CORONAVÍRUS

No Maranhão

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ARTIGO

Viver é Bom Demais!

Final de ano, época de ficar perto de quem gostamos, mas também de sofrer e lamentar a ausência de outras que também amamos, mas que, por alguma razão, não podem estar conosco nestes momentos de confraternização. Virada de ano não se trata apenas de mais uma convenção, embora seja uma delas. Muito mais do que […]

Final de ano, época de ficar perto de quem gostamos, mas também de sofrer e lamentar a ausência de outras que também amamos, mas que, por alguma razão, não podem estar conosco nestes momentos de confraternização. Virada de ano não se trata apenas de mais uma convenção, embora seja uma delas. Muito mais do que isso, é um marco divisor de águas entre o que fizemos, ou deixamos de fazer no ano que findou, e o que pretendemos para o ano que começa. Sempre com muita esperança.
Estes tipos de marcos são, a um só tempo intrigantes e interessantes. Quando estamos no Maranhão, por exemplo, e vamos para o Piauí, o Rio Parnaíba está no meio do caminho entre os dois estados. Atravessamo-lo e, do outro lado, temos pessoas com outra naturalidade, outro governo, outros costumes, até com outra forma de falar…
Mais instigante é o limite entre países vizinhos. A fronteira do Brasil com o Uruguai, por exemplo, tem 985 km ao longo do estado do Rio Grande do Sul. Naquela enorme fronteira tem a cidade de Santana do Livramento do lado brasileiro e Rivera, pelo lado uruguaio. São cidades conurbadas (que nome!), ou “aglomerados urbanos conjuntos”. Há outras cidades brasileiras e uruguaias nesta condição, que dizemos popularmente que possuem “fronteira seca”. O marco entre elas é uma avenida que separa duas cidades com populações que tem nacionalidades, bandeiras, hinos, moedas, língua oficial diferentes, embora os hábitos e costumes possam apresentar interfaces.
Mais interessante ainda é a “linha imaginária” do Equador que divide os dois hemisférios da terra: Norte e Sul. A “linha” passa sobre Macapá, no pequeno estado do Amapá, a única capital brasileira que tem este privilégio. Naquela capital foi erigido o “marco zero”, um monumento que simboliza aquela divisão simbólica. Naquele ponto pode-se ter um pé no hemisfério norte e o outro no hemisfério sul. Surreal?
As fronteiras entre estados e países foram conquistadas humanas através de acordos, alguns até conflituosos, como acontece com a fronteira seca entre o Ceará e o Piauí, em que há áreas indefinidas. Populações que não sabem ainda em que estado vivem. Falta ali, consolidar os limites que depende do entendimento entre homens.
A fronteira entre dois anos tem uma conotação diferente. À zero hora do dia 31 de dezembro, na maior parte do planeta, todos se cumprimentam, abrem champanhas (quando podem), sorriem, cantam, dançam, exprimem as suas alegrias e desejam aos demais: Feliz Ano Novo! Esta também é uma convenção, até porque pode ser manipulada por canetada do governante de ocasião. Aqui no Brasil, por exemplo, devido à designação do inquilino do Palácio do Planalto, quem está no Sudeste, Sul, Centroeste, tem virada de ano diferente de quem está no Nordeste e no Norte.
Todas essas fronteiras descritas até aqui são previsíveis. Se estivermos caminhando nas suas direções elas acontecerão. Inexoravelmente. Contudo, há uma fronteira que não é convencional, surge na nossa trajetória, muitas vezes quando sequer temos noção de que estamos indo na sua direção: A fronteira entre viver e morrer.
Quando chegamos diante dela e saímos ilesos, passamos a refletir com muito mais intensidade, o quanto é gostoso estar vivo. Como é bom viver! Quem já esteve na fronteira entre a vida e a morte consegue valorizar mais ainda a dádiva da vida. Eu posso falar disto, porque experimentei, em duas vezes, esta fronteira. Isto me fez apreciar mais acerca de tudo o que está em meu entorno. Talvez por isso decorra a minha obsessão em fazer exercícios físicos. Valorizar cada momento do viver, mesmo os aparentemente prosaicos, de pequena relevância, ou “muito comuns” para merecerem algum tipo de atenção, como um passarinho cantando numa fiação elétrica de uma cidade como Fortaleza, uma flor dessas plantas de sarjeta de rua se abrindo, uma borboleta voando, uma criança dando os primeiros passos ainda trôpegos, um idoso com a sua cabecinha branca, curvado pelo peso do tempo sobre a sua dorsal, com seus passos pesados, lentos e curtos. Tudo isso tem um novo sentido na minha vida.
Quando jovens não valorizamos muito (ao menos assim parece) esses detalhes fundamentais na nossa trajetória por este belo planeta azul. A irreverencia, o voluntarismo, a irresponsabilidade dessa fase da vida, que nos deixam saudades quando chegamos à fase madura, nos induzem a exageros que muitas vezes podem provocar sequelas que se tornam irreversíveis, mais tarde.
Em qualquer fase da vida, final de ano como este de 2015, é um bom momento para planejar o futuro, lembrando dos versos sábios de Fernando Pessoa de que “viver não é preciso”, porque muito do que acontece na nossa trajetória vem do acaso. Mas podemos “ajudar o acaso” não entrando em jogos perigosos. Isto, embora não nos proporcione total segurança, ao menos nos garante que fizemos a nossa parte.
Feliz Ano Novo a todos os leitores (e são muitos, felizmente) que me prestigiaram durante todo este ano por esta coluna. Um dos meus planos, para ser fidedigno com o texto, é que nos encontraremos muito mais vezes em 2016.
 
*José Lemos é professor e Coordenador do Laboratório do Semiárido (LabSar) na Universidade Federal do Ceará
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