DIA DOS PAIS

O pai que procurou o filho desaparecido em 15 estados sem perder a fé

Após ser informado do desaparecimento do seu filho, o senhor José Francisco Rodrigues não mediu esforços para encontrá-lo. Com uma placa e muita fé, ele percorreu 15 estados

Reprodução

“Você viu esse menino? É meu filho, está desaparecido”. Com essas palavras, José Francisco de Fátima Rodrigues aborda motoristas pelas ruas de São Paulo. De carro em carro, ele entrega panfletos idênticos às placas atadas ao corpo. Nos cartazes, as fotos do filho mais novo divide espaço com cinco telefones diferentes e uma informação: “ele sofre de esquizofrenia e depressão”. Nesse trabalho paciente, o moreno baixo anuncia o desaparecimento do filho mais novo, Cleilton. A cena se repetiu quase diariamente por mais de dois anos, até que o ex-soldador conseguiu achar o filho nas ruas de Brasília no ano passado. A saga de José Francisco iniciou no dia 11 de março de 2016. Morador de Timon, o exsoldador recebeu um telefonema perturbador. O filho mais velho, Wilson, noticiou que o irmão havia desaparecido no interior de São Paulo. Na época, Cleilton chorava muito, tinha insônia e tinha mania de perseguição. “Acho que ele sofreu com a distância, não aguentou e quis voltar”, tenta explicar o pai. Mesmo com esses dados, não quiseram registrar caso na delegacia de Guariba, 340 km de São Paulo. “Meu filho foi na delegacia. Mas lá, as pessoas só ouviram ele e não fizeram o Boletim de Ocorrência”, conta.

Vinte dias depois e sem notícias de Cleilton, José Francisco decidiu procurar por conta própria. No banco, pediu um empréstimo de R$ 4 mil e foi a pé para São Paulo. Na mochila
iam os documentos, as poucas roupas e o kit de higiene. Ao corpo estavam os dois cartazes amarrados com um barbante. “Eu sabia que ele tinha distúrbio. Não voltaria para casa e nem para Timon”, lembra. No caminho, o pai de 10 filhos passou por 15 estados do centro-sul do país. “Eu fui a pé, peguei carona, pegava ônibus. Pois para procurar temos que andar muito mais a pé do que de carro”, relata.

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Sem desistir

“Várias coisas passam pela nossa cabeça nessa hora”, confessa o ex-soldador. Andando sozinhos pelas estradas, José pensava constantemente no filho perdido. “Eu pensava que ele estava morto. Pensava que não ia encontrar e que não ia”, lembra. Mas em nenhum momento José Francisco pensou em desistir. “Se a gente desistir, ninguém consegue nada”, relata. Ao chegar em Guariba e questionando as autoridades, ele recebeu uma notícia promissora de que o filho estaria em Araraquara, 278km de São Paulo. “Encontraram Cleilton na rua. Ficaram dois dias com ele e mandaram para a rodoviária do Tietê”, conta. No Terminal Governador Carvalho Pinto, maior rodoviária do país, ele sumiu novamente. “A assistente social de Araraquara mandou ele para São
Paulo sem endereço, documento, sem rumo, só para tirar da cidade deles”, critica. A ação já é um antigo problema do estado, que convive com atividades constantes de higienização pelos poderes públicos.

Na capital paulista, ele comprou um mapa, onde viu outros estados divisa. “Como ali é tudo muito perto, se ele saísse de São Paulo ia cair em outro estado próximo. Eu via os estados divisa e fui caminhar por eles”, pensou. Por onde passava criou a estratégia de realizar um Boletim de Ocorrência, na esperança de que, se Cleilton fosse encontrado pela polícia, ele fosse avisado.
“Eu tenho mais de 15 boletins”, confere

O fim de uma saga

José conseguiu destaque nacional após uma matéria da TV Folha revelar a história. “Antes eu ia nas televisões e os produtores falaram que minha história não dava audiência. Eles diziam que tem muita gente perdida em São Paulo e que meu filho era mais um”, relata. Após a publicação da matéria, José Francisco foi chamado aos programas de Televisão. “Onde eu chegava eles
me davam um espaço”, conta.

Esperto, o ex-soldador passou a ir nas praças principais das cidades, onde as emissoras locais realizavam programas sobre desaparecidos. “Em Salvador, eles colocam no meio da praça para quem quiser anunciar o desaparecido”, exemplifica. Mas somente no final do ano passado, após ficar conhecido em rede nacional, ele recebeu uma informação. “A pessoa falou que tinha visto uma reportagem e que reconheceu meu filho nas ruas de Brasília”, lembra emocionado. Ele não esperou duas vezes, pegou um ônibus e foi diretamente para a capital nacional. “Deus iluminou os meus passos e caminhos e fez com que eu encontrasse meu filho em Brasília”, agradece.

Segundo o pai, Cleilton estava na calçada. A imagem emocionante foi gravada pela câmera de um celular. Chorando muito, ele não sabia como agradecer o presente de Natal. “Oh meu Deus, obrigado. Ohh Jesus!”, gritava agradecendo aos céus. Abraçando, o pai dava carinho ao filho que mal o reconhecia. “Ele estava horrível. A gente cria os filhos no bem e bom, e acontece uma coisa dessas. Ele não estava bem”, explica. Para o pai, a ação do filho foi muito sem sentido. “Cleilton estava sem reação, acho que não me conheceu”, confessa.

Hoje o Cleiton não sai de casa. Sempre perto do pai, está em constante tratamento. Para os que ainda buscam os filhos, José deixa um lindo recado: “Não perca a esperança e nem a fé em Deus para encontrar o seu filho ou sua família”, aconselha.

O preconceito

Negro, de aparência simples, José Francisco conta que sofreu muitos preconceitos durante o caminho. O ex-soldador, que perdeu a mão esquerda anos antes por causa de uma granada
que achou no quintal, facilmente era taxado como mendigo. “A forma como eu andava, com uma mochila nas costas e um cartaz amarrado no corpo, as pessoas achavam que eu era doido. Como meu filho parece muito comigo, achavam que era eu mesmo no cartaz e me aproveitava da situação”, relata. Segundo Francisco, durante as buscas ele foi muito discriminado. “Todos os preconceitos por qual passei me magoaram muito”, salienta. “Quando eu me aproximava de um restaurante, não era atendido. Achavam que eu ia pedir. Às vezes na hora de embarcar em um ônibus, as pessoas achavam que eu ia pedir para entrar de graça”, conta. Com essa vivência, ele analisa: “Mendigo e gente pobre, pro lado do sul, não tem valor de nada não. É um lixo”, opina.

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