descobriu depois de dois dias de luta incansável daquele pai protetor, que percorreu estabelecimentos vizinhos para encontrar evidências que pudessem comprovar a inocência do filho.

Depois, mais uma prova – desta vez, cabal – acabou tirando Ayrton da cadeia: a perícia feita pelo Instituto de Criminalística (Icrim) não encontrou vestígios de pólvora no veículo da família de Ayrton. De repente, em vez de Wang Chao Jen, foi o delegado George Marques, responsável pela Superintendência de Homicídios da Capital (SHPP), que passou a falar com a imprensa. O que houve internamente não se sabe ainda; a Secretaria de Segurança Pública apenas limitou-se a dizer que as investigações teriam continuidade para logo se encontrar o verdadeiro assassino.

Quando finalmente saiu do presídio, onde ficou por cerca de 48 horas, Ayrton foi recebido com festa do lado de fora. Os mesmos parentes e amigos que fizeram vigília na porta da SHPP também o aguardavam emocionados em Pedrinhas. Em meio a todo aquele misto de sentimentos, o isolamento social para conter o contágio do coronavírus deu lugar a abraços calorosos, permeados pelas inconfundíveis sensações de alívio e liberdade.

Se, por um lado, Ayrton Pestana e a família agora descansam, por outro, ficam também sentimentos difíceis de esquecer: mágoa, medo, tristeza diante do que foi vivido, angústia. Não é de se espantar que nem o inocente Ayrton, nem o pai, nem ninguém que o ama agora prefira o silêncio. Compreendemos e respeitamos.

Nós, de O Imparcial, imbuídos na missão de bem informar a população brasileira, especialmente a maranhense, acompanhamos as investigações e noticiamos cada passo dado pelos investigadores. Diante da reviravolta do caso, com a inocência incontestável de Ayrton, tomamos a atitude que pensamos ser uma obrigação de todos aqueles que fazem jornalismo com seriedade e sem sensacionalismos: retiramos do ar todas as publicações anteriores, que, baseadas nas informações policiais, apontavam um jovem inocente como suspeito de um crime terrível.

“Por uma mancha a menos” é isto! Não se pode varrer sujeiras para debaixo do tapete. É preciso agir com responsabilidade e compromisso com a verdade. De nossa parte, com essa mancha Ayrton Pestana não conviverá.

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